7 de dezembro de 2015

Trump: Reagan II ?



Seria muito interessante se Trump ganhasse as eleições para Presidente dos EUA.

Seria muito interessante que um empresário, capitalista, milionário, bilionário, zilionário, ganhasse as eleições para tratar do país à moda do capitalismo: cada qual que trate de si. Para governar como qualquer governo deve governar: tratar do essencial da justiça, defesa e segurança e, relativamente à economia, sair pura e simplesmente do caminho.

Mas, e o estado não deve "zelar" pela economia? Deve. E a melhor forma de zelar por ela é sair do caminho fugindo dela a sete pés.

Mas, e um empresário a mandar na política? Bem, não quiseram fazer do estado o timoneiro da economia? Ninguém melhor que um empresário para o fazer porque ninguém melhor que ele sabe que, pela economia, basta que o estado fique longe dela.

Uma boa medida inicial seria acabar com a nefasta influência dos bancos centrais na determinação da taxa de juro.

2 de dezembro de 2015

Do matarruanismo politicamente correcto



Assino a newsletter do Observador. E julgo que aquela que me foi enviada há pouco, redigida por José Manuel Fernandes, tem importância mais do que suficiente para que a sua divulgação seja um dever moral de qualquer cidadão. Aqui a deixo.


Os novos censores e os novos caceteiros, ou os limites da liberdade de expressão

O pretexto próximo deste Macroscópio é um título que saiu há dias num cantinho da primeira página do Correio da Manhã. Um título que rezava assim: Integração – Costa chama cega e cigano para o Governo. De imediato se desencadeou uma tempestade e, passados alguns dias (horas?), o número de queixas apresentado na Entidade Reguladora da Comunicação Social (ERC) aproximou-se das duas centenas. É sabido que o Correio da Manhã anda muitas vezes no fio da navalha entre o que tolerável e o que é intolerável em jornalismo (já depois deste episódio a CMTV passou, na minha opinião, bem para lá dessa fronteira com a reprodução das gravações vídeo dos interrogatórios a Miguel Macedo, mas essa é uma outra discussão que talvez um dia mereça atenção nesta newsletter), mas é difícil ver a razão de tanta indignação com aquele título.

Devo dizer que tudo me teria passado despercebido não fosse a última crónica de João Pereira Coutinho numa edição posterior do mesmo jornal, intitulada 
A cegueira das patrulhas. Depois de recordar que nesse mesmo Governo de António Costa também se podia chamar a atenção para a novidade de uma negra ou mesmo para a ascendência goesa do primeiro-ministro, o cronista atira-se ao pensamento politicamente correcto: “Na histeria de censurar palavras para defender a ‘sensibilidade’ dos outros, as patrulhas não reconhecem aos outros ‘autonomia’ ou ‘racionalidade’ para se sentirem, ou não, ofendidos. Para os 175 queixosos, os deficientes não são deficientes; são espécies em risco, que devem viver em ‘habitat’ protegido.”


Sem qualquer referência a este episódio, um outro cronista, Henrique Monteiro, escrevia ontem no Expresso sobre o mesmo tema: 
A deriva censória do ‘politicamente correto’ (link para assinantes). Partindo de um texto de Edward Luce no Financial Times (a que já iremos), o antigo director do Expresso nota como é virtualmente impossível levantar a menor das dúvidas sobre os objectivos da Cimeira de Paris dedicada às alterações climáticas, mesmo havendo quem as tenha e seja gente cientificamente qualificada. Cita a seguir vários exemplos de censura em universidades norte-americanas, exemplo que mostram bem o exagera a que se chegou: “A fúria contra o que no passado se fez vai mais longe. Livros como ‘Metamorfoses’, clássico latino de Ovídio, é desaconselhado por descrever violações; ‘O Mercador de Veneza’, de Shakespeare, por ser ‘anti-semita’ ou até os mais recentes ‘Grande Gatsby’, de Scott Fitzgerald, ou ‘Não Matem a Cotovia’, de Harper Lee, por serem misógino (o primeiro) ou paternalista (o segundo).”

Vamos então ver o que escreveu Edward Luce no Financial Times, em 
The rise of liberal intolerance in America (sublinhe-se que “liberal” é a forma como nos Estados Unidos se classifica a esquerda mais assumida). Vejamos o seu ponto: “I tought to be a triumphal moment for American liberalism. In the space of a few years gay marriage has been accepted, marijuana has been legalised, America has twice elected its first black president and may well be gearing up to elect its first woman. Yet the revival of political correctness on US campuses — and the increasingly shrill tone of much of the intellectual left — tells another story. Instead of championing free speech, the left is trying to shut it down. In the name of diversity, it demands conformity. At stake is the character of US democracy. If elite Ivy League schools cannot stand the heat, what kind of kitchen will it be?”

Os exemplos alinhados por Edward Luce são numerosos e, no fundo, são a tradução prático do que indica uma sondagem recente (Outubro) sobre o que pensam os estudantes do ensino superior nos Estados Unidos, e que é bastante perturbadora: 
51% of students support speech codes, 33% unfamiliar with 1st Amendment. “Speech codes” são regras sobre o que se pode dizer ou não dizer; e a 1ª Emenda da Constituição dos Estados Unidos é aquela onde se estabelece que o Congresso não poderá fazer qualquer lei que de alguma forma limite a liberdade de expressão. Ora “The report found that 51 percent of millennials on college campuses support their school having speech codes to regulate speech for students and faculty, and another 63 percent favor professors employing “trigger warnings” to alert students of material that could upset them. A shockingly high 33 percent could not identify the First Amendment as part of the Constitution that supported free speech. Similarly, 35 percent said that the “hate speech” was not protected. Nearly a third of self-identified liberal students said the First Amendment is outdated.”

A edição de Novembro da 
New Criterioncitada no Wall Street Journal, considerava que estes resultados reflectem uma situação que terá consequências para a liberdade: “With the assault on free speech and the First Amendment proceeding apace in institutions once dedicated to robust intellectual debate, it is no wonder that there are more and more calls to criminalize speech that dissents from the party line on any number of issues, from climate change to race relations, to feminism and sex.”

Como os leitores do Macroscópio já sabem, ou imaginarão, esta situação não é nova nos campus universitários norte-americanos, mesmo nos mais prestigiados. Inúmeros artigos têm manifestado, nos últimos anos, grande preocupação com esta situação. Alguns exemplos, uns recentíssimos, outros mais antigos:
  • Unlearning Liberty: Campus Censorship and the End of American Debate, onde pode assistir a um debate realizado no Cato Institute em torno do livro de Greg Lukianoff que tem precisamente o título acima referido. Mote: “If we don’t teach our children the value of free and open intellectual debate in our institutions of higher education, Lukianoff asks, then when will they ever learn?”
  • That’s Not Funny! - Today’s college students can’t seem to take a joke, uma reportagem da The Atlantic do passado mês de Setembro onde se conta como até um certo tipo de humor começou a ser banido dos espaços universitários. Ao relatar o comportamento de um humorista, a revista nota: “He would not tell the jokes that kill at the clubs. He would not do the bit that ends with him offering oral sex to the magician David Copperfield, or the one about a seductive woman warning him that she might be an ax murderer, or the one about why men don’t like to use condoms. Those jokes include observations about power and sex and even rape—and each, in its complicated way, addresses certain ugly and possibly immutable truths. But they are jokes, not lessons from the gender-studies classroom. Their first objective is to be funny, not to service any philosophical ideal.” Só que “These young people have decided that some subjects—among them rape and race—are so serious that they shouldn’t be fodder for comics.”
  • Free speech is flunking out on college campuses, um texto de Outubro de Catherine Rampell no Washington Post onde, depois de recordar casos bem conhecidos – como a retirada de convites para conferências a pessoas como Christine Lagarde, Condoleezza Rice ou Ayaan Hirsi Ali por causa das ideias que defendem ou defenderam – se conta como na Universidade de Wesleyan, no Connecticut, o jornal do campus, velho de 150 anos, viu o seu financiamento ser cortado apenas por ter publicado um artigo de opinião considerado conservador.
  • Trouble on campus: the rise of ban-happy student leaders, uma peça do Telegraph onde se conta como Germaine Greer, uma feminista, foi quase impedida de participar numa conferência na Universidade de Cardiff apenas porque acha que um homem que se submete a uma operação de mudança de sexo não passa por isso a ser uma mulher. Nesse atigo dão-se muitos outros exemplos de como o fenómeno já não é apenas “uma coisa de americanos”, antes se propagou às mais prestigiosas universidade do Reino Unido.
  • Why are student-union officials censoring criticism of Islamic State?, de Brendan O'Neill na Spectator é quase uma decorrência da referência anterior e conta como acabou por ser proibida uma conferência de um estudante que tinha lutado ao lado dos curdos contra o Estado Islâmico com base no argumento de que a outra parte também deveria estar presente.


Poderia continuar a citar mais textos e mais exemplos, mas julgo que o ponto está demonstrado: a agressividade de um certo politicamente correcto está a tornar-se ou uma séria ameaça à liberdade, ou criando situações que parecem querer renegar a nossa cultura em nome de uma tolerância que acaba por ser, antes de tudo o mais, intolerante. Sendo que se tem espalhado pela Europa sob a mais diversas formas, e ainda agora estamos a assistir a um debate bem significativo em Itália, onde o director de uma escola decidiu 
proibir o habitual concerto de Natal para não ofender a pequena minoria de estudantes de origem muçulmana.

Em Portugal também já assistimos a situações em que, pela intimidação, se procuram calar vozes discordantes (Henrique Monteiro, 
no seu texto que já citámos, refere-se a quem vem à caixa de comentários dos seus textos sugerindo o seu despedimento, e todos sabem que Isabel Jonet, por exemplo, não pode abrir a boca sem que lhe caia meio mundo em cima…). Um dos melhores veículos para exercer essa intimidação é utilizando as redes sociais, como notou Isabel Stilwell no jornal I, em A nova censura das redes sociais. Aí conta como pensou escrever sobre três figuras públicas – Cavaco Silva, José Rodrigues dos Santos e Pe. Portocarrero de Almada – e acabou por não o fazer, a conselho dos filhos e de amigos, para não ser, mais uma vez, insultada nas redes sociais. E conclui: “Decididamente, este novo mundo virtual em que se difama e insulta, a coberto do anonimato e fora da lei, atenta contra a liberdade de expressão. E não fica assim tão longe do lápis azul.”

Julgo que todos os que frequentam as caixas de comentários dos jornais ou têm contas numa rede social compreenderão Isabel Stilwell. O que antes vos deixei parece indicar que a pressão censória não se limita a vozes anónimas ou desqualificadas, antes está a penetrar lugares que historicamente sempre se dedicaram ao debate de ideias e à descoberta do inesperado, do que é novo e diferente e, tantas vezes, do que é capaz de fazer cair certezas.(…)»

30 de novembro de 2015

"A nova ordem nacional"


(imagem recolhida aqui)

E eis que o meu fígado ficou eternamente grato a Alberto Gonçalves

«Recapitulemos. A 4 de Outubro, a vitória da coligação de "direita" e da "austeridade" provou que o povo é masoquista e retardado. Horas depois, ou o tempo necessário para contar os deputados, apurou-se que afinal a maioria do povo derrotou a "austeridade" nas urnas e concluiu-se, com alívio, que o povo masoquista e retardado é minoritário. O exercício, então, consistiu em parodiar na internet e na nobre arte do comentário político a falta de competência aritmética da "direita", já que 122 lugares na AR são mais do que 107 - "Qual é a parte que não percebem?", repetia-se por aí. Dada a suprema importância dos parlamentares, exigia-se que o PR indigitasse a aliança de esquerda sem ouvir nenhum. Enquanto isso, insultava-se "o Cavaco", que por sua vez indigitou Passos Coelho. Derrubado Passos Coelho, reclamou-se a nomeação imediata do Dr. Costa, ameaçou-se com baderna pública e decidiu-se que "o Cavaco", entretanto ocupado a receber meio mundo, não respeita a Constituição e o eleitorado, embora o homem agisse de acordo com a primeira e tivesse sido eleito em duas ocasiões pelo segundo (a parcela masoquista e retardada). Tudo, da sagrada "lei fundamental" à plebe, existe apenas para ser torcido a benefício da vanguarda esclarecida.

Hoje, com a cedência do PR à piedosa mentira da "inevitabilidade" do governo PS, enterrou-se (entre insultos) "o Cavaco" e passou-se a biografar os membros da coisa como se os ditos fossem para levar a sério. Não são. Desde logo, são, sem excepção ou dúvida, cúmplices de uma golpadazita - inteiramente "conchcinal", dirá o Dr. Costa -, o que por si define o respectivo carácter. À lupa, são no máximo antigos serviçais da autarquia, zombies "socráticos", favores, flores, emissários de interesses, em suma ninguém. Dissecar o currículo formal de cada um, mesmo agrupando os diversos agregados familiares que por lá andam, tem utilidade reduzida e não será grande contributo para prever o futuro e a essência do novo tempo, do novo homem, enfim da nova ordem emergente. A nova ordem está nos pormenores, e nem se esgota no rancho que tomou posse há dias.

Está, por exemplo, num primeiro-ministro que troca o jargão político por um jargão pessoal vagamente aparentado ao português (se ler conforme fala, o "brilhante negociador" ainda irá a meio do clássico Anita Vai ao Circo). A nova ordem está num ministro das Finanças que parece saído dos flashbacks deFamily Guy e entrado no circo a que a Anita foi. Está num candidato presidencial oficioso que promete "puxar por Portugal" e, juro pela minha saudinha, ser "um saca-rolhas". Está no ex-governante suspeito de múltiplos crimes que palmilha o território nacional em missão evangélica. Está numa ex-ministra da Cultura, e vibrante entusiasta da "situação", que avisa no Twitter: "Há [sic] direita prefere-se que não se emitam opiniões." Apesar disso, é "há" esquerda que as opiniões incomodam mais.

A nova ordem está na fresquíssima secretária de Estado da Igualdade ou da Fraternidade, que em tempos explicou no Facebook: "Como sabem eu [sic] não tenho por hábito fazer sensura [sic], mas não tulero [sic] insultos (...)". E está no sensor, perdão, censor que saltitou da ERC para a tropa, com escala pedagógica a norte. E está na sugestão do Sr. Seixas da Costa, personalidade conhecida por zelar pela educação parisiense do Eng. Sócrates e por se indignar com a falta de "estrelas" Michelin em Portugal: "A ideia não será popular, mas não seria a ocasião para se introduzir uma transparência total nas redes sociais acabando com o anonimato?" E está no assombroso Dr. Ferro. E no nobilíssimo Dr. César dos Açores. E em sujeitos que passeiam títulos e pêlos nas orelhas em simultâneo. Quem é essa gente, Deus do céu?

Não vou ao ponto de dizer que a nova ordem é a consagração dos clientes da taberna: é a consagração dos indivíduos que, expulsos da taberna, desataram a frequentar caves maçónicas compatíveis com o seu nível. Privados de uma reles ideia, a não ser a da impunidade "natural", exibem petulância directamente proporcional à rudeza que os define. Por cá, a espécie é igualmente apelidada de "elite". E ninguém se ri, até porque dá vontade de chorar.

Ao que tudo indica, a "direita" ficou sinceramente escandalizada com a jovialidade com que o PS traiu os próprios "princípios", aliou-se às beatas de Lenine e, após 40 anos de ténue civilização, enxovalhou a data fundadora do regime. Ou a "direita" perde a virgindade ou não volta a levantar-se. O único "princípio" do PS é a convicção profunda e feroz de que nasceu para mandar nisto, custe o que custar. E, se custa muito resignarmo-nos à arrogância de rústicos, a eles custa pouco partilhar o poder com quem partilha a descrença na democracia e a crença na superioridade inata. Só espanta que o arranjinho demorasse tanto. A nova ordem, feita de brutalidade, retórica de 4.ª classe (sem exame), intolerância, comparsas, falências, delírios, respeitinho e a terminal anexação do país pelo Estado, é um projecto velho.»

23 de novembro de 2015

Da poesia fala o poeta - 4


João Garção (n. 1968)

Poeta, pintor, ensaísta e professor. Foi futebolista profissional (guarda-redes) na Académica de Coimbra. Autor de “Sobre Raul Proença”, “Pequenos ensaios” e “Os versos do Zé Povão”. No prelo, com chancela da “Apenas Livros”, sairá em breve “O teatro surrealista em Portugal”, com prefácio de António Cândido Franco.


Do poeta diz o poema.


AGUARELA

Na minha terra, quando eu era pequeno
havia montanhas altas com bosques e recantos
pelo menos um Oceano com piratas e segredos
e muitas outras coisas que se transfiguravam

Os heróis eram altos, atléticos, usavam duas cores
e parece que havia uns outros sobrados da Grande Guerra

A velhota gorda que vendia castanhas no largo do Rossio
pertencia a uma misteriosa quadrilha francesa
falava alto, tratava os fregueses pelo nome
aparecia e desaparecia consoante era Inverno ou Verão

No dia de Santos o gajo das barbas (que tinha um tesouro escondido)
dava-nos nozes, se lhe batíamos à porta
e havia alguns, corajosos, que batiam

Havia um espanhol que era barbeiro
mas as tesouras cantavam em português

Os polícias passavam, nas tardes de Primavera
muito suaves, devagarinho, rua do Comércio abaixo
quando não era pela Corredoura acima

Pareciam anjos vestidos de azul claro

Só muito mais tarde notei que usavam cassetete

Como eu gostava da Escola! E ainda por cima
os professores era tudo gente esperta

Não havia, que eu soubesse, pessoas infelizes
e os bandidos só faziam serviço no “Tintin”
ou nos filmes (poucos) da televisão

Mas as coisas, como nas fitas, parece que às vezes
andam demasiado depressa.

Os heróis – os mais velhos morreram –
tinham estado, coitados, com o Milhões na França
e os que eram às cores transformaram-se em futebolistas
com o remate trocado

A mulher das castanhas foi um ar que lhe deu:
finou-se com um colapso e era avó de três netos
como ela trabalhadores da fábrica da rolha


Os anjos que eram polícias já só andam de carro
e um deles até me ofendeu, um dia, junto a um Bar

Alguns dos professores ficaram com orelhas de burro

E nesta coisa de crescer, o que mais (juro-vos) me dana
é que agora corto o cabelo num cabeleireiro de homens
que competentemente me afeita (enquanto leio o jornal)


com um aparelho que rosna como um rafeiro sem classe.

22 de novembro de 2015

Pode Obama evitar que este jovem seja decapitado?



(Ali Mohamed al-Nimr tinha 17 anos quando foi preso. A pena de morte pode ser- lhe aplicada a qualquer momento) - recolhido no Observador

Ali Mohamed al-Nimr, um jovem de 21 anos da Arábia Saudita, foi condenado a ser decapitado e crucificado em público. A sentença deveu-se à sua participação numa manifestação que ocorreu na cidade de Qatif. Os manifestantes defendiam a igualdade de direitos entre a população xiita, a que al-Nimr pertence, e a população sunita, que constitui a maioria no país.

Na primeira entrevista da sua mãe aos media estrangeiros, relatada pelo jornal inglês The Guardian, Nusra al-Ahmed qualifica a pena imposta ao seu filho como “selvagem” e vinda “da idade das trevas”. Nusra al-Ahmed acusou ainda as autoridades sauditas de terem torturado o seu filho na prisão:

Quando visitei o meu filho pela primeira vez não o reconheci. Não sabia se [a pessoa que visitei] era realmente o meu filho ou não. Via claramente que tinha uma ferida na testa, outra no nariz. Desfiguraram-no. Até o corpo, [que] estava excessivamente magro. [Quando] comecei a falar com ele [disse-me que] durante o interrogatório [foi] pontapeado, deram-lhe estaladas, os seus dentes caíram, claro… [e] urinou sangue durante um mês.

Agora, a mãe do condenado implora ao presidente norte-americano Barack Obama que o salve, fazendo uso da sua popularidade e das estreitas relações entre os Estados Unidos e a Arábia Saudita. “[Obama] é o líder deste mundo (…) pode interferir e salvar o meu filho (…) Eu e o meu filho não temos nenhuma importância neste mundo mas apesar disso, se ele assumisse este ato (…) estaria a salvar-nos de uma grande tragédia”.

Nusra al-Ahmed, que segundo relata o Guardian acredita que a pena foi imposta ao filho para o punir pela sua fé xiita, mostrou-se ainda indignada com a pena:

Nenhum ser humano são e normal daria esta sentença a uma criança de 17 anos [Ali Mohamed al-Nimr tinha 17 anos quando foi preso pelas autoridades do país]. Não derramou qualquer sangue, não roubou propriedade nenhuma. Onde foram buscar isto? À Idade das Trevas?

A decisão do Supremo Tribunal da Arábia Saudita tem motivado críticas, vindas de vários pontos do globo. Entre os grupos de direitos humanos mais críticos da situação encontram-se a Amnistia Internacional e a Reprieve, uma organização britânica cuja missão diz ser “ajudar as pessoas que sofrem abusos extremos de direitos humanos às mãos dos governos mais poderosos do mundo”.

No Reino Unido, o primeiro-ministro David Cameron apelou na passada semana ao rei da Arábia Saudita para não aplicar a pena de decapitação e crucificação a Ali Mohamed al-Nimr. E, esta terça-feira, anunciou ter retirado uma proposta de quase 8 milhões de euros que havia feito à Arábia Saudita para um programa de treino aos guardas prisionais do país. A decisão também se deveu à retenção do pensionista britânico Karl Andree numa prisão da Arábia Saudita por posse de álcool: um caso que tem preocupado o governo britânico.

A embaixada da Arábia Saudita no Reino Unido já reagiu ao que classifica como “interferências em assuntos internos” do país, lançando um comunicado onde repudia a interferência do Reino Unido no sistema judicial “independente e imparcial” do “estado soberano” da Arábia Saudita.

E para este condenado, vejamos o poema de Mário Cesariny:


O HERÓI

Herói é o meu nome.
Meu olhar frio, arguto
Não vê coisa que o dome.
Meu esforço rude e sano
Não desmaia um minuto.
Sou herói todo o ano.
Quando passar por vós, naturalmente,
com este meu ar simples e no entanto diferente
e no entanto diferente do ar do resto da gente
não digais: é fulano.
Dizei: é o Herói.

O herói, simplesmente.

21 de novembro de 2015

Poeta saudita condenado à morte por renunciar ao Islão


(Ashraf Fayadh é um dos artistas mais conhecidos do Médio Oriente, já curou exposições na semana artística saudita Jeddah Art Week e na Bienal de Veneza) - recolhido no Observador


ASHRAF FAYADh


Ashraf Fayadh foi condenado à morte por um tribunal da Arábia Saudita. O país rege-se pela Sharia, Lei Islâmica, que acusa o poeta de blasfémia a Alá, ao profeta Maomé e renúncia ao Islão.

O poeta saudita Ashraf Fayadh foi condenado à morte por um tribunal saudita por ter alegadamente renunciado ao Islão, refere The Guardian.

A sentença que condena o poeta à pena de morte foi proferida a 17 de novembro, a quem foram concedidos 30 dias para recorrer da sentença. Face à decisão, Ashraf Fayadh alegou que não tem representante legal.

Segundo o Independent, o palestiniano foi detido em agosto de 2013, em Abha, na província de Asir, sudoeste da Arábia Saudita pela polícia religiosa do reino saudita. O país do Médio Oriente é regido pela Sharia (Lei Islâmica) e segundo uma fonte da associação Human Rights Watch que teve acesso ao processo, Ashraf Fayadh é acusado de abjuração e renúncia à fé islâmica, noticia o mesmo jornal.

A detenção ocorreu depois de uma denúncia de que o poeta teria injuriado Alá e o profeta Maomé e insultado a Arábia Saudita e distribuindo ainda um livro de poemas que alegadamente promovem o ateísmo, clarifica o The Guardian.

O artista já havia sido condenado em maio de 2014 a quatro anos de prisão e 800 chicotadas pelo tribunal de Abha. Na sequência desta primeira decisão judicial o poeta recorreu, mas o recurso foi rejeitado e voltou ao banco dos réus o mês passado. O novo painel de juízes decidiu a sua execução, apesar de o escritor ter manifestado arrependimento.

“Fiquei realmente chocado, mas era de se esperar, embora eu não tenha feito nada que mereça a morte”, disse Fayadh ao The Guardian.

Ashraf Fayadh, de 35 anos, faz parte do coletivo artísticoEdge of Arabia e é um refugiado palestiniano, apesar de ter nascido na Arábia Saudita. O poeta afirma que o livro em causa foi mal-interpretado pelas autoridades sauditas. Segundo o autor, a obra fala da sua experiência como refugiado palestiniano onde aborda questões culturais e filosóficas.

Para lá das questões religiosas, os amigos de Ashraf Fayadh acreditam que a condenação do poeta poderá ser uma retaliação: o artista publicou um vídeo que mostra a polícia religiosa do reino a atacar um homem em público.

Como homenagem a este poeta, que melhor que dar aqui este poema de Sophia de Melo Breyner Andresen?

Porque

Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão
Porque os outros têm medo mas tu não

Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam  mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam  mas tu não.

15 de novembro de 2015

"O principado de Zouheir"


René Magritte, Le double secret

Um grande, grande texto de Maria Helena Matos, no Observador:

«Não, não me apetece pela quinquagésima vez o “somos todos” qualquer coisa, mais o facebook às riscas e a Marianne a chorar. Já sabemos como vai ser não é? Lembram-se do Charlie Hebdo? Éramos todos tão livres, não éramos? Pois éramos. E claro que não se pode ter medo, que a França é a pátria da Liberdade, que mesmo ferida se vai levantar… Pois, mas em Julho deste ano, meio ano após os atentados, o editor do Charlie Hebdo anunciou que aquele jornal não voltaria a publicar desenhos satíricos de Maomé. Ficámos um bocadinho menos “charlies” não foi? E o bom Charlie vai fazendo as suas caricaturas com os bispos do costume e até entreviu no nosso governo de esquerda uma espécie de vitória sobre o nosso passado colonial, não foi? Pois é, com um bocadinho de esforço quase que se pode dizer que o Charlie continua na mesma. Afinal, cada um acredita não no que quer mas sobretudo no que precisa. Há quem goste de acreditar que continua novo apesar das rugas. Nós precisamos de acreditar que continuamos livres.

Portanto, agora que a onda está aí de novo, mais as flores, as velas e o Imagine, prefiro fazer de conta que não engulo em seco diante das imagens daquela gente outra vez pendurada numa janela para não morrer (lembram-se do 11 de Setembro?) e daquele rapaz arrastando um corpo pelo meio da rua (uma rua de Paris!), para me poupar à irritação daquele momento que não tarda em que cairemos no processo da voz passiva que nos leva do óbvio – terroristas matam – ao grotesco das pessoas que “acabaram por falecer” na sequência de actos alegadamente praticados por terroristas. Actos esses pressurosamente transformados em respostas às políticas do Ocidente. Do Ocidente que quer o petróleo. Do Ocidente que intervém. Do Ocidente que não intervém. Do Ocidente que desenhou as fronteiras. Do Ocidente que fez as cruzadas… enfim uma espiral retroactiva em que as culpas nunca se expiam antes se exponenciam. (No nosso portuguesíssimo caso junta-se a tudo isto, segundo Ana Gomes, a demora de Cavaco Silva em indigitar António Costa. Mas não creio que, para já, a comunidade internacional se sinta capacitada para ponderar essa tese.)

Há algo de grotesco nesta forma de ver o mundo em que o outro – aquele que por uma qualquer razão nos odeia ou ataca – é sempre o elemento neutro. Ele por ele nada faz. Os seus actos são sempre o resultado de algo que nós, os nossos pais, os nossos avós e os nossos antepassados fizeram, pelo menos até àquele polémico momento em que o Neandertal se terá cruzado no planeta Terra com o Sapiens sapiens. Dir-se-á que isto é pateta. Pois é. Mas o problema das visões patetas é que o seu simplismo constitui-se como argumento eficaz na justificação do injustificável: com os terroristas reduzidos à condição de consequência dos nossos actos, a responsabilidade pelo terrorismo deixa de ser dos terroristas pois é transferida para aqueles que o sofrem.


Não é por acaso que após os atentados terroristas vivemos uma sensação de desconcerto, como se não fosse justo nem lógico fazerem-nos aquilo. Na verdade para nós não é. Mas só para nós. Do ponto de vista do terrorista não só tudo aquilo faz sentido como é lógico: são actos tácticos de uma estratégia com objectivos próprios.

O terrorista não é uma marionete puxada pelos fios dos actos presentes e passados dos outros. Muito menos é alguém que buscando os mesmos objectivos de justiça dos não terroristas apenas se enganou no caminho. O terrorista existe independentemente de nós.


Recordo como este exercício de ver o terrorista como um resultado e não como um sujeito dotado de vontade própria era particularmente penoso no caso dos atentados da ETA, em Espanha. Primeiro a ETA matava por causa de Franco. Depois veio a Transição a ETA passou a matar ainda mais (é exactamente durante a Transição que a ETA é mais mortífera: 84 mortos em 1979 e 93 em 1980) mas tal, dizia-se, explicava-se pelo combate à herança do franquismo presente no aparelho de Estado. A Espanha tornou-se democrática e a ETA continuava a matar militares, polícias, políticos e empresários, mas isso devia-se à ligação dos militares ao passado, dos polícias à repressão, daqueles políticos à direita e dos empresários ao dinheiro. A ETA continuava a matar. Politicamente as balas entravam em nucas de direita e de esquerda. Mas havia sempre uma culpa da sociedade espanhola para explicar mais uma bomba e mais uma bala: eram os presos da ETA que não podiam estar todos juntos na mesma prisão; era o tribunal que os condenava; era o artigo no jornal que os tinha ofendido; o empresário que não pagava o imposto revolucionário… E quando não se percebia que ligação haveria entre a vítima e os seus verdugos aventava-se que a vítima podia ser um informador. Ou um narcotraficante, porque a ETA queria o País Basco livre de drogas.

A par dos atentados, a ETA desdobrava-se em várias organizações legalíssimas e activíssimas no combate à violência (das autoridades policiais, claro) e de promoção dos direito humanos, (dos terroristas obviamente). Advogados, professores universitários e jornalistas desdobravam-se, em Espanha e fora dela, em concentrações e conferências de denúncia destes graves atentados à democracia. Ainda por aí andam folhetos em que ilustres participantes portugueses se propunham mediar entre a ETA e o intransigente Estado espanhol.

Até que a 10 de Julho de 1997 a ETA sequestrou Miguel Ángel Blanco, um vereador do PP em Ermua, e deu dois dias ao Governo, então presidido por Aznar, para reagrupar os presos da organização (independentista e não terrorista, segundo boa parte dos orgãos de comunicação). A 13 de Julho o cadáver de Miguel Ángel Blanco era descoberto e nasceu o chamado Espírito de Ermua em que para lá do PSOE e do PP terem estabelecido uma espécie de pacto de regime no combate ao terrorismo a sociedade espanhola deixou de procurar as culpas das vítimas em cada atentado.

Resultado: a ETA foi derrotada. Mas só a ETA, porque o discurso do terrorismo, enquanto resposta automática e não como estratégia de vontade própria, esse apenas mudou os protagonistas do seu enquadramento.


Agora que os mortos se contam na França de Hollande e não na América, para mais de Bush, resta-nos pelo menos a esperança de que esta diferença geo-política nos poupará ao destravamento delirante das teorias da conspiração, mas não será suficiente para nos livrar do momento em que os atentados deixam de ser atentados para se tornarem mediaticamente falando na resposta os que fizemos, fazemos ou pensamos vir a fazer.

Quer isto dizer que não acredito nas promessas de união para combater o terrorismo, promessas reiteradas dramaticamente nestes dias? Na verdade não acredito que este seja o momento Ermua da Europa. E não acredito por duas razões. Em primeiro lugar porque combater o terrorismo islâmico implica não apenas, como no caso da ETA, cooperação internacional – alguém ainda se lembra dos “santuários” da ETA em França e de como eles acabaram? – mas coordenação internacional. Mais difícil ainda de conseguir, e aqui chego à segunda razão, ou melhor dizendo ao segundo conjunto de razões: combater o terrorismo islâmico pressupõe intervenções militares e policiais que só se fazem com o tempo longo dos pactos e a resiliência que nasce das convicções.


Ora nós vivemos o esboroamento do centro e trocámos as convicções pelas indignações: às primeiras imagens de uma operação mal sucedida e aos primeiros homens caídos, político europeu algum fora do Reino Unido resiste às “manifestações pela paz”, até porque logo os seus rivais usarão esse apelo como argumento eleitoral.

Politica e mediaticamente falando (o que é quase a mesma coisa), a Europa e em parte os EUA alienaram o incómodo estatuto da soberania pelo simpático (mas mortífero) conceito de principado. Ou seja, os seus cidadãos sonham ser ricos, cultos e livres e acreditam e sobretudo querem acreditar que podem manter a sua segurança e a sua dignidade através da distribuição das suas sobras e estabelecendo alianças com outros para que estes primeiro combatam por si e depois para que não a ataquem (qualquer comparação com a Roma da decadência não é casual).

Por isso, se me pedirem um símbolo destes dias eu não escolho a Torre Eiffel, nem as flores, nem as velas mas sim um rosto que não vimos. O de Zouheir. Quem é Zouheir? O segurança que impediu a entrada de um dos terroristas no estádio onde decorria o França-Alemanha. Esperar-se-ia que o rosto deste homem que evitou a catástrofe implícita ao rebentamento das bombas dentro do estádio estivesse na capa dos jornais. Afinal foi um dos heróis dessa sexta-feira. Pois foi e por isso tem medo. Medo que se vinguem nele ou na sua família por te feito que devia fazer.

Zouheir somos todos nós.»