14 de novembro de 2015

LA DOUCE FRANCE ESTÁ SANGRANDO


Brueghel, O triunfo da morte

      Mais de 300 seres humanos, entre mortos e feridos, é o balanço resultante da brutalidade islamita fanatizada, mas também do desleixo e do fechar de olhos e ouvidos, “politicamente correcto”, dos próceres gauleses de facções bem determinadas.


   O povo francês, que tem tido uma paciência quase bíblica para com certos incompetentes políticos, merecia melhor sorte.

***

  É necessário de uma vez por todas, por outro lado, desmascarar certos seres abjectos, cínicos e hipócritas que de cada vez que o fascismo verde perpetra um ataque mortífero vêm dizer sem pudor "atenção, não incrementem leis securitárias!".


  O que eles querem com isto é impedir-nos de destroçar esse tipo de fascismo. Tal faz parte da estratégia de destruição da Democracia, que é comum aos apaniguados do islamismo, aos viúvos do Muro e aos novos estrategas do fascismo vermelho pós-estalinista.

   A Segurança democrática não tira liberdade a ninguém a não ser aos INIMIGOS DA LIBERDADE real! E estes não têm direito a usufruir da Democracia. Esta existe para gente de bem e não para proteger assassinos.


  Os freitas do amaral que achavam que as críticas a maomé são ofensas não passam de carolas compreensivos dos fascistas verdes. E os mários soares que propunham "conversações" com terroristas anti-semitas não são mais que imbecis intelectuais ou canalhas conceptuais sem retorno.

  
  É preciso afirmar alto e claro estes valores, que subjazem a conceitos legítimos, sem nos deixarmos intimidar.

  Dizia Goebbells, que foi quem no jornal das SS inspirou o acordo estabelecido entre Hitler e o Grande Mufti Aj Amin al-Hosseini, que para se vencer um adversário tem de se começar por paralisá-lo. Pois bem: não cedamos à paralisação de obsceno signo "politicamente correcto”, despudorado e autêntico aliado do totalitarismo islamita!


  Os assassinos e os fanáticos corânicos têm, natural e sensatamente, sem a má-consciência insinuada que é fruto da propaganda matraqueante dos usuários da “agit-prop” pró-jihadista, de ser controlados e infiltrados. É uma questão de defesa própria, legítima nesta guerra – finalmente percebida pelos hollandes abúlicos ou babujadores – que nos foi movida pelo fascismo verde. Na Síria e nos lugares que ocuparam cavilosamente alguém tem de bombardear os oleodutos e as bases barbaramente geridas pelos radicais, congelar-lhes as contas da venda do petróleo, dos impostos a que obrigam as populações sob ameaça de morte imediata, dos produtos dos raptos e vendas de escravos e impedi-los de comprarem armas no mercado negro. E responsabilizar os estados árabes que os ajudam e apoiam.


  Em Portugal, nunca facilitar que se sintam impunes e fora da lei, agredindo as mulheres, lavando o cérebro às crianças como se fossem um Estado dentro da Nação, fazendo exigências absurdas e abusivas e efectuando nas barbas dos nossos governantes, que isso permitem com a alegação cobarde e falaciosa de que do mal o menos, pois assim se mantêm calmos (ou seja, a velha táctica que Ignazio Silone denunciou, como falsa e absurda, de ”levarem socos para não apanharem pontapés”).


  E aos que propalam, sem rebuço, que o jihadismo é uma consequência de manejos de dirigentes ocidentais, responder sem temor, desassombradamente, que em 711 não havia nem iraques nem jogos de petróleos e no entanto fomos invadidos até aos Urais.


  E – razão principal e ponderosa - que nós não somos dirigentes ocidentais, que somos cidadãos vulgares, do quotidiano, que merecemos a paz democrática que levou tantos séculos a conquistar, sem estarmos debaixo da férula de padres ou de mulás ou de senhores da guerra criminosos.


  Foi, há cerca de duas semanas, emitida uma Declaração subscrita pelo pretenso califado, referindo que em breve começariam os ataques em França, Espanha e Portugal no sentido de estabelecer em dois anos o antigo Al-Andalus, região submetida pela voracidade dos conquistadores totalitários daquele tempo.


  Em França aí está a realidade insofismável que a cegueira e a incompetência de Hollande y sus muchachos não soube evitar em tempo útil (agora, casa roubada, trancas na porta).

  Temos o direito de exigir que os por vezes ingénuos ou desmazelados operadores de topo lusos não permitam aqui o mesmo cenário sangrento.

Histórias que o meu avô contava - 2



Um dia, o meu avô voltou para casa, a rir, com algo que se passara no café que costumava frequentar.

Morava ele numa aldeia nos arredores de Lisboa, hoje uma vila populosa, onde, na altura, começava a fixar-se muita gente vinda de vários pontos do país. A aldeia era propriedade de duas ou três famílias de agricultores que iam agora vendendo aos poucos os terrenos para a construção de habitações, de modo a poderem dar uma herança que se visse a cada um dos seus descendentes. Famílias que, embora com farroncas de riqueza, eram conhecidas nas povoações em redor sobretudo pela sua falta de imaginação e interesse por tudo o que não fosse as quezílias entre elas. Assim uma espécie de Aldeia da Roupa Branca, mas ainda mais tosca.

O pequeno café de onde regressava tinha sido o primeiro a abrir portas num ambiente exclusivo de tabernas. O proprietário era um homem vindo ali da zona de Viseu, aportado a Lisboa após ter cumprido o serviço militar obrigatório em Angola, fugido de um interior que não lhe daria grandes oportunidades. Um homem enorme, franco, directo, sem abébias para abusos nas conversas ou nos actos dos clientes. E que não costumava “mandar recados” – como acontecera naquela ocasião em que o meu avô voltou, a rir.

É que se juntara lá muita gente ao final da noite, no meio da qual havia bastantes nativos desdenhosos dos “pobretanas” que lhes haviam “invadido” a terra. O calor da discussão começara a subir, quando o arrefecimento se fez sentir de súbito, tonitruante, vindo de detrás do balcão:

– Estai maj é calados, que, xse não fôramos nój, bój ainda andábeis de carroxça!

E eu, que era puto, também me ri muito e, como queria “mostrar serviço”, disse:

– Oh avô, se fosse na Arábia ele teria dito “ainda andábeis de camelo”…

Oh prá nós, tão tontinhos



A generalidade do establishment político da "europa", incluindo a esquerdalha que agora se mostra alérgica ao euro mas sempre reclamou por mais euros, parece apostada em fazer toda a espécie de disparates para provocar o escaqueirar (já tarda) da "europa". Tanta palermice parece indicar que já todos perceberam que a única 'solução' para a coisa é estoirá-la mas, face à impossibilidade do assumir de responsabilidades próprias e continuar o namoro, precisam provocar um gigantesco sarilho para culpar um apropriado inimigo externo.

13 de novembro de 2015

António Costa, o PS, o PCP, o BE e a república democrática - 1




Dizem os compêndios que a democracia é o regime que respeita a vontade popular expressa pela maioria dos votos obtidos numa votação, no sentido da formação de uma Assembleia e de um governo com origem nesta.

Nada obsta, todavia, a acordos prévios ou posteriores a essa votação entre os que lograram o direito a representação nessa Assembleia, se nenhum deles conseguiu um número de votos que supere a soma de todos os outros.

Tendo sempre, porém, como horizonte a concretização da democracia, isto é, que o poder político e governativo seja representativo das perspectivas e vontades maioritárias dos votantes.

A maioria que expressa, de facto, as diferentes perspectivas e vontades populares na actual Assembleia da República é a que resulta da soma das votações na coligação PSD/CDS (perspectiva e vontade de centro-direita: 38%) e no PS (perspectiva e vontade de esquerda: 32%) – representa 70% dos cidadãos que votaram. A soma das que foram feitas na maioria das três tendências de esquerda (cerca de 50%) é, exactamente, apenas isso: uma “maioria de esquerda”. Representa uma ideologia ligeiramente dominante, não o consenso e a eventual harmonização de duas perspectivas e vontades distintas maioritárias.

Daí que a governação de tal “maioria de esquerda” não represente a democracia em acção nem caiba num regime democrático, uma vez que não reflecte as perspectivas e vontades populares, mas tão-somente a prepotência da perspectiva e da vontade de uma minoria sobre uma maioria. A isso se chama uma ditadura.

A formação legal dessa maioria reflecte, afinal, a má-fé de quem a constituiu e viabilizou. António Costa e os que o secundam no PS e nos restantes partidos são deficitários, enquanto cidadãos, no que respeita a honradez – ao menos a política. Não são gente a quem, os que desejem viver livremente, em democracia, se possa confiar o poder.

Nos negócios, não sei. Mas também é certo que não tenciono fazer nenhum com qualquer deles.

Vox populi



Ouvido, há pouco, no café:

"O Sporting, este ano, não ganha o campeonato. Mesmo que seja o primeiro, o Benfica junta-se ao Braga e ao Rio Ave, ficam com mais pontos e são os três campeões."

12 de novembro de 2015

"Sobre o general Alcazar, perdão, António Costa"...




«Escrevo-vos boquiaberta com a hipocrisia e a amoralidade que tenho visto no PS. A retórica daqueles lados está ao nível de realismo de conceitos como ‘professor Mário Nogueira’, ‘serenidade de Isabel Moreira’ ou ‘feminismo de Manuel Maria Carrilho’.

Vejamos. Temos António Costa, depois de perder eleições e não aceitar a vontade democraticamente expressa dos eleitores, a dizer, na primeira sessão da Assembleia da República, que a coligação tinha ‘mau perder’. O mesmo António Costa, durante o longo tempo de produção de um ‘acordo’ (e agora vou ingerir metade de um frasco de xarope para me eliminar a tosse quase fulminante) das esquerdas – o tal que é tão sólido que nem contempla votações favoráveis aos orçamentos apresentados pelo PS e menos ainda é acordo de coligação – afirmou que não ia deixar o país num pântano, tudo enquanto colocava diligentemente o país num pântano.

Carlos César, num clímax de alucinação, disse (juro!) que ‘o PS não procurou ser governo a qualquer custo’ – o mesmo PS que prometia chumbar o governo de dez dias gerado pelos resultados eleitorais, apresentando em troca um acordo resvés que promete nenhuma estabilidade ou durabilidade. António Costa, ontem no debate em que deitou abaixo o governo acabado de estrear, criticou crispado a falta de disposição de PSD e CDS para não viabilizarem a governação socialista-trotskista-estalinista, dizendo que os partidos da futura oposição estão ‘focados no revanchismo e animados pela obstrução’.

E a minha preferida. O reincidente António Costa, que mentiu às escâncaras ao país afirmando, após as audiências dos partidos com o Presidente, que tinha um acordo com PCP e BE para uma solução estável e duradoura de governo, quando não tinha nada (e agora tem só mais ou menos), proclamou ontem que ‘palavra dada tem de ser palavra honrada’. Preciosidades hipócritas destas não se inventam. Rejubilemos: somos a inveja de qualquer democracia musculada asiática.

(Ainda assim são mais divertidas do que as piadas intencionais que António Costa faz nos seus discursos. Ontem, por exemplo, fez uma bestialmente original. Deleitem-se: ‘Estavam tão ansiosos para me ouvir, agora ouçam-me’. Hein, não é digna dos Monty Python? Os socialistas riram imenso.)

Bom, mas foquemo-nos no que aí vem. E o que virá de António Costa? Ora: aquilo que se costuma esperar de líderes que têm problemas de legitimidade. Já que os ideólogos da suposta união das esquerdas usam a ficção da série Borgen para legitimar o futuro governo (sem atentarem ao fim da coligação periclitante de Birgitte na segunda temporada e a sua escolha de respeitar a vontade eleitoral na terceira temporada, que até os argumentistas são mais sensatos que as esquerdas portuguesas) deixem-me usar ficção ainda melhor (aviso já que num grande exagero ilustrativo).

Escolho o livro Tintin e os Pícaros. Lá, Tintin planeia e implementa um golpe de estado que leva o General Alcazar a presidente. A condição que coloca a Alcazar é de, quando no governo, não fuzilar os anteriores governantes nem os seus apoiantes, o que gera discussões acesas com o truculento aspirante. Depois do golpe, o próprio General Tapioca, o presidente deposto, protesta por não ser fuzilado, sente-se desonrado e termina partilhando um desabafo com Alcazar contra os idealistas como Tintin.

Nas democracias não se fuzilam os opositores, nem aqueles que podem com maior justiça e legitimidade reclamar o poder. António Costa não irá organizar uma secção secreta de black opsdedicada a assassínios políticos. Mas vai ter – já está a ter – todos os tiques daqueles que tomaram o poder de maneira esquiva em vez de o receberem dos eleitores. Em qualquer ocasião pequena terá de fazer demonstrações mesquinhas de autoridade – como na escolha do presidente da Assembleia da República ou mesmo neste golpe palaciano que orquestrou. Tem de se resguardar (no limiar da cobardia política) de possíveis golpes – como fez não interpelando Passos Coelho no debate desta semana e não respondendo a perguntas dos deputados. Pelo que, em vez de termos um governo tomando decisões num período crítico, teremos governo que mais que tudo tem de continuamente calar os duvidosos da sua legitimidade e, só a seguir, nos intervalos, governar.

Mas o mais grave não é isto. Nem sequer que PCP e BE estejam a determinar e tutelar as políticas do governo PS. É que deixámos de viver em democracia. Depois de ontem, o PS pode governar sempre que ganhar eleições mesmo com maioria relativa. Mas, depois de ontem, o PSD só pode governar se, juntamente com o CDS, alcançar uma maioria absoluta. A direita tem agora uma sobretaxa eleitoral que precisa de pagar para poder governar. Copiando Orwell, ‘todos os partidos são iguais mas uns são mais iguais que outros’.

Se Cavaco Silva sancionar isto, aquilo que não se cuidou de impossibilitar depois do 25 de Abril (governos de direita) porque a malta revolucionária achava que o povo iria votar sempre à esquerda, será impossibilitado de facto a partir de agora. E isto só é democracia no país do General Alcazar. Eu até aposto que se Hergé tivesse desenhado um Alcazar em jovem, este também teria recusado aceitar a derrota na associação de estudantes, só sendo convencido pela presença policial.»

11 de novembro de 2015

"Uma mentira muitas vezes repetida não passa a ser verdade"




«Há, na política, mistérios insondáveis. No arranque do debate do Programa de Governo confrontamo-nos com mais um desses mistérios: porque é que o PS escolheu para abrir a ronda de perguntas ao primeiro-ministro Pedro Nuno Santos?

Imagino que muitos leitores nem saibam muito bem quem é Pedro Nuno Santos, uma vez que os partidos estão cheios de antigos presidentes das jotas (como ele) e que há imensos presidentes de distritais (ele preside à de Aveiro). Mas eu posso esclarecer: Pedro Nuno Santos é aquele senhor alto, de barbas, que apareceu ao lado de António Costa quando ele começou a sua “ronda” de negociações. Depois foi ele que ficou encarregue da coordenação política das conversas com os partidos da esquerda. Por fim, é também vice-presidente da bancada socialista. Um político em ascensão, não se duvide.

Só que Pedro Nuno Santos não é só isto. É também o mesmo deputado socialista que, em Dezembro de 2011, teve uma tirada que ficou para história da forma irresponsável como o PS já nessa altura fazia oposição. Vale a pena recordá-la: “Estou a marimbar-me para o banco alemão que emprestou dinheiro a Portugal nas condições em que emprestou. Estou a marimbar-me que nos chamem irresponsáveis. Temos uma bomba atómica que podemos usar na cara dos alemães e dos franceses. Essa bomba atómica é simplesmente não pagamos. Ou os senhores se põem finos ou não pagamos. E se não pagarmos e se lhes dissermos, as pernas dos banqueiros alemães até tremem”. Assim, tal e qual. Porventura pensando que não havia microfones por perto (falava num jantar de Natal em Castelo de Paiva).

Pedro Nuno Santos, com esta e outras tomadas de posição, sempre fez parte daquela parte da bancada socialista que muitas vezes mostrava estar mais perto do Bloco de Esquerda do que do seu próprio partido – fez mesmo um dos co-autores, com Francisco Louçã, de um “Programa de reestruturação da dívida”. Assim esteve até que chegou António Costa e ganhou mais visibilidade na formulação das políticas do PS. E até que o mesmo António Costa lhe deu todo o protagonismo que tem vindo a assumir neste pós-eleições. O resultado ficou ontem à vista numa das mais desastradas intervenções parlamentares de que tenho memória em debates desta natureza.

Mas a falta de tino de Pedro Nuno Santos não valeria uma nota de rodapé não se desse o caso de ele ser um dos que insiste em grosseiras distorções da realidade para tentar demonstrar o indemonstrável. No fundo o que ele fez ontem (e depois fizeram também deputados das bancadas do PCP e do Bloco, para além do sempre inefável João Galamba, para quem os décibeis que atira à cara – e aos ouvidos – dos adversários parecem ser permanente fonte de inebriamento) não foi mais do que fizera há uns dias numa entrevista ao Público. Por comodidade, e por não ter ainda a transcrição da sua intervenção parlamentar, vou partir desse texto.

Numa altura em que o país assiste, entre o incrédulo e o estupefacto à deriva do PS, em fuga para terrenos que nunca foram os dele, o grupo dirigente que promoveu Pedro Nuno Santos procura explicar essa viragem com uma viragem simétrica da coligação, e do PSD em particular. Eis o seu argumento: “afastamento do PSD do centro facilitou” acordo à esquerda. Esse alegada viragem à direita é depois, na sua opinião, ilustrada por um conjunto de ignóbeis malfeitorias contra o Estado Social. Só que há, em todo o seu discurso, um problema: tudo o que diz não é verdade. Nem sequer é uma deficiente interpretação da realidade: é pura e simplesmente falso.

Como repetiu esses argumentos no Parlamento, não posso deixar de os desmontar, ponto por ponto. Não porque uma mentira muitas vezes repetida se torne numa verdade, mas porque em política o que parece, é. E não quero que, pelo silêncio, possa parecer que tem razão.

Vamos então ao que disse ao Público para demonstrar que “o PSD abandonou o centro político ao abandonar o consenso nacional na preservação e defesa do Estado Social”. Usou sobretudo dois argumentos:

  • 1. “Nos últimos quatro anos empurrou-se para fora do SNS centenas de milhar de portugueses com o aumento das taxas moderadoras.”
É falso, rotundamente falso. Primeiro, porque o número de portugueses isentos do pagamento de taxas moderadoras aumentou nos últimos quatro anos: neste momento as estatísticas oficiais indicam que há mais de seis milhões de utentes isentos de pagamento de taxas moderadoras por razões de insuficiência económica, a que se acrescentarão ainda quase 900 mil doentes crónicos com idêntica dispensa. Mesmo assim, será que os quatro milhões de utentes que sobram, os portugueses com menos dificuldades económicas, abandonaram em massa o SNS por causa das taxas moderadoras? Fui de novo à procura de uma resposta e não foi difícil de encontrá-la, pois vem na “Avaliação do impacto de políticas de saúde”, um trabalho realizado por uma equipa dirigida por Pedro Pita Barros, um académico reputado e independente e publicado no passado mês de Setembro. Aí se diz, taxativamente, que apenas uma minoria da população afirmou ter sentido dificuldades no acesso a cuidados de saúde, mas sobretudo por causa do preço dos medicamentos que, mesmo tendo baixado muito (essa descida ninguém discute), ainda pesam nos orçamentos de algumas famílias. Dentro dessa minoria, as taxas moderadoras não evitaram, “de forma generalizada, a utilização dos serviços de saúde”. Mais adiante escreve-se mesmo que “no campo do acesso a cuidados de saúde, as barreiras de acesso ao SNS, avaliadas pela utilização e necessidade de utilização da população, não são significativas para a generalidade da população e, ao contrário do que frequentemente se assume com base em situações episódicas, não aumentaram durante o período de crise económica.” Isto são factos baseados em estudos – o discurso de Pedro Nuno Santos são apenas impressões baseadas no preconceito.

  • 2. “O Governo PSD-CDS, ao abrigo da liberdade de escolha, permite que se façam contratos de associação com escolas privadas onde nas proximidades existem escolas públicas mesmo a funcionar abaixo da sua capacidade.”
É caso para dizer que é preciso ter lata. Primeiro, porque boa parte dos contratos de associação mais discutíveis foram decididos por governos socialistas. Depois, porque nos últimos quatro anos do Governo de Sócrates se gastaram 900 milhões de euros com esses contratos, e nestes quatro anos esse gasto caiu para 600 milhões – e repare-se que é um “gasto” que representa uma poupança, pois o que o Estado paga por aluno nos contratos de associação é menos do que gasta por aluno na rede estatal. Por fim, bastaria consultar de novo os dados oficiais e publicados para verificar que, se alguma coisa aconteceu durante a última legislatura, foi a diminuição do número de escolas com contratos de associação: eram 105 em 2009/2010, foram 84 em 2013/2014. Ou seja, um quinto das escolas perdeu esse estatuto. É caso para dizer: neoliberal era José Sócrates.

Estes são apenas dois exemplos do tipo de mistificação que se tem feito em torno de uma alegada “destruição do Estado Social”. Até porque os números, como o algodão, não enganam: o peso da despesa pública social no PIB situou-se em 2014 nos mesmos 25,2% que tinha em 2010, estando bem acima da média da OCDE. 


Gráfico preparado por Jorge Costa

A única coisa que aconteceu é que se conteve o rápido crescimento das despesas nas áreas sociais, um crescimento que ameaçava de falência todo o sistema. De resto não se tenham grandes ilusões: devido às dinâmicas demográficas, Portugal tenderá a gastar cada vez mais dinheiro com os sistemas de segurança social e de saúde (aqui também por efeito da evolução tecnológica). Se não se fizer nada, deixando o sistema evoluir por si, ele ganhará vida própria e tornar-se-á ainda mais incomportável do que já é hoje.

Neste quadro o normal, para mais num dirigente de um partido de esquerda que está sempre a falar dos mais pobres, seria que este defendesse a necessidade de dar realmente atenção aos que menos têm. E se preocupasse a sério com a sustentabilidade dos sistemas de protecção social. Mas não. A visão de Pedro Nuno Santos na mesma entrevista ao Público não deixa até de ser muito peculiar: “É a classe média que precisa, antes de mais, de um Estado Social forte, público e universal, tendencialmente gratuito. E é essa classe média que, com a degradação dos serviços públicos, mais sofreu nos últimos quatro anos. E é para a classe média que o PS fala, quando fala da defesa do Estado Social.” Venha a mim, que a vida dos pobrezinhos, como toda a gente sabe, é um mistério…

É caso para dizer: que confusão que deve ir naquela cabeça! E é caso para ficarmos ainda mais espantados quando sabemos que foi este o dirigente que António Costa escolheu para abrir o debate com o primeiro-ministro (que, na resposta, literalmente o atropelou, o que face ao nível de desligamento da realidade nem era difícil), em vez de o fazer ele próprio, como líder do PS e como sucedeu nas outras bancadas.

Mas não nos enganemos: se o discurso deste dirigente do PS é particularmente desequilibrado, ele reflecte, no essencial, o pensamento e a estratégia de António Costa. O que se pretende é criar a ilusão de que não foi o PS que se moveu para a esquerda, abandonando o centro e a sua tradição reformista, deitando fora pelo caminho a parte mais inovadora do seu programa eleitoral para conseguir o apoio condicionadíssimo das outras esquerdas, mas que foi antes o anterior executivo que tinha um “radicalismo ideológico neoliberal” que tornou impossível qualquer diálogo. Infelizmente esta retórica – em que o próprio Francisco Assis alinhou – levou o PS a sentir-se e a pensar como uma espécie de Syriza mais bem comportado, abrindo caminho à ala mais radical de que Pedro Nuno Santos é apenas um dos rostos mais visíveis.

Como já escrevi e rescrevi, um dos maiores pecados do anterior governo foi ser menos reformista do que o necessário e menos liberal do que o exigido num mundo competitivo como o nosso – em algumas frentes, há socialistas europeus com políticas mais liberais do que, na prática, as aplicadas por Passos Coelho (veja-se, por exemplo, o que Renzi está a fazer com as leis do trabalho em Itália). Se alguma coisa distingue Portugal é vivermos num ambiente cultural arcaico, iliberal tanto à esquerda como em boa parte da direita, um mal antigo que explica muito do nosso atraso político e económico.

Pouco antes das eleições, num almoço que tive com os correspondentes da imprensa estrangeira em Lisboa, perguntaram-se se o programa de Centeno não poderia ser o programa de que a esquerda socialista e social-democrata europeia anda à procura há mais de uma década. Disse que achava pouco provável, mas estava longe de saber que era apenas uma cortina de fumo. Na verdade, como disse Álvaro Beleza, também ele dirigente socialista, numa entrevista este fim-de-semana, o que se passa é que “esta direcção do PS é uma deriva esquerdista”. Pois é. E vamos todos pagar muito caro por isso, se é que já não estamos a pagar.

PS. Já depois de esta crónica estar escrita, foi conhecido o teor da moção de rejeição do Programa do Governo apresentada pelo PS. A sua linguagem não podia ser mais radical, reduzindo a acção do anterior governo a uma deriva “para implementar uma agenda radical e experimentalista, que foi muito além do que o programa previa, não por necessidade, mas por uma consciente e deliberada opção ideológica”. Mais: para o PS isso aconteceu não em nome da “sustentabilidade das contas públicas, mas sim a alteração da relação de forças”. Se não soubéssemos que foi o PS que negociou o memorando da troika, que tinha metas para o défice que foram sendo suavizadas ao longo do seu período de vigência (ou seja, ficou-se aquém da troika neste como em muitos outros pontos), até poderíamos acreditar nesta história da carochinha. Mas isso é impossível: não só se trata de uma tentativa grotesca de reescrever a história, como mostra até que ponto o actual PS passou a utilizar a mesma linguagem radical da extrema-esquerda.»

8 de novembro de 2015

Da poesia fala o poeta - 3


Maria Estela Guedes (foto de Eduardo Guimarães)

    Membro da Associação Portuguesa de Escritores, da secção portuguesa da Associação Internacional de Críticos Literários, do Centro Interdisciplinar da Universidade de Lisboa e do Instituto São Tomás de Aquino. Directora do TriploV.
     Alguns livros publicados: Herberto Helder, Poeta Obscuro; Eco/Pedras Rolantes; Crime no Museu de Philosophia Natural; Mário de Sá-Carneiro; A_maar_gato; Ofício das Trevas; À la Carbonara; Tríptico a solo; A Poesia na óptica da Óptica; Chão de Papel.
     Espectáculos levados à cena: O Lagarto de Âmbar (Fundação Calouste Gulbenkian, 1987); A Boba (Teatro Experimental de Cascais, 2008).

Do poeta diz o poema:

SEGUNDO DIA – O MITO DA MATÉRIA

Nunca se satisfaz, a Matéria.
Nada a contenta, a tudo põe defeito.
Viciada na economia, contém-se,
escolhe,
entre dois instrumentos,
o que lhe dá mais gozo - a miséria.
Há um encanto irresistível
na casita arruinada na floresta,
desde que a chaminé deite fumo
porque o maior conforto humano
aninha-se à lareira do estômago.
Por isso a Matéria ama o fumo que se ergue
da casita isolada
no meio da floresta
porque anuncia pote ao lume
e a quentura do forno.
A Matéria ama a pobreza,
poupa água, ar, terra, fogo,
apaga a luz,
na escuridão da casita
perdida na floresta,
bate com a cabeça nas paredes
por poupar até às fezes.
Árdua, difícil, desespera os humanos, a Matéria.
Vive entre a boca e o terço
e entre o terço e as pernas,
e entre as pernas e as portas.
Escancaradas, para arejar a casa, nas manhãs geladas,
em que os campos
são de vidro e a água cristaliza
por força da temperatura inferior a
zero graus centígrados de lágrimas.
A Matéria derrete de gozo
como barra de chocolate na língua
com o sofrimento.
Sentiu o martírio, foi flagelada, habituou-se a isso
como outros à droga ficam vinculados.
Ela é a grande onda maternal,
o tsunami do auto-sacrifício
na ara de deus nenhum
que o oceano consegue dividir
de lado a lado
e o mito erguer na pira do valor máximo - Zero.
Como os animais que os filhos escorraçam
em chegando à idade de caçar
para que se afastem do seu território
e busquem o próprio
ela é implacável, a Matéria.
Encosta o filho à parede,
cresce para ele fingindo encolher-se
e destrói,
destrói tudo o que ama
com as palavras.

                                      in “Diário de Lilith”


Nota – Refira-se, com apreço, que o seu “Chão de Papel” é um dos mais belos e comoventes  livros – na sua escrita despojada e todavia sensível – dados a lume nos últimos vinte anos em Portugal.

7 de novembro de 2015

"Acabou a austeridade. Reformados vão ter aumento de 1,8 euros"



O título deste texto de José Manuel Fernandes, no Observador, já diz quase tudo. Mas leiam o resto.

«É oficial: a austeridade vai acabar. Basta acabar com esta “perda de tempo” e António Costa sentar-se na cadeira de primeiro-ministro e a amiga Catarina dar-lhe o seu voto (os do PCP serão sempre mais difíceis). Os detalhes já começaram a encher os espaços informativos.

A fuga de informação foi feita para um jornal de economia, oNegócios, e estou certo que milhões de portugueses respiraram de alívio. As pensões mais baixas – as que nunca tinham tido cortes, sendo que as mais baixas até tinham vindo a ser actualizadas – vão ser aumentadas. Todos os que recebem menos de 628 euros de pensão (e são imensos) vão ser aumentados 0,3%. Uma festa: serão, na melhor das hipóteses, mais 1,8 euros por mês.

Daria para rir se não fosse trágico. Mas é sobretudo revelador: agora que teve de ver até onde chegava o dinheiro, a “maioria de esquerda” concluiu que, afinal, ele não chega a quase nada. Mas a austeridade acabou. “Virou-se a página”, como repete, qual um disco rachado, o putativo primeiro-ministro quando lhe põem um microfone à frente.

Dirão: mas esse é apenas um dos pontos do acordo. Também há o alívio da TSU para os salários mais baixos e a subida do salário mínimo. Deixemos de lado o salário mínimo, pois é tema ainda em aberto e que, se assumir a dimensão anunciada, pode ter consequências graves no nível de desemprego e naquilo que ganham os trabalhadores com salários mais próximos desse mínimo (Mário Centeno até já estudou o assunto, mas não se sabe se está esquecido ou distraído), e falemos só da TSU. Aí teremos, em 2016, uma descida que representará, para um trabalhador que ganhe 600 euros, mais 7,8 euros por mês, o que equivale a 26 cêntimos por dia.

Parece que é com isto que os ideólogos do “acordo” pretendem estimular o consumo interno. Vai ser um fartar vilanagem, está-se mesmo a ver. Dará para uma bica dia sim, dia não, e assim se retomará o “crescimento”. É tão ridículo que só tomando-nos a todos por tolos se pode imaginar que esta medida possa ter outro efeito que não o efeito colateral de abrir um rombo na segurança social. É que no bolso dos trabalhadores quase nem se dará por ela.

Mas esperem lá, alertar-nos-ão: também haverá a descida do IVA da restauração. Uma bica que custe hoje 60 cêntimos vai poder passar a custar 55 cêntimos. E aqui já ganhamos todos. Uma refeição baratinha, daquelas de 5,5 euros, por exemplo, poderá descer para 5 euros. Vai dar para pedir mais uma sobremesa aí de três em três dias. O consumo interno vai bater palmas. E o PIB disparar.

O problema é que nem a bica nem a refeiçãozita vão descer. Não desceram quando o governo de Guterres também cortou o IVA da restauração em 1996 (lembram-se? eu lembro-me), acham que é agora que isso ia acontecer? Desenganem-se. E desenganem-se até porque a associação do sector já veio dizer, agora ao Expresso Diário, que era melhor não ter ilusões. Então, não descendo o preço da bica, vai haver é muito mais empregos. Dizem isto sem se rir e eu já estou a ver empregos aos montes: basta pensar como servir mais uma sobremesa de três em três dias a cada cliente vai justificar contratar mais um funcionário, ou mesmo dois.

Tenham pudor e não brinquem connosco: o fim do IVA na restauração será uma transferência quase directa de 300 milhões de euros de receitas do Estado para os bolsos dos empresários do sector. Pouco mais sucederá, porque o que tinha de suceder já sucedeu: basta andar pelo país (e não apenas por Lisboa ou pelo Porto) para ver como este sector até se modernizou com a crise e com o IVA a 23%. Se alguém precisa de ajuda em Portugal não são os donos dos cafés e restaurantes – pelo menos nunca virão em primeiro lugar.

Mas a cereja em cima do bolo do fim da austeridade é a reposição, já em 2016 mesmo que faseada, dos cortes nos salários da administração pública. De toda ela? Não: só da que ganha mais de 1500 euros. E esses cortes só são a sério nos que ganham mais de 3165 euros mensais, que esses sim vão recuperar mais depressa qualquer coisa que se veja: os 10% que lhes tinham cortado. O facto de praticamente todos os que andam nestas negociações caírem nesta categoria de portugueses não passa, está bem de ver, de uma mera coincidência. Mas se alguém vai realmente ficar a ganhar, são a dezena de milhar de portugueses, funcionários do Estados, muitos deles com acesso fácil as televisões, que ainda estão abrangidos por um corte de 10% nos seus salários. Não se admirem quando os virem na primeira linha dos que se juntaram ao coro da propaganda sobre o “fim da austeridade”.

Entretanto isso vai custar 430 milhões ao Estado. É muito, mas paciência: o que importa é ter esta parte das nossas queridas (e egoístas) elites satisfeitas.

Olhando para todas estas medidas só é possível tirar duas conclusões. A primeira, é que a conversa do “fim da austeridade” é para parolo ver e alto funcionário da administração pública beneficiar. A segunda, é que se estes é que são os amigos dos pobres (é assim que a esquerda se auto-define), então coitados dos pobres. Porque, como é óbvio, mesmo sendo muito pouca coisa para os que são mesmo mais necessitados, tudo isto também trará consigo uma factura.

E quem paga essa factura? Os ricos, responder-nos-ão, apontando para a empenhada e minuciosa desmontagem da reforma do IRC que até tinha sido negociada com o PS, que nessa altura a aprovava.

Pobres tontos: uma parte do que vão fazer com o IRC levará muitas empresas portuguesas, as que pagam impostos a sério, a regressarem aos esquemas que lhes permitiam evitar a dupla tributação dos seus lucros. E pobres de nós: uma das poucas reformas que podia tornar Portugal mais atractivo para o investimento estrangeiro esfuma-se no ar (já se está a esfumar no ar, como comprovarão se falarem com quem sabe e já nos diz que há investidores a desistir de Portugal).

Mas não faz mal: como diz o PCP, tudo o que seja esmifrar o “grande capital” servirá para reforçar o peso “a produção nacional”, mesmo que os produtores nacionais não tenham um tostão para investir e ainda menos para contratar mais trabalhadores, fazendo diminuir o desemprego.

É assim que, conforme vamos sabendo detalhes do acordo, vemos como tudo ou é um logro, ou um erro, ou então é as duas coisas ao mesmo tempo.

Logro, porque a austeridade não desaparece, toma sim outras formas e apenas se detetam mudanças de ritmo (face ao cenário da coligação) que só trazem riscos por troca com quase nenhumas vantagens.

Erro, porque toda a aposta é no consumo e, em nome disso, prejudica-se o investimento, em especial o investimento que pode inovar e trazer recursos para Portugal. Recursos e empregos.

Por fim, percebe-se de cada vez que se ouve falar alguém do Bloco ou sobretudo do PCP, está tudo montado em cima de uma teia frágil e artificial. Na guerra particular da esquerda, que não acabou, o que vai contar a partir do dia do “acordo” é saber quem vai depois conseguir atribuir o ónus a quem na altura em que a ruptura acontecer.

Não deixa de ser uma rica perspectiva para um país que, com prudência mas segurança, já dava sinais de ter dobrado o Cabo das Tormentas. E também não deixa de ser irónico – e ao mesmo tempo profundamente injusto por tudo o que na altura foi dito – esta brincadeira só ser possível por Maria Luís ter deixado os “cofres cheios”.

Estivessem eles vazios e os 19 mil milhões de empréstimos a refinanciar já em 2016 bem poderiam colocar a próxima maioria muito rapidamente na mesma aflição em que se viu o Syriza. Então é que eu gostava de ver a solidariedade que Jerónimo e Catarina para com António Costa…»