18 de dezembro de 2015

"Filhos do 25 de Abril"



Fizeram-me chegar por e-mail este texto de Pedro Bidarra, publicado em 26/04/2013, no Dinheiro Vivo. Não estando em total acordo com o que nele é dito, julgo que tem, no entanto, algumas considerações bastante pertinentes, pelo que o deixo aqui.
   
«A geração que fez o 25 de Abril era filha do outro regime. Era filha da ditadura, da falta de liberdade, da pobre e permanente austeridade e da 4.ª classe antiga.

Tinha crescido na contenção, na disciplina, na poupança e a saber (os que à escola tinham acesso) Português e Matemática.

A minha geração era adolescente no 25 de Abril, o que sendo bom para a adolescência foi mau para a geração.

Enquanto os mais velhos conheceram dois mundos – os que hoje são avós e saem à rua para comemorar ou ficam em casa a maldizer o dia em que lhes aconteceu uma revolução – nós nascemos logo num mundo de farra e de festa, num mundo de sexo, drogas e rock & roll, num mundo de aulas sem faltas e de hooliganismo juvenil em tudo semelhante ao das claques futebolísticas mas sob cores ideológicas e partidárias. O hedonismo foi-nos decretado como filosofia ainda não tínhamos nem barba nem mamas.

A grande descoberta da minha geração foi a opinião: a opinião como princípio e fim de tudo. Não a informação, o saber, os factos, os números. Não o fazer, o construir, o trabalhar, o ajudar. A opinião foi o deus da minha geração. Veio com a liberdade, e ainda bem, mas foi entregue por decreto a adolescentes e logo misturada com laxismo, falta de disciplina, irresponsabilidade e passagens administrativas.

Eu acho que minha geração é a geração do “eu acho”. É a que tem controlado o poder desde Durão Barroso. É a geração deste primeiro-ministro, deste ministro das Finanças e do anterior primeiro-ministro. E dos principais directores dos media. E do Bloco de Esquerda e do CDS. E dos empresários do parecer – que não do fazer.

É uma geração que apenas teve sonhos de desfrute ao contrário da outra que sonhou com a liberdade, o desenvolvimento e a cidadania. É uma geração sem biblioteca, nem sala de aula mas com muita RGA e café. É uma geração de amigos e conhecidos e compinchas e companheiros de copos e de praia. É a geração da adolescência sem fim. Eu sei do que falo porque faço parte desta geração.

Uma geração feita para as artes, para a escrita, para a conversa, para a música e para a viagem. É uma geração de diletantes, de amadores e amantes. Foi feita para ser nova para sempre e por isso esgotou-se quando a juventude acabou. Deu bons músicos, bons actores, bons desportistas, bons artistas. E drogaditos. Mas não deu nenhum bom político, nem nenhum grande empresário. Talvez porque o hedonismo e a diletância, coisas boas para a escrita e para as artes, não sejam os melhores valores para actividades que necessitam disciplina, trabalho, cultura e honestidade; valores, de algum modo, pouco pertinentes durante aqueles anos de festa.

Eu não confio na minha geração nem para se governar a ela própria quanto mais para governar o país. O pior é que temo pela que se segue. Uma geração que tem mais gente formada, mais gente educada mas que tem como exemplos paternos Durão Barroso, Santana Lopes, José Sócrates, Passos Coelho, António J. Seguro, João Semedo e companhia. A geração que aí vem teve-nos como professores. Vai ser preciso um milagre. Ou então teremos que ressuscitar os velhos. Um milagre, lá está.»

15 de dezembro de 2015

Grande Arnaldo Kim Il-sung Matos



«Não são fanáticos: são franceses patriotas em luta contra o imperialismo francês», acrescenta o líder do MRPP.


Mas o MRPP vai mais longe e diz-nos como entende a morte de uma centena de pessoas «que julgam ter o direito de se poderem divertir impunemente no Bataclan»: «atenção: não só não foi um massacre, como foi um acto legítimo de guerra». Aqui.

14 de dezembro de 2015

"Metro de Lisboa - A notícia que interessava: a que não foi feita"




A que, segundo o que Helena Matos diz, no Observador, seria esta (e eu estou de acordo com ela):

«Alguém sabe por que não houve greve do Metro em Lisboa? Durante dias andámos às voltas com a contestação dos maquinistas do Metro de Lisboa “a um conjunto de alterações que representam um ataque aos direitos dos trabalhadores e a degradação da qualidade do serviço prestado aos utentes“.

Mas quais eram essas alterações? E em que consistia essa degradação? Nunca soubemos. A sindicalista Anabela Carvalheira da Federação dos Sindicatos dos Transportes e Comunicações (Fectrans) e funcionária do Metro de Lisboa, nada disse e também ninguém lhe perguntou. Depois a greve foi desconvocada. Novamente Anabela Carvalheira nos deu os respectivos esclarecimentos em cifra, agora poética: “Chegámos a um entendimento. Somos todos pessoas sérias. Da mesma forma que secretaria [de Estado] chegou a acordo [em relação] àquilo que nós propusemos – e não trouxemos nenhum documento escrito –, da mesma forma acreditamos nos interlocutores. Para nós vale a palavra, que foi coisa que não tivemos nos últimos cinco anos”. É sem dúvida tocante que sejam “todos pessoas sérias”.

Confesso que não percebo bem a parte do “não trouxemos nenhum documento escrito” mas esta aversão a documentos escritos parece agora fazer parte da linha oficial do PCP de cuja Organização Regional de Lisboa (sector de Transportes) Anabela Carvalheira faz parte há largos anos.

Já o secretário de Estado Adjunto e do Ambiente, José Mendes, deu uma explicação que tanto serve para a greve do Metro como para uma sessão de alinhamento dos chakras de um casal desavindo: “Havia uma espécie de um muro de silêncio. Os trabalhadores tinham alguma dificuldade em fazer passar a sua mensagem, as suas reivindicações, e foi possível desde logo abrir uma janela de diálogo e acordar com os sindicatos que vamos começar um processo estruturado de negociações e de conversas que possa ajudar a que os diferentes pontos de vista possam convergir para resolvermos os problemas”.

O ministro Vieira da Silva alinhou pelo mesmo parâmetro do esotérico-afectivo: “O ministro do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, Vieira da Silva, comentou esta segunda-feira, a propósito da desconvocação da greve parcial pelos trabalhadores do Metropolitano de Lisboa, que provavelmente os sindicatos têm mais abertura perante este Governo.”

Sem querer desmerecer na auto-estima de Vieira da Silva, nomeadamente na convicção que ele mostra nos poderes da simpatia emanada pela sua pessoa e até percebendo eu a dificuldade experimentada pelos sindicalistas em darem desgostos a um ministro que tem como colega de executivo um membro do seu agregado familiar – quem sabe não se instala um muro de silêncio à mesa do jantar? – o senhor ministro ou está a gozar connosco ou está amnésico. Como eu quero acreditar na segunda hipótese, a amnésia, recomendo ao senhor ministro Vieira da Silva e já agora também ao senhor secretário de Estado do Ambiente, que tanta fé manifesta nas virtudes do pensamento positivo aplicado às negociações com os sindicatos do sector dos transportes, que releiam o Avante nº 1731 publicado a 1 de Fevereiro, de 2007 em que a sindicalista Anabela Carvalheira (what else?) explica porque “desde Junho de 2006, ocorreram no Metropolitano de Lisboa dez greves”. Como o agora ministro Vieira da Silva também era ministro nesse tempo não deve estar esquecido dessa sucessão de greves, pois não?

Na verdade seja em 2006, 2007 ou 2015 nunca percebemos porque se fazem greves nas empresas públicas. Muito menos porque são elas desconvocadas e convocadas outra vez. No meio da língua de pau que rodeia as negociações sindicais em Portugal já nos aconteceu sermos informados que um governo se comprometera a ceder a um grupo de trabalhadores 20% de uma empresa quando ela fosse privatizada – caso dos pilotos da TAP versus ministro Cravinho em 1999 – ou que uma classe profissional extinta continua a marcar as negociações laborais. É esse o caso fantástico dos factores do Metro de Lisboa.

Lembram-se certamente do tempo em que no Metro, em Lisboa – e nessa época só existia Metro em Lisboa – um funcionário viajava dentro das carruagens? O dito funcionário, em cada estação confirmava se já tinham saído e entrado todos os passageiros e, em seguida, accionava o fecho da porta. Dir-me-ão que isso acontecia no tempo em que a dona Gertrudes Tomaz inaugurava a árvore de Natal do São Jorge. Mais ou menos. Um bocadinho para menos do que para mais: esses funcionários designados factores sobreviveram até 1995. Ou seja os factores deixaram oficialmente de existir no ano em que Ieltsin e Clinton negociavam em Moscovo, se criava o Espaço Schengen, era lançado o Internet Explorer 1, Bobby Robson era o treinador do Futebol Club do Porto.

Como se vê o mundo mudou muito nestes vinte anos, nem sempre para melhor mas mudou. Excepção feita aos factores do Metropolitano de Lisboa, que se tornaram num caso de espiritismo no mundo dito do trabalho pois se algum ingénuo pensou que extinta a função se acabavam os encargos com novos factores desiluda-se: os maquinistas do Metro passaram a receber uma remuneração extra (entre 317 euros e 475,50 euros mensais) pela abertura e fecho das portas das composições.

Mas não só. Os desaparecidos factores são sempre invocados nos acordos de empresa para explicar porque hão-de trabalhar ainda menos tempo os maquinistas. É preciso ter em conta que o horário de trabalho dos maquinistas do Metro de Lisboa está dividido em dois turnos. Mas só num deles os maquinistas dirigem as composições. Na outra metade o maquinista fica na situação de reserva, e pode, quando muito, assegurar manobras das composições nos cais terminais. O que nos leva à pergunta: porque afecta então o Metro de Lisboa tanto maquinista exclusivamente a manobras quando tem todos os dias dezenas de maquinistas parados no cumprimento do seu segundo turno? Não se sabe e também ninguém pergunta.

Mas voltemos aos factores oficialmente desaparecidos em 1995 pois, para lá de terem valido um subsídio para abrir e fechar porta, também caucionam uma redução dos já reduzidos turnos dos maquinistas do Metro de Lisboa. Como bem explicava a “camarada Anabela Carvalheira” no Avante em 2007: “Antes de 1995, quando ainda circulava um maquinista com um factor, já havia, por motivos de segurança, um limite de quatro horas, para a duração máxima de um período de trabalho, numa jornada de 7,5 horas. Ao passar ao regime de agente único, foi acordada com a empresa a redução desse limite para três horas, pois o maquinista passava a circular sozinho, numa tarefa no subsolo, desgastante, muito rotineira e que exige extrema concentração.” Camarada Anabela Carvalheira, face a este argumentário só podemos dar graças por nunca termos tido composições puxadas a mulas porque ainda hoje tínhamos o subsídio dos arreios e a compensação horária devida aos maquinistas pela angústia gerada pela substituição do animal pela máquina!

Feitas as contas não se sabe se não teria sido melhor manter os factores e sempre se ganhava em factor humano. Hoje é motivo de festa encontrar um funcionário do Metro, seja qual for a sua categoria, em muitas das estações (recomendo as de Chelas e do Alto dos Moinhos!) e, mais raro ainda, que uma vez avistado, o funcionário em causa considere caber nas suas funções atender os passageiros. Mas o espiritismo laboral dos factores é apenas uma das muitas coisas que devíamos perceber melhor no fabuloso mundo das empresas públicas de transportes.

No caso dos maquinistas do Metro de Lisboa estes além do que recebem extra para verificarem o fecho e a abertura das portas das carruagens também têm subsídio de quilometragem. Não, não é um prémio por trabalharem muito é simplesmente um subsídio por fazerem aquilo que se propuseram quando se tornaram maquinistas: fazer andar as carruagens. Note-se que caso não façam quilómetros também têm direito a um subsídio de quilometragem. Este naturalmente fixo.

Os trabalhadores do Metro têm prémio por assiduidade e também prémio por receberem prémio de assiduidade. Tantas são as hipóteses de faltar que não comprometem o usufruto do prémio de assiduidade mais o prémio por receber o prémio de assiduidade que se é levado a concluir que só não recebem esses prémios os trabalhadores do Metro que enviarem uma carta com assinatura reconhecida notarialmente dizendo “hoje não vou trabalhar porque não me apetece.”

Apesar de uma das horas de maior fluxo de passageiros ser a que decorre das sete às oito da manhã os maquinistas e demais trabalhadores do Metro de Lisboa apenas iniciam remuneratoriamente falando o seu dia normal de trabalho às 8h o que se traduz por até essa hora receberem o respectivo vencimento mais um acréscimo de 25% da retribuição…

O levantamento dos subsídios e prémios atribuídos pelo Metro de Lisboa nos acordos de trabalho é uma tarefa morosa a que me dedicarei numa qualquer noite de insónia. Mas a leitura desses acordos e da maioria dos textos que povoam o Boletim do Trabalho e Emprego é um dos exercícios mais esclarecedores a que qualquer mortal deste país pode meter mãos. Sobretudo se o mortal em causa acalentar qualquer ilusão sobre ver diminuir a carga fiscal e o Estado particularmente o seu sector empresarial reformar-se.

E sobretudo percebemos melhor o que nos está a acontecer. O que está a acontecer em Portugal é simplesmente a tomada do poder pelas corporações que vivem do Estado e dentro do Estado. Os seja, as corporações que, aconteça o que acontecer, desde avanços tecnológicos a reestruturações de serviços, estão sempre blindadas e preservadas de qualquer mudança. Cada uma delas arranjará sempre a figura do factor para justificar o injustificável.

Terminado o PREC, houve que mandar os militares para os quartéis. Terminado este governo de António Costa não sei se haverá capacidade e líderes para enfrentarem as corporações que claramente estão a ganhar (ainda) mais terreno dentro do aparelho de Estado e na direcção dos partidos. A única certeza que tenho é que o factor continuará sempre a existir nos acordos do Metro de Lisboa.»

10 de dezembro de 2015

De como jogar à sueca



Dois exemplos do manual: aqui e aqui.

AVANTE, CAMARADAS!


(imagem recolhida aqui)

A CGTP fará valer a justa luta dos trabalhadores contra a miséria dos 530€ de salário mínimo, que lhes foram impostos pelos traidores. Pelos 535€!  Até à vitória final!!!

"Hipocrisias"



(visto aqui)

Ashraf Fayad - PETIÇÃO URGENTE!!!



Caros confrades

  Convido-vos a assinar esta petição. 

  Será pouco, mas façamo-lo. Ergamos assim a nossa voz e o nosso gesto contra a violência infame, a brutalidade fanática e a cínica estupidez dum Estado abusador.

  E quem sabe se conseguiremos subtrair à morte este nosso confrade! O intuito será esse.

  Peço-vos ainda que suscitem para esse gesto, também, os vossos amigos e conhecidos. À guisa de uma legítima bofetada na face da morte!

  Obrigado.
  


Arabia Saudí ordena la ejecución del poeta palestino Ashraf Fayad por renegar del Islam

Fayad ha sido condenado a muerte por un tribunal de Arabia Saudí por apostasía —es decir, negación del Islam—, cargo que el autor ha desmentido de manera categórica.

La verdadera causa parece ser la crítica que encierra su libro Instrucciones en el interior (2008), su influyente posición en la renovación del arte saudí y, también, que grabó imágenes de torturas por parte de la policía religiosa del régimen. Durante el proceso, se ignoró su derecho a disponer de un abogado, y el juez ni siquiera habló con él. Las discriminaciones y el maltrato procesal son habituales en Arabia Saudí con los refugiados palestinos como Fayad.

Riad ha aplicado la pena capital a más de 151 personas este año, la mayoría por decapitación, convirtiéndose en uno de los mayores ejecutores a nivel mundial. Esta cifra supera ya el total de ejecuciones registradas en un solo año en el reino árabe en 1995.

Bajo la ley saudí, los delitos como violación, asesinato, apostasía, robo a mano armada y tráfico de drogas pueden ser castigados con pena de muerte, y varias personas han sido ejecutadas también por acusaciones de brujería.

El Movimiento Poetas del Mundo ha lanzado una campaña para salvar a nuestro poeta, miembro honorífico de nuestra organización que cuenta en sus filas con 46 poetas palestinos y con más de nueve mil poetas a nivel mundial.

LLAMAMOS A TODOS NUESTROS MIEMBROS A FIRMAR LAS PETICIONES QUE CIRCULAN PARA SALVAR LA VIDA DE NUESTRO COMPAÑERO

Aschraf Fayad - Palestina
Miembro honorífico de Poetas del Mundo

Signez la pétition :


Amnesty international : Save the palestinian poet and artist Ashraf Fayadh


VER VÍDEO:


9 de dezembro de 2015

Da importância do exame do 4º Ano - ou Da aritmética doutrinária



Lemos e ouvimos várias vezes, desde há uns dois anos, na Comunicação Social (seja lá o que for que por isso se entenda) que cerca de 60% dos trabalhadores portugueses recebem o salário mínimo.

Ainda segundo a dita cuja, actualmente o número de reformados e aposentados, três milhões e tal, é pouco inferior ao número de trabalhadores no activo.


Assentemos então em que estes sejam quatro milhões. O que equivale a dizer que o número de trabalhadores no activo que recebe os 500 euritos é de dois milhões e quatrocentos mil.

Uma miséria. Proporcional à indigência da "esmagadora maioria" das empresas que constituem o tecido económico português.

Só isso explica, aliás, o El Dorado dos 600 euritos para daqui a 4 anos de risonha e cantante governança socialista.


Hoje, porém, a Comunicação Social (seja lá o que for que por isso se entenda), fazendo-se reflexo sonoro e visual de tanta folia popular, noticiava que a fartazana dos 30 euritos previstos para os próximos 366 dias irá para o meio milhão de neofelizardos que ganha presentemente o salário mínimo.

Ora meio milhão são quinhentos mil. E quinhentos mil não são 60% de quatro milhões: são 12,5%.

O que significa que, afinal, apenas 12,5% dos trabalhadores portugueses ganha o salário mínimo.

Eu sei, todos sabemos, aliás, que a "esmagadora maioria" dos cursos universitários da área de Humanidades (seja lá o que for que por isso se entenda) e afins é frequentada, na sua "esmagadora maioria" por gente que só está nesses cursos para "fugir à matemática", gente incapaz de efectuar correctamente uma operação básica de aritmética sem recorrer à calculadora.


Mas, em prol da honestidade profissional e do bem público, não se pode admitir tanta leveza e desleixo nos que nos dão conta do mundo em que vivemos.

Admitindo, é claro, que nada mais os motiva e esclarece também na tarefa missionária de informar os seus concidadãos...

7 de dezembro de 2015

Trump: Reagan II ?



Seria muito interessante se Trump ganhasse as eleições para Presidente dos EUA.

Seria muito interessante que um empresário, capitalista, milionário, bilionário, zilionário, ganhasse as eleições para tratar do país à moda do capitalismo: cada qual que trate de si. Para governar como qualquer governo deve governar: tratar do essencial da justiça, defesa e segurança e, relativamente à economia, sair pura e simplesmente do caminho.

Mas, e o estado não deve "zelar" pela economia? Deve. E a melhor forma de zelar por ela é sair do caminho fugindo dela a sete pés.

Mas, e um empresário a mandar na política? Bem, não quiseram fazer do estado o timoneiro da economia? Ninguém melhor que um empresário para o fazer porque ninguém melhor que ele sabe que, pela economia, basta que o estado fique longe dela.

Uma boa medida inicial seria acabar com a nefasta influência dos bancos centrais na determinação da taxa de juro.

2 de dezembro de 2015

Do matarruanismo politicamente correcto



Assino a newsletter do Observador. E julgo que aquela que me foi enviada há pouco, redigida por José Manuel Fernandes, tem importância mais do que suficiente para que a sua divulgação seja um dever moral de qualquer cidadão. Aqui a deixo.


Os novos censores e os novos caceteiros, ou os limites da liberdade de expressão

O pretexto próximo deste Macroscópio é um título que saiu há dias num cantinho da primeira página do Correio da Manhã. Um título que rezava assim: Integração – Costa chama cega e cigano para o Governo. De imediato se desencadeou uma tempestade e, passados alguns dias (horas?), o número de queixas apresentado na Entidade Reguladora da Comunicação Social (ERC) aproximou-se das duas centenas. É sabido que o Correio da Manhã anda muitas vezes no fio da navalha entre o que tolerável e o que é intolerável em jornalismo (já depois deste episódio a CMTV passou, na minha opinião, bem para lá dessa fronteira com a reprodução das gravações vídeo dos interrogatórios a Miguel Macedo, mas essa é uma outra discussão que talvez um dia mereça atenção nesta newsletter), mas é difícil ver a razão de tanta indignação com aquele título.

Devo dizer que tudo me teria passado despercebido não fosse a última crónica de João Pereira Coutinho numa edição posterior do mesmo jornal, intitulada 
A cegueira das patrulhas. Depois de recordar que nesse mesmo Governo de António Costa também se podia chamar a atenção para a novidade de uma negra ou mesmo para a ascendência goesa do primeiro-ministro, o cronista atira-se ao pensamento politicamente correcto: “Na histeria de censurar palavras para defender a ‘sensibilidade’ dos outros, as patrulhas não reconhecem aos outros ‘autonomia’ ou ‘racionalidade’ para se sentirem, ou não, ofendidos. Para os 175 queixosos, os deficientes não são deficientes; são espécies em risco, que devem viver em ‘habitat’ protegido.”


Sem qualquer referência a este episódio, um outro cronista, Henrique Monteiro, escrevia ontem no Expresso sobre o mesmo tema: 
A deriva censória do ‘politicamente correto’ (link para assinantes). Partindo de um texto de Edward Luce no Financial Times (a que já iremos), o antigo director do Expresso nota como é virtualmente impossível levantar a menor das dúvidas sobre os objectivos da Cimeira de Paris dedicada às alterações climáticas, mesmo havendo quem as tenha e seja gente cientificamente qualificada. Cita a seguir vários exemplos de censura em universidades norte-americanas, exemplo que mostram bem o exagera a que se chegou: “A fúria contra o que no passado se fez vai mais longe. Livros como ‘Metamorfoses’, clássico latino de Ovídio, é desaconselhado por descrever violações; ‘O Mercador de Veneza’, de Shakespeare, por ser ‘anti-semita’ ou até os mais recentes ‘Grande Gatsby’, de Scott Fitzgerald, ou ‘Não Matem a Cotovia’, de Harper Lee, por serem misógino (o primeiro) ou paternalista (o segundo).”

Vamos então ver o que escreveu Edward Luce no Financial Times, em 
The rise of liberal intolerance in America (sublinhe-se que “liberal” é a forma como nos Estados Unidos se classifica a esquerda mais assumida). Vejamos o seu ponto: “I tought to be a triumphal moment for American liberalism. In the space of a few years gay marriage has been accepted, marijuana has been legalised, America has twice elected its first black president and may well be gearing up to elect its first woman. Yet the revival of political correctness on US campuses — and the increasingly shrill tone of much of the intellectual left — tells another story. Instead of championing free speech, the left is trying to shut it down. In the name of diversity, it demands conformity. At stake is the character of US democracy. If elite Ivy League schools cannot stand the heat, what kind of kitchen will it be?”

Os exemplos alinhados por Edward Luce são numerosos e, no fundo, são a tradução prático do que indica uma sondagem recente (Outubro) sobre o que pensam os estudantes do ensino superior nos Estados Unidos, e que é bastante perturbadora: 
51% of students support speech codes, 33% unfamiliar with 1st Amendment. “Speech codes” são regras sobre o que se pode dizer ou não dizer; e a 1ª Emenda da Constituição dos Estados Unidos é aquela onde se estabelece que o Congresso não poderá fazer qualquer lei que de alguma forma limite a liberdade de expressão. Ora “The report found that 51 percent of millennials on college campuses support their school having speech codes to regulate speech for students and faculty, and another 63 percent favor professors employing “trigger warnings” to alert students of material that could upset them. A shockingly high 33 percent could not identify the First Amendment as part of the Constitution that supported free speech. Similarly, 35 percent said that the “hate speech” was not protected. Nearly a third of self-identified liberal students said the First Amendment is outdated.”

A edição de Novembro da 
New Criterioncitada no Wall Street Journal, considerava que estes resultados reflectem uma situação que terá consequências para a liberdade: “With the assault on free speech and the First Amendment proceeding apace in institutions once dedicated to robust intellectual debate, it is no wonder that there are more and more calls to criminalize speech that dissents from the party line on any number of issues, from climate change to race relations, to feminism and sex.”

Como os leitores do Macroscópio já sabem, ou imaginarão, esta situação não é nova nos campus universitários norte-americanos, mesmo nos mais prestigiados. Inúmeros artigos têm manifestado, nos últimos anos, grande preocupação com esta situação. Alguns exemplos, uns recentíssimos, outros mais antigos:
  • Unlearning Liberty: Campus Censorship and the End of American Debate, onde pode assistir a um debate realizado no Cato Institute em torno do livro de Greg Lukianoff que tem precisamente o título acima referido. Mote: “If we don’t teach our children the value of free and open intellectual debate in our institutions of higher education, Lukianoff asks, then when will they ever learn?”
  • That’s Not Funny! - Today’s college students can’t seem to take a joke, uma reportagem da The Atlantic do passado mês de Setembro onde se conta como até um certo tipo de humor começou a ser banido dos espaços universitários. Ao relatar o comportamento de um humorista, a revista nota: “He would not tell the jokes that kill at the clubs. He would not do the bit that ends with him offering oral sex to the magician David Copperfield, or the one about a seductive woman warning him that she might be an ax murderer, or the one about why men don’t like to use condoms. Those jokes include observations about power and sex and even rape—and each, in its complicated way, addresses certain ugly and possibly immutable truths. But they are jokes, not lessons from the gender-studies classroom. Their first objective is to be funny, not to service any philosophical ideal.” Só que “These young people have decided that some subjects—among them rape and race—are so serious that they shouldn’t be fodder for comics.”
  • Free speech is flunking out on college campuses, um texto de Outubro de Catherine Rampell no Washington Post onde, depois de recordar casos bem conhecidos – como a retirada de convites para conferências a pessoas como Christine Lagarde, Condoleezza Rice ou Ayaan Hirsi Ali por causa das ideias que defendem ou defenderam – se conta como na Universidade de Wesleyan, no Connecticut, o jornal do campus, velho de 150 anos, viu o seu financiamento ser cortado apenas por ter publicado um artigo de opinião considerado conservador.
  • Trouble on campus: the rise of ban-happy student leaders, uma peça do Telegraph onde se conta como Germaine Greer, uma feminista, foi quase impedida de participar numa conferência na Universidade de Cardiff apenas porque acha que um homem que se submete a uma operação de mudança de sexo não passa por isso a ser uma mulher. Nesse atigo dão-se muitos outros exemplos de como o fenómeno já não é apenas “uma coisa de americanos”, antes se propagou às mais prestigiosas universidade do Reino Unido.
  • Why are student-union officials censoring criticism of Islamic State?, de Brendan O'Neill na Spectator é quase uma decorrência da referência anterior e conta como acabou por ser proibida uma conferência de um estudante que tinha lutado ao lado dos curdos contra o Estado Islâmico com base no argumento de que a outra parte também deveria estar presente.


Poderia continuar a citar mais textos e mais exemplos, mas julgo que o ponto está demonstrado: a agressividade de um certo politicamente correcto está a tornar-se ou uma séria ameaça à liberdade, ou criando situações que parecem querer renegar a nossa cultura em nome de uma tolerância que acaba por ser, antes de tudo o mais, intolerante. Sendo que se tem espalhado pela Europa sob a mais diversas formas, e ainda agora estamos a assistir a um debate bem significativo em Itália, onde o director de uma escola decidiu 
proibir o habitual concerto de Natal para não ofender a pequena minoria de estudantes de origem muçulmana.

Em Portugal também já assistimos a situações em que, pela intimidação, se procuram calar vozes discordantes (Henrique Monteiro, 
no seu texto que já citámos, refere-se a quem vem à caixa de comentários dos seus textos sugerindo o seu despedimento, e todos sabem que Isabel Jonet, por exemplo, não pode abrir a boca sem que lhe caia meio mundo em cima…). Um dos melhores veículos para exercer essa intimidação é utilizando as redes sociais, como notou Isabel Stilwell no jornal I, em A nova censura das redes sociais. Aí conta como pensou escrever sobre três figuras públicas – Cavaco Silva, José Rodrigues dos Santos e Pe. Portocarrero de Almada – e acabou por não o fazer, a conselho dos filhos e de amigos, para não ser, mais uma vez, insultada nas redes sociais. E conclui: “Decididamente, este novo mundo virtual em que se difama e insulta, a coberto do anonimato e fora da lei, atenta contra a liberdade de expressão. E não fica assim tão longe do lápis azul.”

Julgo que todos os que frequentam as caixas de comentários dos jornais ou têm contas numa rede social compreenderão Isabel Stilwell. O que antes vos deixei parece indicar que a pressão censória não se limita a vozes anónimas ou desqualificadas, antes está a penetrar lugares que historicamente sempre se dedicaram ao debate de ideias e à descoberta do inesperado, do que é novo e diferente e, tantas vezes, do que é capaz de fazer cair certezas.(…)»

30 de novembro de 2015

"A nova ordem nacional"


(imagem recolhida aqui)

E eis que o meu fígado ficou eternamente grato a Alberto Gonçalves

«Recapitulemos. A 4 de Outubro, a vitória da coligação de "direita" e da "austeridade" provou que o povo é masoquista e retardado. Horas depois, ou o tempo necessário para contar os deputados, apurou-se que afinal a maioria do povo derrotou a "austeridade" nas urnas e concluiu-se, com alívio, que o povo masoquista e retardado é minoritário. O exercício, então, consistiu em parodiar na internet e na nobre arte do comentário político a falta de competência aritmética da "direita", já que 122 lugares na AR são mais do que 107 - "Qual é a parte que não percebem?", repetia-se por aí. Dada a suprema importância dos parlamentares, exigia-se que o PR indigitasse a aliança de esquerda sem ouvir nenhum. Enquanto isso, insultava-se "o Cavaco", que por sua vez indigitou Passos Coelho. Derrubado Passos Coelho, reclamou-se a nomeação imediata do Dr. Costa, ameaçou-se com baderna pública e decidiu-se que "o Cavaco", entretanto ocupado a receber meio mundo, não respeita a Constituição e o eleitorado, embora o homem agisse de acordo com a primeira e tivesse sido eleito em duas ocasiões pelo segundo (a parcela masoquista e retardada). Tudo, da sagrada "lei fundamental" à plebe, existe apenas para ser torcido a benefício da vanguarda esclarecida.

Hoje, com a cedência do PR à piedosa mentira da "inevitabilidade" do governo PS, enterrou-se (entre insultos) "o Cavaco" e passou-se a biografar os membros da coisa como se os ditos fossem para levar a sério. Não são. Desde logo, são, sem excepção ou dúvida, cúmplices de uma golpadazita - inteiramente "conchcinal", dirá o Dr. Costa -, o que por si define o respectivo carácter. À lupa, são no máximo antigos serviçais da autarquia, zombies "socráticos", favores, flores, emissários de interesses, em suma ninguém. Dissecar o currículo formal de cada um, mesmo agrupando os diversos agregados familiares que por lá andam, tem utilidade reduzida e não será grande contributo para prever o futuro e a essência do novo tempo, do novo homem, enfim da nova ordem emergente. A nova ordem está nos pormenores, e nem se esgota no rancho que tomou posse há dias.

Está, por exemplo, num primeiro-ministro que troca o jargão político por um jargão pessoal vagamente aparentado ao português (se ler conforme fala, o "brilhante negociador" ainda irá a meio do clássico Anita Vai ao Circo). A nova ordem está num ministro das Finanças que parece saído dos flashbacks deFamily Guy e entrado no circo a que a Anita foi. Está num candidato presidencial oficioso que promete "puxar por Portugal" e, juro pela minha saudinha, ser "um saca-rolhas". Está no ex-governante suspeito de múltiplos crimes que palmilha o território nacional em missão evangélica. Está numa ex-ministra da Cultura, e vibrante entusiasta da "situação", que avisa no Twitter: "Há [sic] direita prefere-se que não se emitam opiniões." Apesar disso, é "há" esquerda que as opiniões incomodam mais.

A nova ordem está na fresquíssima secretária de Estado da Igualdade ou da Fraternidade, que em tempos explicou no Facebook: "Como sabem eu [sic] não tenho por hábito fazer sensura [sic], mas não tulero [sic] insultos (...)". E está no sensor, perdão, censor que saltitou da ERC para a tropa, com escala pedagógica a norte. E está na sugestão do Sr. Seixas da Costa, personalidade conhecida por zelar pela educação parisiense do Eng. Sócrates e por se indignar com a falta de "estrelas" Michelin em Portugal: "A ideia não será popular, mas não seria a ocasião para se introduzir uma transparência total nas redes sociais acabando com o anonimato?" E está no assombroso Dr. Ferro. E no nobilíssimo Dr. César dos Açores. E em sujeitos que passeiam títulos e pêlos nas orelhas em simultâneo. Quem é essa gente, Deus do céu?

Não vou ao ponto de dizer que a nova ordem é a consagração dos clientes da taberna: é a consagração dos indivíduos que, expulsos da taberna, desataram a frequentar caves maçónicas compatíveis com o seu nível. Privados de uma reles ideia, a não ser a da impunidade "natural", exibem petulância directamente proporcional à rudeza que os define. Por cá, a espécie é igualmente apelidada de "elite". E ninguém se ri, até porque dá vontade de chorar.

Ao que tudo indica, a "direita" ficou sinceramente escandalizada com a jovialidade com que o PS traiu os próprios "princípios", aliou-se às beatas de Lenine e, após 40 anos de ténue civilização, enxovalhou a data fundadora do regime. Ou a "direita" perde a virgindade ou não volta a levantar-se. O único "princípio" do PS é a convicção profunda e feroz de que nasceu para mandar nisto, custe o que custar. E, se custa muito resignarmo-nos à arrogância de rústicos, a eles custa pouco partilhar o poder com quem partilha a descrença na democracia e a crença na superioridade inata. Só espanta que o arranjinho demorasse tanto. A nova ordem, feita de brutalidade, retórica de 4.ª classe (sem exame), intolerância, comparsas, falências, delírios, respeitinho e a terminal anexação do país pelo Estado, é um projecto velho.»