7 de março de 2016

Um esclarecimento que nunca é demais...




... repetir.

“Os inimigos da liberdade (dos outros)”



Um excelente artigo este, de Alexandre Homem Cristo, no Observador:

Agosto de 2014. Publico, no Observador, um artigo de opinião sobre a (falta de) exigência no acesso à carreira de professor e o seu efeito na degradação da qualidade do ensino público. Nesse dia, um vulcão de ódio explode nas minhas contas de e-mail e facebook. Na caixa de comentários do jornal, dezenas ocupam-se a escrutinar (e a inventar) a minha biografia – quem são os meus pais, onde cresci, onde estudei, onde trabalhei, com quem fui visto. A difamação (pessoal e profissional) estende-se aos blogs e às redes sociais. Recebo ameaças de agressão, vindas de quem afirma saber onde moro. Sou insultado e alvo de todo o tipo de calúnias. E, nos meus locais de trabalho, e-mails, cartas e abaixo-assinados exigem o meu despedimento. A discordância não bastou, quem não gostou do que leu tentou lixar-me a vida.

Bem sei que este episódio pessoal nada tem de excepcional. Quem escreve nos jornais colecciona episódios similares com professores, enfermeiros, ambientalistas, defensores dos animais. Ou alentejanos, como aconteceu nestes dias com o (meu amigo) Henrique Raposo, a propósito do seu livro “Alentejo Prometido” (FFMS, 2016). De facto, situações do género, com diferentes graus de gravidade, sucedem vezes demais para que ainda haja quem se faça desentendido quanto ao essencial – estar-se do lado da liberdade de pensar, dizer e escrever, mesmo quando se discorda do que os outros pensam, dizem e escrevem. E, no entanto, desentendidos há.

O ódio existe e existirá sempre. Daí que a questão não esteja tanto no asco incorrigível e efémero que habita as redes sociais, mas em quem o legitima e se alimenta dele. É simplista apontar o dedo às redes sociais, dizer cobras e lagartos do facebook e jurar desprezo eterno à internet. Mas não é eficaz. O culpado das proporções que o ódio cibernético atinge não se chama Mark Zuckerberg nem facebook. E, por maior impacto que tenha a sua boçalidade, os principais inimigos da liberdade não são os idiotas anónimos que berram, queimam escritos ou insultam quem os escreveu. São, afinal, os que se calam, os que receiam enfrentar a multidão, os que justificam as agressões com um “ele pôs-se a jeito”, os que toleram o intolerável e encontram um ângulo para encaixar a violência desde que os violentados pensem de maneira diferente da sua.

Infelizmente, muita gente que deambula no espaço público demonstrou viver num tempo que é mais velho do que novo. Não é de agora e a perseguição ao Henrique Raposo só serviu para nos avivar a memória. Que vários alentejanos não tenham reconhecido as suas raízes no livro do Henrique é respeitável, embora se lamente que o tenham expressado por via da intimidação. Mas que outros (e foram tantos) tenham validado essa intimidação ultrapassa os limites da intolerância. Por exemplo, aGaleria Tintos e Tintas, onde em Lisboa deveria decorrer o lançamento do livro, não quis estar envolvida na polémica, encolheu-se e cancelou. Por exemplo, Nicolau Breyner, em declarações ao DN, gracejou sem graça: “fazem bem os alentejanos em ameaçá-lo. Estou a brincar, ninguém deve ser ameaçado, mas devia pensar bem no que escreve”. Por exemplo, Francisco Louçã reduziu o assunto a um não-assunto e, sem uma palavra acerca das ameaças ao Henrique e à família, sentenciou que “fazer desta coisa que foi cometida por Raposo um caso nacional é que só mesmo por desfastio”. Os cobardes, os que acham que se deve “pensar bem” antes de escrever, e os que desdramatizam a violência contra os seus adversários políticos. Eis aqueles que dão força à intimidação das redes sociais. São eles os maiores inimigos da liberdade de expressão.

Habituámo-nos a que o exercício da liberdade seja um acto trabalhoso, de bravura e de resistência contra a javardice. Mas habituámo-nos mal. A liberdade tem um preço, já se sabe, mesmo que não devesse ser assim. Mas o que poucas vezes se assinala é que esse preço só se cobra a alguns, já que as liberdades que se reconhecem a uns não se toleram a outros. O Henrique Raposo não foi o primeiro a escrever sobre a relação amoral da região com o suicídio ou sobre a opressão das mulheres no Alentejo dos seus avós (e, de resto, ainda hoje). Mas ao Henrique não se perdoa que o tenha feito. Afinal, tudo o que separa a tolerância da intolerância é um nome – o do autor. Pode ser que, da próxima vez que se marchar pelos direitos conquistados no passado de Abril, haja alguém que lembre a batalha concreta do presente: a liberdade no Portugal de 2016, porque depende de quem a exerce, ainda não é um valor absoluto.

5 de março de 2016

Dos "liberais preocupados"



Há por aí pessoal particularmente sensível à "preocupação" relativamente a Trump ser liberal ou não.

É, quanto a mim, uma preocupação selectiva, tanto quanto se "houve desvios" quando os governantes comunistas fazem chegar a respectiva coutada ao tão almejado destino.

"Trump vai fechar fronteiras". Não vai. Vai colocar barreiras substanciais a quem pensa poder entrar por ali dentro sem dar cavaco. A malta "sensível" parece ter deixado de perceber que anormal é o contrário.

"Trump não quer o livre comércio". Quer, mas primeiro está a liberdade dos americanos. A malta "sensível" parece ter dificuldade em perceber que é isso que se espera de um decisor político face ao seu próprio país.

Na EURSS parece ter-se tornado normal que quanto pior for o desempenho de um político face aos seus próprios, melhor. A prova está no espanto com que encaram as declarações de Schäuble face aos militantes caloteiros e aos inventores de países e economias zombie, economicamente estimulados pelos bancos centrais, eufemismo para luminárias estatais.

" ... ahh ... mas ele vai fechar o mercado dos EUA aos outros países". É muito provável que por aí comece, e será especialmente eficaz se, paralelamente, demolir a 'red tape' que lá, como aqui na EURSS, atravanca toda e qualquer vontade de se trabalhar que não seja apenas para aquecer ... os bolsos da militância estatal em mandar na vida dos outros.

" ... ahhh ... " voltam à carga, "mas nenhum país pode fechar-se ao comércio internacional". Pode, se o fizer temporária e selectivamente e se tiver um mercado interno monstruoso e concorrencial, e imensos recursos naturais que explore .. demolindo a 'red tape'. Não é o caso de Portugal em qualquer dos aspectos.

" ... mas ele não tem planos para um rumo dos EUA". Ainda bem. De timoneiros está pejada qualquer máquina estatal, particularmente as monstruosas como a nossa (de Portugal e da EURSS). Ele que defenestre as luminárias e que permita que cada um governe a sua própria vida.


18 de fevereiro de 2016

Vígaristas: de fedor em fedor



Esta coisa do esquerdalho-indignácaro-vígaro primeiro ministro andar a marrar com o Governador do Bando de Portugal tem, para além da intenção de tentar silenciar quem revela a incompetência do presidente da geringonça, a mensagem à navegação de que se prepara para tratar à canelada quem não tiver papas na língua, não o deixando martelar as contas do estado para delas retirar os virtuais dividendos que apenas os vigaristas conseguem ver.

O 44, quando chegou ao poder, e pelas mesmas razões, fez o mesmo com os juízes. Parecendo que estava realmente preocupado com o absentismo deles, estava a marcar terreno para conseguir implantar a corja de vigaristas que deixou Portugal na falência.

17 de fevereiro de 2016

“O socialismo ama de amor perdido a liberdade de expressão”




Um texto exemplar pelo humor e acutilância possíveis, de Maria João Marques, no Observador, entre muitos outros bons artigos de diferentes autores que nesse jornal se vão publicando diariamente.

Estou a pensar explorar um novo caminho profissional, seguramente muito bem sucedido. Até tem possibilidades de internacionalização (verão que sim mais lá em baixo). Vou – digo já, para vos aliviar da curiosidade – escrever um manual de boas maneiras para esta era do ‘tempo novo’ em que novas formas dos cidadãos se relacionarem com o poder (do PS, façam vénias por favor) são necessárias.

E começo pela mais evidente. Pessoas portuguesas: não se pode fazer humor com essa pessoa magnífica que é Sua Excelência o primeiro-ministro, Dr. António Costa (e nada de se lhe dirigirem por menos do que esta fórmula completa). Sua Excelência o primeiro-ministro, Dr. António Costa foi obrigado, a contragosto e com grandes sacrifícios pessoais, a tomar as rédeas do governo de Portugal, entregue até aí a uns celerados de extrema-direita que apanharam os votos dos eleitores à traição em 2011 e outra vez em 2014. Devemos, por isso, usar sempre do mais escrupuloso respeito quando nos referirmos a Sua Excelência o primeiro-ministro, Dr. António Costa. O peso que tem sobre os ombros é gigantesco, o trabalho é hercúleo, pelo que se recomenda – na verdade, exige-se – deferência e gratidão.

Posto isto, devo congratular o twitter por ter suspenso a conta que parodiava Sua Excelência o primeiro-ministro, Dr. António Costa. E os cidadãos conscientes que, presume-se, denunciaram a indecência de haver quem ousasse fazer humor com Sua Excelência o primeiro-pinistro, Dr. António Costa. Bravo, são uns heróis. De facto, os governos com pendor esquerdista radical, como o da geringonça, só se aguentam muito tempo nos casos em que se podem calar os opositores políticos e, preferencialmente, enviá-los para a prisão. Folgo em ver que há quem na nossa boa esquerda não esqueceu a primeira parte desta boa lição.

(Atenção: a conta paródia a Passos Coelho sobreviveu toda a anterior legislatura sem qualquer beliscão. Isto está muito bem, porque se à esquerda se deve reverência agradecida, à direita só se oferece escárnio e ridículo. É a ordem natural das coisas. E, além do mais, as pessoas de direita são umas rústicas que levam a sério a balela da liberdade de expressão e, pobres almas, porventura até acreditam que ridicularizar políticos é uma boa dose de humildade que lhes é servida.)

No meio de toda esta história tenho a lamentar a conduta do Observador. Este jornal, vá-se lá saber por que razão, decidiu noticiar a suspensão da dita conta que parodiava Sua Excelência o primeiro-ministro, Dr. António Costa. O jornal devia ter estado calado e quieto. Era o que faltava a comunicação social pretender dar notícias que contem verdades. E que permitam às mentes maldosas criar a ideia de que há quem à esquerda não saiba lidar com a liberdade de expressão. Li no twitter vários amantes da liberdade de imprensa justamente zangados com a notícia. Os outros jornais estiveram, regra geral, mais amestrados, noticiando a suspensão a correr, muitos ignorando o incidente (afinal que interesse público tem a informação de comportamentos de tiranetes em potência?) e, sobretudo, informando que o PS institucional e o governo nada tinham a ver com a suspensão. Isto sim é imprensa a escrutinar o poder. Bravo também para eles.

E palmas para Edite Estrela – que mal a conta agora suspensa foi criada embirrou com a utilização da fotografia de Costa (e não me respondeu à pergunta se também havia embirrado com a utilização da fotografia de Passos Coelho na sua conta fictícia; estou certa que sim). E para Francisco Seixas da Costa, que logo a geringonça, ai, enganei-me, o governo de Sua Excelência o primeiro-ministro, Dr. António Costa tomou posse, tratou de propor que se acabasse com o anonimato nas redes sociais. Tudo pessoas que querem evitar que nos desviemos por maus caminhos. Bem hajam.

Não posso passar sem, também, censurar os leitores do Observador que aos milhares partilharam a notícia, e muitos mais milhares que leram e se insurgiram nas redes sociais. São pessoas de má índole que não merecem o desvelo com que Sua Excelência o primeiro-ministro, Dr. António Costa cuida deles. Só me ocorrem as rainhas Mary e Anne de Inglaterra, que depois de roubarem o trono ao irmão ficaram conhecidas por ‘filhas ingratas’.

E por que razão falei eu em internacionalização? Porque na Grécia certamente irei ter sucesso idêntico. O governo desses grandes democratas do Syriza vai fechar canais privados de televisão, reduzindo-os a quatro (número de resto demasiado generoso). Isto, claro, para incentivar a independência da comunicação social face ao poder político. (Se se engasgou com as gargalhadas, é bom que faça alguma penitência, porque pode bem ter dado a ideia perigosa aos demais humanos de que não acredita nas boas intenções de Tsipras e companhia. E se as pessoas se lembram da gritaria que fez quando o governo da Nova Democracia encerrou, devido aos custos, a televisão pública grega – aquela televisão dócil que todo o governo decente mantém e manipula para fins de propaganda – vá ver nos livros do Harry Potter feitiços para apagar a memória.)

Se está a notar por aqui algum padrão, faz bem. Costa avisou que iria seguir a linha do Syriza. Já desancou jornalistas e a conta de twitter que o parodiava foi suspensa, não se sabe denunciada por quem, tendo a conta simétrica de Passos Coelho durado quanto quis. Esperemos as cenas dos próximos capítulos.

4 de fevereiro de 2016

"Pobres de nós, que já vimos este filme"



Um texto exemplar de José Manuel Fernandes, no Observador, a ser lido na íntegra. 

«É difícil imaginar como poderia ser pior. É aterrorizador pensar que ainda vai ser pior.

Os dias foram passando e, no momento em que escrevo, o nevoeiro ainda é imenso sobre o que será o próximo Orçamento do Estado. Mas sabemos já muito sobre o que não foi.

Começou por não ser o Orçamento previsto pelos economistas do PS, pois as famosas “contas” de que António Costa nos falou meses a fio não resistiram ao embate da geringonça. Se alguma lógica existia nas previsões macroeconómicas da equipa de Mário Centeno, nenhuma lógica restou das negociações do mesmo Mário Centeno com o Bloco, o PCP e os Verdes. Basta recordar um exemplo: o plano do PS previa utilizar reduções na TSU como principal instrumento de estímulo ao crescimento económico; os “protocolos de entendimento” recusaram essa política, substituindo-a por uma simples distribuição de benesses pelas clientelas mais poderosas, com os funcionários públicos à cabeça. Nesse momento todo a lógica interna das “contas” ruiu pela base.

Se já era duvidoso que as estimativas dos economistas do PS batessem certo, as contas da geringonça estavam totalmente desequilibradas, pois só previam aumentos de despesa e cortes nas receitas.

Esperámos por isso, com natural curiosidade, pelo “esboço de orçamento” que teria de ser enviado para Bruxelas, e ele caiu-nos nos braços dois dias antes das eleições presidenciais. Caiu ele e cairam também as criticas unânimes das entidades independentes que se deviam pronunciar, do Conselho de Finanças Públicas à UTAO. Não há memória de documentos tão arrasadores para uma proposta orçamental vindos de entidades tão diferentes e tão respeitadas.

Sem surpresa, depressa percebemos que o problema não estava no eventual erro de miopia de todos quantos em Portugal se pronunciaram sobre o dito “esboço”. Em Bruxelas o choque foi frontal. Tão frontal que, passada apenas uma dúzia de dias sobre a entrega desse esboço, as notícias esparsas que nos vão chegando apontam para que dele já pouco restará. Foi sendo estraçalhado em boa parte das suas metas e indicadores.

Só para se ter uma ideia de como as coisas evoluíram basta recordar que as “contas” dos economistas do PS apontavam para um crescimento de 2,4% da economia em 2016, o Programa do Governo desceu essa previsão para 2,2%, o “esboço” encolheu-a ainda mais para 2,1% e agora estará nos 1,9% e toda a gente continua a dizer que é irrealista. Aconteceu o mesmo com todos os outros grandes números, o que mostra a pouca seriedade e o nenhum rigor das “contas” que nos têm vindo a ser apresentadas.

Ao mesmo tempo que assistíamos a este desnorte, e à consequente descredibilização dos sucessivos exercícios contabilísticos, abrimos a boca de espanto com a estratégia de afrontamento seguida pelo governo português, e pela maioria que o apoia, relativamente às instâncias da União Europeia. Tudo indica que, para a equipa de António Costa, a Comissão é um bando de burocratas que se pode tratar displicentemente e desqualificar politicamente.

Vou dar apenas dois exemplos, que mostram bem um tipo de comportamento que tenho dificuldade em classificar (será arrogância? será incompetência? será apenas ignorância?). O primeiro é a entrevista que Costa deu ao Financial Times. Nela diz, a certa altura, que uma redução do défice estrutural de 0,2% será maior dos últimos anos, uma boutade que só pode ter deixado boquiabertos os técnicos que, na Comissão Europeia, seguem de perto a realidade portuguesa e têm o Financial Times nas suas secretárias logo pela manhã. É que a média da redução do saldo estrutural dos últimos anos é de 1,4 pontos percentuais, um número bem conhecido por esses técnicos, pelo que um erro tão flagrante por parte de um primeiro-ministro só poder ter funcionado como a pior carta de recomendação no início de umas negociações difíceis.

O segundo exemplo também fala por si. É que, ao enviar para Bruxelas o seu “esboço”, o Governo esqueceu-se de informar que, pelo caminho, estava a alterar os critérios para o cálculo do défice estrutural (valha ele o que valer, e até admito que valha pouco). Pior: estava a alterar critérios que tinham sido negociados entre Bruxelas e Lisboa sem dizer nada em Bruxelas e vindo para Lisboa acusar o anterior Governo de ter enganado a Comissão Europeia. Nessa altura, nas reuniões técnicas, só faltaram os insultos para colorir o choque frontal.

Um ano depois de ter assistido ao drama grego custa a crer que, na equipa de Costa e entre os seus acólitos de extrema-esquerda, se acreditasse ainda que a melhor forma de lidar com as instituições comunitárias fosse a afronta e o desafio, a ameaça do “murro na mesa”. Ou mesmo, mais modestamente, que se pensasse que a melhor forma de obter bons resultados fosse trazer para a praça pública o debate, fingir que tudo não se limitava detalhes técnicos ou tentar passar a mensagem de que o processo ia pelo melhor quando, afinal, tudo corria pelo pior.

A cereja em cima deste bolo foi a adopção, para consumo doméstico, de um discurso autoritário, demagógico e desavergonhado. As críticas, mesmo as vindas de entendidades independentes e respeitáveis, começaram a ser descartadas como traições à pátria. Aos pedidos de explicações sobre tanta confusão e tanto número sem justificação, respondeu-se com um seco “deixem o governo trabalhar” e a recusa em sequer encarar as questões dos jornalistas. A própria existência de um debate público e a ocorrência de divergências, próprias de qualquer sociedade aberta, foi enquadrada como representando a acção de uma sombria “quinta coluna” ao serviço dos alemães. Até as instituições europeias não escaparam, com altos responsáveis a compararem a Europa a uma URSS a que só faltaria o KGB e a acrescentarem que os seus técnicos estavam ao serviço da direita europeia.

O registo adoptado pelo primeiro-ministro e pela maioria que o apoia no último debate quinzenal teve mesmo o condão de nos reconduzir aos tempos de José Sócrates, mas em pior: a mistificação foi moeda corrente, a verdade um detalhe sacrificada ao argumento de ocasião, a desvergonha só comparável à ausência de memória, tudo coisas que eram habituais no grande timoneiro da bancarrota, só que agora em versão degradada, género filme série B, poiso antigo PM ainda estudava os dossiers e Costa não se dá a esse trabalho, sendo que Teixeira dos Santos ao lado de Mário Centeno até lembra um Príncipe da Renascença.

De novo apenas um exemplo para se ter ideia da desonestidade dos argumentos utilizados no debate: pretendeu-se dizer que os cortes salariais na administração pública tinham sido apresentados em Bruxelas como “estruturais” e em Lisboa como “temporários” pelo anterior governo, quando esses cortes começaram com José Sócrates no PEC3, eram reforçados no famoso PEC4 (aquele que alguns ainda veneram como se venera uma sagrada escritura) e sempre foram tratados, em Lisboa e em Bruxelas, com Sócrates ou com Passos Coelho, da mesma forma. Agora dá jeito um flick flack contabilístico, pelo que a melhor forma de o camuflar é chamar mentiroso aos outros com a mesma lata do ladrão que grita “agarra que é ladrão”.

Falta-nos ver o resultado final de todos estes malabarismos, assim como os pareceres que as instituições internacionais produzirão. Teme-se o pior. Teme-se sobretudo que os nossos grandes patriotas estejam a criar as condições para que, mesmo fazendo agora passar o seu orçamento, vejam depois degradarem-se as avaliações das agências de rating, o que terá consequências catastróficas para um país que, nos próximos anos, terá de ir ao mercado buscar 43 mil milhões de euros para se financiar.

Há, contudo, alguns adquiridos que a análise mais fina do documento final por certo não desmentirá.

O primeiro adquirido é que estaremos perante um exercício orçamental irrealista, com metas que não são para cumprir. Já houve quem, com mais competência, o explicasse em detalhe, mas não custa compreender como se chega aquilo a que já chamaram o “orçamento Photoshop”: o objectivo desta equipa não é o bom governo de Portugal, é ganhar umas eleições que todos pensam surgirão bem antes do fim da legislatura. Por hoje, aguenta-se a geringonça à custa de concessões ao Bloco e ao PCP, reza-se para que os buracos nas contas só apareçam lá mais para o fim do ano e adiam-se os problemas para o Orçamento de 2017. Pelo caminho espera-se que, satisfazendo as clientelas, estas retribuam com o votinho na urna.

É assim que o “governo do desfazer” se prepara, por exemplo, para gastar mais dinheiro com a devolução dos cortes salariais aos funcionários públicos mais bem pagos do que com o descongelamento das pensões mais baixas. Não está mal para um governo “de esquerda” cheio de “sensibilidade social”, mas é coerente com a percepção de que as clientelas que assim vão ser beneficiadas são as mais influentes e as melhor representadas pela CGTP.

É assim também que os mesmo que enchem a boca com a palavra “igualdade” se preparam para repor a desigualdade entre o regime laboral na administração pública (onde voltaremos às 35 horas) e no sector privado (onde a regra é a das 40 horas).

É ainda assim que o Governo que jura que não vai tocar no rendimento das famílias se prepara para aumentar a carga fiscal em bens, como os combustíveis, que afectarão as despesas das famílias, tirando com uma mão o que dá com a outra e fazendo cara de pau. Tal como é assim que o Governo que diz tudo querer fazer pelo crescimento opta por virar as baterias do Fisco contra a banca sem reparar que, ao mesmo tempo, lamenta a falta de capacidade dessa mesma banca para financiar a economia.

Quando aqui chegamos já estamos muito para lá de discutirmos a austeridade, ou esse slogan cada vez mais vazio do “virar de página da austeridade” – o que começamos a discutir é mesmo quanto tempo de repetição de erros do passado será necessário para que acabemos da mesma forma como acabámos no passado. É isso mesmo que todos nos estão a dizer, sejam eles os respeitáveis académicos do Conselho de Finanças Públicas, os técnicos das instituições internacionais ou osanalistas dos mercados. Por uma vez, parecem estar todos de acordo – mas para o comandante e para os adjuntos deste nosso Titanic, estão todos errados, pois só eles é que têm razão.

Pobres de nós, que já vimos este filme.»

30 de janeiro de 2016

"Não há paciência"



É o que diz aqui Helena Matos, e eu estou totalmente de acordo. 

«Eu sei que devia escrever sobre o orçamento ou, mais pertinente ainda, sobre a queda em desgraça do Tribunal Constitucional que se limitou a decidir como sempre fez ao longo destes últimos anos – protegendo os membros da corporação Estado – mas que desta vez, e ao contrário do que tem acontecido, acabou criticado por quase todos. Mas o que tenho para escrever sobre o assunto ainda acaba a colidir com a assepsia do dia de reflexão e longe de mim perturbar voluntaria ou involuntariamente a reflexão de quem quer que seja. Presumo até que por estas horas, sentadinhos em tapetes, no cimo de serras e nas profundezas das grutas milhares de portugueses em posição de lótus procuram avaliar as diferentes propostas eleitorais. Que não acabem com o cérebro e as costas feitos num oito é o que lhes desejo. E foi assim que, de assunto em assunto, acabei noutra eleição ou mais propriamente nos óscares, cerimónia regra geral aborrecida para todos os mortais à excepção dos candidatos mas que acabou transformada em acontecimento mundial.

Os óscares ganharam agora outro foco além do cinematográfico propriamente dito. Trata-se da cor da pele e do sexo dos nomeados. Enfim o cinema é uma indústria e a indignação também e cada um faz nessas indústrias o que quer ou pode para ganhar a vida. Mas à liberdade dos senhores Will Smith e Spike Lee de dizerem e fazerem o que lhes apetece – nomeadamente o anúncio de que não participarão na cerimónia dos óscares por só terem sido nomeados actores no dizer deles caucasianos (confesso que no caso do Stallone após tantas operações e tanto botox nem consigo garantir que ele seja humano, quanto mais caucasiano ou asiático!) – corresponde o direito dos outros lhes responderem que boa parte do que dizem não passam de rotundas parvoíces.

Mas vamos ao assunto propriamente dito: este ano não há negros entre os actores candidatos aos óscares. Por acaso também não vislumbrei por lá nenhum chinês, ou melhor dizendo asiático. Claro que também não há mulheres gordas nem feias. E quanto a idades seríamos levados a acreditar que o sexo feminino desaparece da face da Terra passados os 35 não fossem estar candidatas as anciãs Cate Blanchet (nasceu em 1969) e Charlotte Rampling, que veio ao mundo em 1946 e a quem as declarações que fez sobre este assunto – “racismo contra brancos” – devem ter feito perder qualquer possibilidade de ganhar a estatueta (isto apesar de Charlotte Rampling se ter apressado a pedir desculpa e dizer que foi mal interpretada).

A questão racial tornou-se o mais patético exercício de promoção do coitadismo, sobretudo entre os negros norte-americanos. que é o mesmo que dizer que em todo o mundo a que chegue a televisão. O que não fazem ou não conseguem é invariavelmente o resultado do racismo e nunca do seu não esforço ou desinteresse. Em Portugal, temos nesta matéria o incontornável paradoxo de se explicar com o racismo e os problemas associados à imigração os fracos resultados escolares dos alunos ditos africanos. Note-se que a não ser que a Amadora ou Moscavide fiquem em África não há razão alguma, a não ser a cor da pele, para que se chamem africanos a estes jovens nascidos em Portugal, frequentemente filhos de pais nascidos também em Portugal. Curiosamente ninguém se interroga sobre os brilhantes resultados escolares dos filhos dos ucranianos, que pouco tempo depois de chegarem a Portugal se tornam nos melhores alunos das suas turmas.

Sob o silêncio em torno deste assunto, nomeadamente o silêncio de muitas daquelas associações que vivem de denunciar o racismo e que na minha opinião em vez de o combater o promovem, guetizando ainda mais aqueles que deviam integrar, esconde-se um arreigado paternalismo, esse sim racista, que na prática se traduz por isto: os ucranianos são brancos, têm olhos azuis e para mais vieram daquele caldeirão do ex-mundo comunista, logo politicamente não interessam a ninguém. Pelo contrário os negros (e agora também os muçulmanos) vivem mediaticamente falando sob a tutela da esquerda. Esta primeiro quis libertar África. Transformadas essas libertações em embaraçosíssimas ditaduras, entende agora a esquerda que há-de transformar no seu novo eleitorado essa multidão, que em boa parte teve de deixar África porque as tais libertações só produziram miséria. Com as classes trabalhadoras a descrerem cada vez mais das virtudes do socialismo, promover o ressentimento e o assistencialismo numa população para mais jovem é uma boa forma de garantir os votos por largos anos.

Nos EUA temos a juntar a tudo isto Hollywood e o puritanismo. Assim, com aquele frenesi que os levou à Lei Seca e destrambelhos quejandos, atiram-se agora às questões que se dizem de género e a tudo o que vagamente possa ser relacionado com o racismo. Há de tudo e para todos os gostos. Como não é humanamente possível seguir todos os racismos por ali denunciados resolvi focar-me na problemática dos homens asiáticos que denunciam que o cinema os discrimina. Porquê? Entre outras coisas porque nunca são vistos como desejáveis pelas mulheres brancas! A esta assexualização dos homens corresponde, segundo os promotores desta causa, uma sexualização das mulheres asiáticas. Enfim acabaremos literalmente a discutir a cor dos anjos mas não quero sair deste assunto sem lançar eu mesma uma outra causa: a das mulheres brancas que nos filmes ficam sempre a perder para as asiáticas que, para lá doutras vantagens estéticas, são sempre enaltecidas pelos guionistas, homens obviamente, porque não falam: nos filmes ocidentais as mulheres asiáticas aparecem invariavelmente como seres de poucas ou nenhumas palavras. Ora uma mulher silenciosa, ou mais propriamente uma mulher que não lhes diga a verdade, é o sonho de qualquer criatura do sexo masculino nascida no Ocidente. E assim esta minha causa junta não só o combate ao racismo face às mulheres asiáticas, mais o racismo perante as mulheres brancas como ainda combate o machismo dos homens ocidentais. Fantástico não é? Ainda acabo nos óscares!

Quero acreditar que a histeria terminará. Que um dia seremos capazes de reflectir sobre o proselitismo que levou a situações tão aberrantes quanto a vivida em Rotherham, Inglaterra: em pleno século XXI, 1400 crianças que estavam sob a tutela dos serviços sociais foram abusadas sexualmente. Os abusos duraram anos. O facto de os abusadores serem de origem paquistanesa levou a que durante anos e anos não só não se fizesse nada para acabar com aquele pesadelo como os poucos que o tentaram denunciar acabaram a ser confrontados com acusações de racismo e desadequação aos valores multiculturais.

A falta de destaque noticioso sobre o caso de Rotherham, que contrasta por exemplo com a indignação com os abusos sexuais levados a cabo sobretudo no século passado por sacerdotes católicos, é sintomática da hipocrisia que reina nesta matéria, hipocrisia que ela sim é uma forma de racismo. Porque uma violação é uma violação independentemente de quem a pratica e de quem a sofre.

E agora ou escrevo sobre o sucedido em Colónia ou, opção bem mais interessante, sugiro que nas intermitências da empastelada noite dos óscares vejam um filme. Chama-se Cowboys. É de 1972 e tem como principal protagonista um John Wayne já velho o que não lhe tira nada daquele sugestivo andar que ninguém explicou tão bem enquanto símbolo da  masculinidade quanto o actor Nathan Lane na Gaiola das Malucas.

Mas voltando a Cowboys a história nem é muito original: Wil Andersen(Wayne) um rancheiro para quem a vida não deve ter sido meiga vê-se por circunstâncias várias à frente de um grupo de rapazes, os cowboys possíveis já que os homens adultos tinham desaparecido em mais uma corrida ao ouro. Wil Andersen (Wayne) tem de levar a sua manada para um local que fica a 650 quilómetros. É fácil perceber que a viagem se transforma num ritual de passagem dos rapazes para o mundo dos adultos.

Contudo o filme não é hoje propriamente considerado uma fita familiar. Antes pelo contrário. Ora porque Wil Andersen (Wayne) tem um entendimento da educação dos rapazes nada consentâneo com as pedagogias de hoje, ora porque reproduz todos os estereótipos da masculinidade e, cereja no topo do bolo, porque a palavra nigger é pronunciada no filme a propósito do cozinheiro Jebediah Nightlinger interpretado por Roscoe Lee Browne. Perante o primeiro negro que viam na sua vida os miúdos não só proferem nigger várias vezes como pretendem saber se aquela negritude abrange todas as partes do seu corpo.

E assim os jovens de hoje podem ver filmes com sexo, violência e consumo de drogas à vontade mas claro nenhum adulto responsável pode gritar com eles como faz Wil Andersen (Wayne) no filme e claro que os negros passaram a afro-americanos, os chineses a asiáticos e por aí fora.

Perante o desconchavo de tudo isto só apetece recuperar a resposta de Roscoe Lee Browne, sim o mesmo que faz de cozinheiro em Cowboys e que era um notável intérprete de poesia e textos clássicos e dono de uma dicção fabulosa, àqueles que o acusavam de ter uma voz demasiado branca: “Peço desculpa tivemos uma mulher a dias branca.»

7 de janeiro de 2016

MORRA!



A "europa" vive tempos de absoluto desnorte. É uma espécie de época de juízo final em que a factura de todo o marxismo centralista asfixiante se apresenta a pagamento.

Tudo o que foi parido de Maaschtrich para cá deu bota.

O multiculturalismo estoira-lhes no focinho a toda a hora.

Já todos os países estão contra todos.

Já em todos os países forças políticas de separação emergem em velocidade vertiginosa.

Dois importantes países estão ou de saída ou a tentar aplicar as regras deles: Inglaterra (com o UKIP) e França com Marine Le Pen. Num caso e noutro obrigando sob pressão eleitoral os governos no poder a vergar aos anti europa.

Nos EUA Trump faz perceber que recolocará os EUA naquilo de onde nunca deveriam ter saído mas, desta vez, apresentando facturas. Obama, entre partidas de golf, rasteja tentando fazer crer que ainda tem autoridade política. A "europa" pressente que se os EUA voltarem ao que eram o moribundo "projecto europeu" estoirará que nem um sapo.

Uns quantos outros países tentam ainda juntar-se ao ouruborus na expectativa de ainda poderem abocanhar qualquer coisa. A Turquia é um deles.

Entretanto, em jeito de desespero final e contra todas as evidências em que cada novo regulamento lhe aplica mais um prego no caixão da insipiência económica, continuam regulamentando furiosamente, agora tentando obrigar cada detentor de cada pequena horta a frequentar um curso sobre substâncias químicas.

Parece que só não há fungicidas para os cogumelos venenosos de Bruxelas.

Que a "europa" morra ... no papel, porque na realidade nunca passou de zombie. Pena é que os largos milhares de seus adoradores não possam passar uns anos atrás das grades.

MORRA O DANTAS, MORRA!

4 de janeiro de 2016

"Coisas que nunca mudam: as não notícias"




Tal como afirma Helena Matos, no Observador:

«As não notícias são tão importantes quanto as notícias. Às vezes ainda mais que as notícias. Porque as não notícias mostram como os jornalistas resistem a desfazer as suas ilusões.

As não notícias sobre a França. Em França, país bem perto de nós, foram incendiados na passagem de ano 804 veículos. Note-se que estes números estão a ser apresentados como positivos pelas autoridades francesas porque na passagem de 2014 para 2015 arderam mais 136 carros. Ou seja 940. Claro que nessa data a França não estava sob medidas de segurança tão severas quanto as actuais (os atentados aoCharlie Hebdo aconteceram dias depois, a 7 de Janeiro de 2015 e só em Novembro tiveram lugar os atentados de Paris) e de modo algum nas ruas daquele país estavam então destacados os mais de 100 mil agentes que integraram o dispositivo de segurança neste final de 2015. Como é possível que se pegue fogo a oito centenas de veículos com mais de 100 mil agentes policiais e militares nas ruas? É um mistério.

Mas convenhamos que é um mistério bem menor que o silêncio que impera nos jornais e televisões da restante Europa sobre o que acontece naquele país. Ou seja como é possível que não tenhamos informação sobre estes incidentes? Ou, para não sairmos ainda da temática dos carros incendiados, como não soubemos das 700 viaturas que arderam no 13 de Julho deste ano? Nem sequer o facto de no dia em que a França comemora a sua festa nacional ter havido também escolas incendiadas fez com que o destaque noticioso fosse maior.

Há momentos em que quero acreditar que tudo se explica pelo facto de hoje não se falar francês e por consequência a França só ser notícia quando sai nos jornais ingleses, de preferência no Guardian. Mas digamos que essa explicação se pode aplicar ao reino do Butão e respectivo lugar no índice de felicidade mas não à França onde a não notícia se tornou uma opção consciente: da França vieram primeiro revoluções e ilusões. Agora, para não comprometer a memória das primeiras e o poder das segundas, não se noticia.

Assim, ao mesmo tempo que assistimos à pilhagem de uma qualquer loja no mais recôndito canto do Ohio, nunca vemos as carcaças queimadas dos automóveis em França. Nem sequer casos como os recentemente ocorridos no final de Dezembro em Ajaccio, capital da Córsega, conseguiram romper este muro de silêncio. Digamos que em Ajaccio tudo começou como de costume: os bombeiros foram chamados ao que se designa como bairro sensível. No caso os Jardins do Imperador. Uma vez lá chegados os bombeiros foram emboscados e agredidos. Nos dias seguintes sucedem-se as manifestações de corsos indignados com o que acontecera nos Jardins do Imperador. Gritam que não querem acabar fechados em casa com medo como acontece nos banlieu do continente. Mas não só. Gritam também palavras de ordem contra os árabes e numa das manifestações rompem a barreira policial e saqueiam um local de culto muçulmano.

Qual foi o destaque noticioso destes gravíssimos incidentes? Digamos que ele passou quase tão discretamente quanto a indicação de que desde Feveiro de 2015 já se registaram em França 200 incidentes contra militares, sendo que sete desses incidentes foram classificados como muito graves. Aliás, logo no início deste 2016, em Valence, registou-se um desses incidentes: um homem tentou atropelar quatro militares que faziam segurança junto a uma mesquita.

As autoridades, mimetizado a reacção que mantiveram até aos ataques de Novembro em Paris, logo declararam ser o homem em questão um lobo solitário para mais desequilibrado. Apesar de na sua casa ter sido encontrada propaganda jihadista, a pista terrorista não está ser seguida e admite-se que talvez exista “un lien entre son acte et une certaine religiosité”… que é como quem diz uma ligação entre o seu acto e uma certa religiosidade. Qual será a religiosidade em questão?… Como se vê, não é por falta de notícias que a França não está nas notícias. É sim porque se ficou sem narrativa. Quando o próximo sobressalto chegar, lá aparecem as carinhas a chorar mais o facebook às risquinhas e a Torre Eiffel muito fofinha. Sinais exteriores de quem não quis ver, nem ouvir nem saber.

As não notícias sobre a Grécia. Este Inverno deve estar a ser bem cálido em Atenas. Porque neste Inverno já ninguém tem frio na Grécia. Nem fome. Nem sonhos desfeitos. Nem medicamentos inacessíveis… A Grécia morreu para as notícias no dia em que os jornalistas ocidentais deixaram de ver em Tsipras o Che sem espingarda. Já não sabemos se Tsipras vai a Bruxelas, se leva gravata, se a mulher se zangou ou não com ele… Tsipras desapareceu noticiosamente falando em Julho deste ano. No momento em que deixou de ser o rosto da alternativa, do bater do pé, do virar da página da austeridade e de todas as outras categorias do pensamento mágico a que o socialismo se reduziu, Tsipras saiu dos ecrans. Por estes dias teve um regresso fugaz porque voltou a vestir a pele do Tsipras que ia mudar a Europa. Ou seja fez mais do mesmo: disse que não ia ceder aos credores. E como é disso que os jornalistas gostam lá lhe deram uns segundos da velha fama.

Curiosamente pasmamos com as fotografias em que Estaline mandava apagar os opositores mas este processo de apagamento dos heróis mediáticos que acontece em plena democracia não parece suscitar qualquer perturbação. E contudo ele é revelador do fogo fátuo que enche boa parte daquilo a que chamamos notícias, reportagens e investigações. Um desejo para 2016? Quero o Tsipras de volta. Quero saber o que faz, o que decide, o que legisla. E de caminho quero saber onde param os postais autografados por Tsipras, que se vendiam a três euros cada, com que umas almas militantes se propunham juntar dinheiro para libertar a Grécia dos credores. Como não podia deixar de ser a iniciativa foi noticiada com alarido aqui, mais aqui, e aqui, também aqui e aqui… (é melhor ficar por aqui porque com tanto aqui o texto está a ficar cacofónico) e agora nada de nada.

As não notícias sobre Guantanamo. Quantas notícias tivemos sobre Guantanamo desde que Barak Obama foi eleito? E desde que foi reeleito? Dado o silêncio que impera sobre o assunto quase se é levado a pensar que Guantanamo fechou. O quase embargo sobre o assunto é quebrado de vez em quando por uns anúncios de que o presidente dos EUA está a ultimar um plano para fechar Guantanamo. Depois temos as inevitáveis conclusões de que Obama gostaria de fechar Guantanamo mas não pode. Porquê? Não se diz. Mas note-se que as mesmas fontes asseguram e asseguraram que o anterior presidente podia fechar Guantanamo mas não queria.

As notícias sobre os EUA e seus presidentes tornaram-se na versão mediática dos gatinhos no facebook: milhões de likes para os democratas, partilhas virais e ódios profundos para os republicanos. Informação quase nenhuma.

Opções que com um presidente não democrata e sobretudo não tão querido dos estúdios de cinema e de televisão quanto o é Barack Obama teriam gerado enorme controvérsia – a aposta cada vez mais forte na exploração dos gás de rocha – têm passado quase inadvertidas apesar de ambientalmente terem muito para questionar. E como entender essa espécie de regressão nas questões raciais em que de repente os EUA parecem ter caído? Reduzidos como estamos às notícias do tipo “EUA: polícia mata condutor negro” – se o condutor fosse branco ou asiático escrever-se-ia “EUA: polícia mata condutor branco”? – deixámos de questionar os efeitos reais daquilo a que se chamam medidas de combate à discriminação racial.

Divididos entre uma élite da qual Obama e a sua mulher fazem parte e uma maioria presa nos meandros do coitadismo, os negros norte-americanos são cada vez mais objectos de uma simplificação para não dizer infantilização nas notícias.

Mas tal como acontece com Guantanamo que era para fechar e não fechou custa muito escrever sobre as bolinhas de sabão que fizeram capa e abriram noticiários e depois se viram desfazer.»