8 de novembro de 2015

Da poesia fala o poeta - 3


Maria Estela Guedes (foto de Eduardo Guimarães)

    Membro da Associação Portuguesa de Escritores, da secção portuguesa da Associação Internacional de Críticos Literários, do Centro Interdisciplinar da Universidade de Lisboa e do Instituto São Tomás de Aquino. Directora do TriploV.
     Alguns livros publicados: Herberto Helder, Poeta Obscuro; Eco/Pedras Rolantes; Crime no Museu de Philosophia Natural; Mário de Sá-Carneiro; A_maar_gato; Ofício das Trevas; À la Carbonara; Tríptico a solo; A Poesia na óptica da Óptica; Chão de Papel.
     Espectáculos levados à cena: O Lagarto de Âmbar (Fundação Calouste Gulbenkian, 1987); A Boba (Teatro Experimental de Cascais, 2008).

Do poeta diz o poema:

SEGUNDO DIA – O MITO DA MATÉRIA

Nunca se satisfaz, a Matéria.
Nada a contenta, a tudo põe defeito.
Viciada na economia, contém-se,
escolhe,
entre dois instrumentos,
o que lhe dá mais gozo - a miséria.
Há um encanto irresistível
na casita arruinada na floresta,
desde que a chaminé deite fumo
porque o maior conforto humano
aninha-se à lareira do estômago.
Por isso a Matéria ama o fumo que se ergue
da casita isolada
no meio da floresta
porque anuncia pote ao lume
e a quentura do forno.
A Matéria ama a pobreza,
poupa água, ar, terra, fogo,
apaga a luz,
na escuridão da casita
perdida na floresta,
bate com a cabeça nas paredes
por poupar até às fezes.
Árdua, difícil, desespera os humanos, a Matéria.
Vive entre a boca e o terço
e entre o terço e as pernas,
e entre as pernas e as portas.
Escancaradas, para arejar a casa, nas manhãs geladas,
em que os campos
são de vidro e a água cristaliza
por força da temperatura inferior a
zero graus centígrados de lágrimas.
A Matéria derrete de gozo
como barra de chocolate na língua
com o sofrimento.
Sentiu o martírio, foi flagelada, habituou-se a isso
como outros à droga ficam vinculados.
Ela é a grande onda maternal,
o tsunami do auto-sacrifício
na ara de deus nenhum
que o oceano consegue dividir
de lado a lado
e o mito erguer na pira do valor máximo - Zero.
Como os animais que os filhos escorraçam
em chegando à idade de caçar
para que se afastem do seu território
e busquem o próprio
ela é implacável, a Matéria.
Encosta o filho à parede,
cresce para ele fingindo encolher-se
e destrói,
destrói tudo o que ama
com as palavras.

                                      in “Diário de Lilith”


Nota – Refira-se, com apreço, que o seu “Chão de Papel” é um dos mais belos e comoventes  livros – na sua escrita despojada e todavia sensível – dados a lume nos últimos vinte anos em Portugal.

7 de novembro de 2015

"Acabou a austeridade. Reformados vão ter aumento de 1,8 euros"



O título deste texto de José Manuel Fernandes, no Observador, já diz quase tudo. Mas leiam o resto.

«É oficial: a austeridade vai acabar. Basta acabar com esta “perda de tempo” e António Costa sentar-se na cadeira de primeiro-ministro e a amiga Catarina dar-lhe o seu voto (os do PCP serão sempre mais difíceis). Os detalhes já começaram a encher os espaços informativos.

A fuga de informação foi feita para um jornal de economia, oNegócios, e estou certo que milhões de portugueses respiraram de alívio. As pensões mais baixas – as que nunca tinham tido cortes, sendo que as mais baixas até tinham vindo a ser actualizadas – vão ser aumentadas. Todos os que recebem menos de 628 euros de pensão (e são imensos) vão ser aumentados 0,3%. Uma festa: serão, na melhor das hipóteses, mais 1,8 euros por mês.

Daria para rir se não fosse trágico. Mas é sobretudo revelador: agora que teve de ver até onde chegava o dinheiro, a “maioria de esquerda” concluiu que, afinal, ele não chega a quase nada. Mas a austeridade acabou. “Virou-se a página”, como repete, qual um disco rachado, o putativo primeiro-ministro quando lhe põem um microfone à frente.

Dirão: mas esse é apenas um dos pontos do acordo. Também há o alívio da TSU para os salários mais baixos e a subida do salário mínimo. Deixemos de lado o salário mínimo, pois é tema ainda em aberto e que, se assumir a dimensão anunciada, pode ter consequências graves no nível de desemprego e naquilo que ganham os trabalhadores com salários mais próximos desse mínimo (Mário Centeno até já estudou o assunto, mas não se sabe se está esquecido ou distraído), e falemos só da TSU. Aí teremos, em 2016, uma descida que representará, para um trabalhador que ganhe 600 euros, mais 7,8 euros por mês, o que equivale a 26 cêntimos por dia.

Parece que é com isto que os ideólogos do “acordo” pretendem estimular o consumo interno. Vai ser um fartar vilanagem, está-se mesmo a ver. Dará para uma bica dia sim, dia não, e assim se retomará o “crescimento”. É tão ridículo que só tomando-nos a todos por tolos se pode imaginar que esta medida possa ter outro efeito que não o efeito colateral de abrir um rombo na segurança social. É que no bolso dos trabalhadores quase nem se dará por ela.

Mas esperem lá, alertar-nos-ão: também haverá a descida do IVA da restauração. Uma bica que custe hoje 60 cêntimos vai poder passar a custar 55 cêntimos. E aqui já ganhamos todos. Uma refeição baratinha, daquelas de 5,5 euros, por exemplo, poderá descer para 5 euros. Vai dar para pedir mais uma sobremesa aí de três em três dias. O consumo interno vai bater palmas. E o PIB disparar.

O problema é que nem a bica nem a refeiçãozita vão descer. Não desceram quando o governo de Guterres também cortou o IVA da restauração em 1996 (lembram-se? eu lembro-me), acham que é agora que isso ia acontecer? Desenganem-se. E desenganem-se até porque a associação do sector já veio dizer, agora ao Expresso Diário, que era melhor não ter ilusões. Então, não descendo o preço da bica, vai haver é muito mais empregos. Dizem isto sem se rir e eu já estou a ver empregos aos montes: basta pensar como servir mais uma sobremesa de três em três dias a cada cliente vai justificar contratar mais um funcionário, ou mesmo dois.

Tenham pudor e não brinquem connosco: o fim do IVA na restauração será uma transferência quase directa de 300 milhões de euros de receitas do Estado para os bolsos dos empresários do sector. Pouco mais sucederá, porque o que tinha de suceder já sucedeu: basta andar pelo país (e não apenas por Lisboa ou pelo Porto) para ver como este sector até se modernizou com a crise e com o IVA a 23%. Se alguém precisa de ajuda em Portugal não são os donos dos cafés e restaurantes – pelo menos nunca virão em primeiro lugar.

Mas a cereja em cima do bolo do fim da austeridade é a reposição, já em 2016 mesmo que faseada, dos cortes nos salários da administração pública. De toda ela? Não: só da que ganha mais de 1500 euros. E esses cortes só são a sério nos que ganham mais de 3165 euros mensais, que esses sim vão recuperar mais depressa qualquer coisa que se veja: os 10% que lhes tinham cortado. O facto de praticamente todos os que andam nestas negociações caírem nesta categoria de portugueses não passa, está bem de ver, de uma mera coincidência. Mas se alguém vai realmente ficar a ganhar, são a dezena de milhar de portugueses, funcionários do Estados, muitos deles com acesso fácil as televisões, que ainda estão abrangidos por um corte de 10% nos seus salários. Não se admirem quando os virem na primeira linha dos que se juntaram ao coro da propaganda sobre o “fim da austeridade”.

Entretanto isso vai custar 430 milhões ao Estado. É muito, mas paciência: o que importa é ter esta parte das nossas queridas (e egoístas) elites satisfeitas.

Olhando para todas estas medidas só é possível tirar duas conclusões. A primeira, é que a conversa do “fim da austeridade” é para parolo ver e alto funcionário da administração pública beneficiar. A segunda, é que se estes é que são os amigos dos pobres (é assim que a esquerda se auto-define), então coitados dos pobres. Porque, como é óbvio, mesmo sendo muito pouca coisa para os que são mesmo mais necessitados, tudo isto também trará consigo uma factura.

E quem paga essa factura? Os ricos, responder-nos-ão, apontando para a empenhada e minuciosa desmontagem da reforma do IRC que até tinha sido negociada com o PS, que nessa altura a aprovava.

Pobres tontos: uma parte do que vão fazer com o IRC levará muitas empresas portuguesas, as que pagam impostos a sério, a regressarem aos esquemas que lhes permitiam evitar a dupla tributação dos seus lucros. E pobres de nós: uma das poucas reformas que podia tornar Portugal mais atractivo para o investimento estrangeiro esfuma-se no ar (já se está a esfumar no ar, como comprovarão se falarem com quem sabe e já nos diz que há investidores a desistir de Portugal).

Mas não faz mal: como diz o PCP, tudo o que seja esmifrar o “grande capital” servirá para reforçar o peso “a produção nacional”, mesmo que os produtores nacionais não tenham um tostão para investir e ainda menos para contratar mais trabalhadores, fazendo diminuir o desemprego.

É assim que, conforme vamos sabendo detalhes do acordo, vemos como tudo ou é um logro, ou um erro, ou então é as duas coisas ao mesmo tempo.

Logro, porque a austeridade não desaparece, toma sim outras formas e apenas se detetam mudanças de ritmo (face ao cenário da coligação) que só trazem riscos por troca com quase nenhumas vantagens.

Erro, porque toda a aposta é no consumo e, em nome disso, prejudica-se o investimento, em especial o investimento que pode inovar e trazer recursos para Portugal. Recursos e empregos.

Por fim, percebe-se de cada vez que se ouve falar alguém do Bloco ou sobretudo do PCP, está tudo montado em cima de uma teia frágil e artificial. Na guerra particular da esquerda, que não acabou, o que vai contar a partir do dia do “acordo” é saber quem vai depois conseguir atribuir o ónus a quem na altura em que a ruptura acontecer.

Não deixa de ser uma rica perspectiva para um país que, com prudência mas segurança, já dava sinais de ter dobrado o Cabo das Tormentas. E também não deixa de ser irónico – e ao mesmo tempo profundamente injusto por tudo o que na altura foi dito – esta brincadeira só ser possível por Maria Luís ter deixado os “cofres cheios”.

Estivessem eles vazios e os 19 mil milhões de empréstimos a refinanciar já em 2016 bem poderiam colocar a próxima maioria muito rapidamente na mesma aflição em que se viu o Syriza. Então é que eu gostava de ver a solidariedade que Jerónimo e Catarina para com António Costa…»

6 de novembro de 2015

Dúvidas...?


(recolhido aqui)

A INFÂNCIA DE UM CHEFE...


Nicolau Saião, O grande mistério

    João Oliveira, um dos jovens turcos do partidão que foi de Cunhal e agora é de Jerónimo, ambos por obra e graça do Todo Poderoso comité central, disse num dos órgãos de comunicação em que se expande que “ A palavra de um comunista vale mais que um papel escrito”, cito de memória, querendo com isto dizer que nem é preciso assinar-se um qualquer papelucho com o projectado Acordo.

  Num blog de referência, um dos postadores pergunta-se como é que um sujeito maior e vacinado, ainda que novito, (como usa dizer-se um homem de barbas na cara) e que até “parece bom tipo”, pode ser um comunista ferrenho após conhecer-se, como hoje se conhece, a parafernália de crimes, opressões e misérias levados a cabo por essa ideologia em todos os lugares por onde passou.

  É fácil de descriptar: como todos os membros de formações totalitárias, o indivíduo em causa é um fraco (basta ouvi-lo falar na TV: atabalhoadamente, com um ar simultaneamente impositivo e primarizado), imbuído de conceitos “generosos” a que uma instrução curricular decerto confusa conferiu uma sedimentação “ingénua” mas autoritária.

   Oliveira terá sido um adolescente sonhador e romântico politicamente, com boas intenções para com o mundo e o seu semelhante. E, como habitualmente nestes casos, a ligação muito intensa a uma propaganda para quadros e a imersão num colectivo de topo – onde o ambiente deve ser muito exigente e o controle muito apertado por razões de estrutura – fez o resto.

   Eis pois como se transforma um “bom tipo” num autoritário crente e num fanático. Daí este seu posicionamento, de tipo “honradez à antiga”, de que a palavra dum comunista vale um acordo escrito e formal. Não vale. É apenas estratégia no sentido de caucionar a potencial ausência de acordo.

   Em suma: a velha hipocrisia lenino-stalinista em versão galo de Barcelos…

5 de novembro de 2015

Fernando Pessoa e a esquerda política


Almada Negreiros, Fernando Pessoa (caricatura)


É sabido.

Para o PCP, o BE não passa de um conjunto de betos desprezíveis, um grupelho de "radicais pequeno-burgueses de fachada socialista" (usando a expressão de Cunhal para aqueles que se reclamassem de maior pureza marxista-leninista do que a sua e do seu partido). São inimigos dos povos, e há que combatê-los.

Para o BE, o PCP é constituído por um grupo de múmias zombianas, algumas falecidas ainda na juventude, esquecidas do que é o marxismo-leninismo, que só estorvam (quando não matam) os que se  lhes atravessarem no caminho. São inimigos dos povos, e há que combatê-los  - mas com o maior civismo, é claro.

E dou por mim a lembrar-me daquela aflita perplexidade de Fernando Pessoa perante uma discussão entre dois amigos, pelo facto de, embora cada um deles fosse incapaz de o perceber, ambos terem razão.

4 de novembro de 2015

UM HOMEM CONSENSUAL...


lustucru
  
   Certos comentadores de diversos sectores têm dado relevo, uns mais e outros menos, a actuações – tentando ou mesmo conseguindo contentar a generalidade dos vários campos – do estimado Professor Marcelo, candidato a presidente.

   Vejamos: então não se lembram da frase canónica, já velha de alguns anos, que descrevia bondosamente o nosso Marcelão como o “Maquiavel à moda do Minho”? E a outra, também certeira, sem maldade e graciosa não ofendendo, que garantia que “Marcelo é como o cavalo de Átila; por onde passa a erva política não torna a crescer”? E a barba de condottieri renascentista que ele cortou quando decidiu apresentar ao mundo em particular e aos cidadãos lusos em geral um aspecto mais “respeitável”?

   Trocado por miúdos: o nosso estimado professor, que como nenhum outro o poderia fazer se arriscava a ser uma caricatura quando, em estilo de adolescente traquinas, dava notas na TV a estes e aqueles, é um apreciador fundamentalmente da sua figura, de si mesmo, himself, tendo traçado para si o panorama dos mais altos vôos.

   E, não sendo um primário como Sócrates parece que era segundo comentadores (esse dizia despejadamente que isto ou aquilo era ou não era bom para a sua “carreira política”, lembram-se?), o nosso putativo presidente da Res Publica faz como os estrategas de alto coturno à boa maneira queiroziana: aqui deixa uma palavra mansa e esperta, ali uma pancadinha amistosa, acolá um trejeito cúmplice, além um afago para egos necessitados. Em suma: sabe-la toda, o maganão! Tem a inteligência hábil, a lábia de que um jesuíta se felicitaria, a estratégia bem própria para indrominar lusitanos desta época bendita. É um politico muito capaz!

   Se invejo Marcelo (sugere um leitor do canto)? Claro que invejo, por Toutatis! Como eu gostaria de ter a sua agilidade mental, o seu golpe de rins metafísico (recordam-se da sua santa “lata”, na TV, quando cá veio de visita o benedito Ratzinger?)!

   Infelizmente sou apenas um português de segunda, quiçá até de terceira…E embora não vá votar nele, pois estes conservadores que fazem rapapés à “esquerda” causam-me farnicoques, não deixo de me deslumbrar perante a suave matreirice deste manguelas. Deste Senhor.

  Será que, após um próximo governo de signo estalinista iremos ter um presidente de timbre sacrista?

  Evohé, Marcelo, os que vão aguentar a tua linda e justíssima habilidade te saúdam!

A César o que é de César



   O sr. Carlos César, ilustre deputado do ilustre partido de que é o ilustre presidente, declarou à TV que lhe era impensável que o seu ilustre partido, de que é ilustre presidente, preferisse entender-se com a reles e excomungada direita (excomungada da ilustre Humanidade de ilustre inteligência Humanista) do que com a (embora um pouco menos do que a do seu ilustre partido) ilustre esquerda.

   O pormenor de ser uma esquerda que se assume como não-democrática é um detalhe sem qualquer importância. Afinal, para que serve a democracia aos Césares, mesmo que Césares de ópera-bufa?

2 de novembro de 2015

DO UR-FASCISMO PROGRESSISTA…



  O medo não aparece no coração das pessoas por acaso ou por geração espontânea. É fruto de um trabalho incessante, um trabalho de sapa ou insolitamente nu: através da estupidificação pela propaganda “progressista” veiculada por certa TV, principalmente, mediante a acção de cómicos, ou dramáticos, ou peralvilhos que rebaixam o espírito e o tornam apto para o desleixo, o apego à ignorância como à preguiça mental; pela acção das seitas políticas com a sua lavagem ao cérebro quotidiano e martelado; pela prática de mandões e chefões sem ética e sem vergonha.


   No fim, mediante a rarefação induzida e provocada por grupos roçando a ilegalidade, aparece o medo.


   O medo, raiz da indignidade e do cripto-fascismo, ainda que este se disfarce com as lantejoulas da democracia popular incrementada por cínicas ou insensatas organizações pseudo-progressistas que estão norteadas por destacados homens oficiais do mando “democrático prafrentex” português, com seus ramos mediáticos e derivados.


   É preciso, de facto, extirpar o medo dos nossos corações e das nossas mentes. Para tudo dizer, do nosso dia-a-dia societário, seja presente ou futuro.


   Não devemos esquecer, ainda, a máxima de Abraham Lincoln que aliás, com outra escrita, faz parte da Constituição lusitana: "Quando a nação está dominada por díscolos ou irregulares, o Povo tem o direito de se insurgir".


   Este é um dado nuclear da nossa real cidadania.

 

In memoriam de Manuel Hermínio Monteiro




António Maria Lisboa

Senhora mãe é uma escadaria de costas para o poente
as mãos no peito, “as mamas na varanda”.
No passe-vite, nos brinquedos do menino
na fome do menino
Senhora mãe vai esmigalhando deus e o diabo
pela tarde fora
pelo silêncio adentro.

(foto obtida aqui)

Um pardal poisa em frente ao sol do poema
vem do Norte
vem de trás do tempo
na Senhora mãe o pardal goteja
a loucura inominada
do nome das casas
um pardal de erva submete a primavera
em Novembro, Senhora mãe,
um pardal sem choro semeia o vendaval
                 parte vidros
                 sorri atrás da porta
                 chupa-te os dedos Senhora mãe
aniquila no teu vestido vermelho
o teu palácio apocalíptico
o teu silêncio de mina
as serpentinas de arame
nos teus olhos de escadaria
batendo maternalmente no poema
que um poema
é maior que um filho penteado.

1 de novembro de 2015

Se tomares a vacina, chegas a coronel



É, em resumo, o que diz Alberto Gonçalves no DN de hoje:


«A “vacina”

Neste Outono sombrio, há quem alimente esperanças com a teoria da "vacina". Eis uma súmula: em primeiro lugar, Cavaco aceita contrariado um governo PS com a participação ou o "apoio" dos partidos comunistas. Depois, o governo defende os superiores interesses nacionais (leia-se serve a clientela e espatifa a economia), actua em benefício dos trabalhadores (i.e., saqueia os últimos cêntimos dos que trabalham e pagam impostos), favorece os direitos das pessoas (ou seja, persegue e cala dissidências) e consolida a democracia (por outras palavras, deixa-a em coma). No meio do pandemónio, lá para o Verão o governo cai, Portugal aprende que o marxismo é nocivo e a relevância eleitoral da esquerda, PS incluído, esvazia-se por décadas ou pela eternidade afora. Um consolo, não é? E também uma alucinação pegada.

Na tarde de 11 de Setembro de 2001, sofri um portentoso ataque de ingenuidade e, por momentos, presumi que os atentados nos EUA explicariam enfim ao mundo a legitimidade da resistência de Israel ao terrorismo. Voltei ao normal em dias ou horas, o tempo suficiente para que certo mundo desatasse a "compreender" as dores da "rua" islâmica, a reforçar a repulsa pelos EUA e a redobrar o anti-semitismo, perdão, o anti-sionismo. À semelhança da cegueira ideológica, a má-fé não aprende nada, excepto a evitar a realidade.

Excepto para os viciados em metanfetaminas que a bem do colesterol hesitam em ingerir uma morcela, o arrependimento não é para aqui chamado. Se o país não erradicou o comunismo após os arremedos revolucionários de Cunhal, Otelo e Vasco Gonçalves (por pudor, não falo do rastro de sangue e miséria que a conversão dos povos à felicidade espalhou - e espalha - pela Terra), a que propósito ficaria "vacinado" por causa de novo assalto ao poder, uma pequenina supressão das liberdades e a trivial bancarrota? O razoável PS faliu-nos em três ocasiões e nunca se viu remetido para a obscuridade que merecia. Depressa atribuída aos "mercados", à Sra. Merkel, a Passos Coelho e às conspirações do costume, uma quarta falência não fará grande diferença, e a diferença que fizer custará demasiado.

Além de enganadora nas expectativas, a "vacina" é desaconselhável nos efeitos: no fundo, sugere a resignação de todos os cidadãos que ainda não endoideceram, de Novembro em diante condenados a consentir uma burla e a contemplar um desastre. Embora banhada nas melhores intenções, a ideia da "vacina" acaba por tornar o desastre consolador e a burla tolerável, dois equívocos que pagaremos com juros.

Isto tudo para dizer que Cavaco Silva não deve ceder a chantagens e nomear o Sr. Costa. Pretextos "técnicos" não lhe faltam, desde a inexistência de um acordo de facto (na quinta-feira, o Sr. Jerónimo assumiu o carácter fictício do mesmo) às promessas implícitas e explícitas dos partidos comunistas em remover-nos do Ocidente rumo à balbúrdia exótica que estiver em voga. Mas a verdadeira razão prende-se com a Sagrada Constituição, cujo artigo 120.º informa que o Presidente da República garante "o regular funcionamento das instituições democráticas". A "frente popular" nem ganhou eleições nem é democrática. A "vacina" é a própria doença, está nos livros. E estaremos feitos.


Pouco barulho

Vasco Lourenço, presidente de uma Associação 25 de Abril e homem de grande gabarito, quer "iniciativas" em prol da "liberdade" e da "justiça". Sobre a justiça, presumo que a censura dos media da Cofina (e o processo ao Sol) a propósito da divulgação de pormenores do "caso" Sócrates já é um bom princípio. No que respeita à liberdade, a urgência, conforme insinuam o próprio Sr. Lourenço e o inestimável Sr. Nogueira da CGTP, é sabotar qualquer manifestação em defesa do governo na data das moções de rejeição, imprudência que se discute nas "redes sociais" e que os sadios valores de "Abril" naturalmente não admitem. Sinais dos tempos?

Convém ainda notar que os "tempos" nem sequer começaram. Os processos de intimidação em curso são um mero aperitivo do que nos espera quando, e se, a frente golpista chegar a mandar nisto. Para começar, não será fácil usar a expressão "frente golpista" em público - em privado recomenda-se o sussurro. Mesmo enquanto autarca pequenito e candidato burlesco, o Sr. Costa já provou que convive optimamente com as opiniões alheias desde que coincidam com as dele. Erguido a PM, sobretudo um PM de escassa ou nula legitimidade, não custa antecipar até onde irá a proverbial tolerância da criatura.

Para cúmulo, há que somar ao carácter da criatura a vasta tradição democrática dos comunistas de tons sortidos que a patrocinarão na eventual, e festiva, aventura. Tanto o PCP como o BE são agremiações historicamente abertas ao debate, no sentido em que o Templo de Jim Jones era uma agremiação historicamente aberta ao debate. Todos foram coerentes na ausência à tomada de posse de um governo livremente discutido e escolhido nas urnas.

O engraçado, para não dizer trágico, é que andámos 40 anos a ouvir essa gente chamar impunemente "fascista" a tudo o que se movia e agora arriscamo-nos a não poder devolver-lhes o epíteto, enfim utilizado com propriedade.»

31 de outubro de 2015

"Palavras, para quê?"


James Ensor, A intriga
Vasco Pulido Valente, no PÚBLICO (ou do que, no PÚBLICO, vale a pena ler):
«O CDS e o PSD vão à Assembleia da República discutir. O quê e com quem? Não há uma oposição, há três, que aparentemente tencionam apresentar as suas particularíssimas razões para rejeitar o Governo. Só por milagre a coisa não dará numa berraria inútil. E que ganhará a coligação com isso? Nada. Pelo contrário, compromete de certeza a sua razão e a sua legitimidade. Não se trata gente como se ela fosse igual, quando ela não o é. O CDS e o PSD devem ouvir e calar; e sair daquela mascarada dignamente e sem comentário de espécie alguma. A esquerda que fique por lá num comício íntimo a repetir o que já disse em toda a parte. O país que os veja bem sem interrupção e que tire as suas conclusões. Sem ruído, como quem assiste a um espectáculo para sua edificação.
E depois com quem ia a coligação falar? Com o PCP, que ainda ontem repetia pela boca de Jerónimo de Sousa os lugares-comuns da seita, sem faltar uma vírgula, e que deu a entender que a sua putativa aliança com o dr. Costa não tinha outra base, excepto a sua conveniência? Quem pode adivinhar o que é, ou não é, o verdadeiro interesse dos trabalhadores, segundo Jerónimo? Anteontem, o Avante! declarou que sem a “renegociação da dívida” (um eufemismo para não a pagar) e sem nacionalizações (da banca, claro) os trabalhadores continuarão na mesma. Será que o PC já explicou isto ao dr. Costa? Talvez por isso ainda não apareceu o misterioso “papel”, que Jerónimo acha dispensável e o PS o fundamento da sua política. Ninguém até agora conseguiu apurar. E como tenciona a coligação discutir o seu programa sem o comparar com o programa da “esquerda”?
E o Bloco? O que pensa do mundo essa tresloucada agremiação? Deve ser difícil descobrir. O Bloco tem seis chefes, tem um porta-voz, tem 3000 profetas e tem três medidas para salvar a Pátria. Para lá disto, não há mais que nevoeiro e uma inextricável trapalhada. Consta que parte daquela sociedade se confessa trotskista e outra marxista-leninista. Não acredito, exactamente como não acredito em fantasmas, nem que a terapêutica médica persista na sua devoção à sangria. Verdade que a “esquerda” é um museu, mas não anda por aí a distribuir antiguidades. E se as distribuir ao CDS e ao PSD não vale a pena perder tempo com lições de história. O Bloco precisa de uma creche; e o cidadão sério precisa seriamente de perceber a brincadeira em curso.»

Bigornas e "neo-liberais"



« Pacheco Pereira, entre outros, conjecturam que o PSD e o CDS foram tomados por perigosos radicais de direita. Dada a gravidade do assunto, e por forma a conter potenciais epidemias, elaboramos um questionário para aferir se é um perigoso e radical, passe o pleonasmo, de direita. Se responder afirmativamente a todas estas questões, então podemos garantir ser um radical de direita.

  1. Sabe que, pelo menos no planeta Terra, se atirar uma bigorna ela cai; sabe que se a atirar para cima da sua cabeça a bigorna cairá na sua cabeça; e sabe-o de forma apriorística, sem ter de conduzir qualquer experiência; 
  2. Suspeita quando lhe vendem Nirvanas, fins de austeridade, e outros amanhãs que cantam efabulados por pessoas que não passariam o teste da bigorna;  »
  3. ...

30 de outubro de 2015

"Os seis telemóveis de José Sócrates"




Diria que este artigo de opinião de Francisco Teixeira da Mota, no PÚBLICO, se apresenta como uma espécie de "corpo estranho" naquela que tem sido a orientação do jornal. Espero, pela minha parte, que tais "corpos estranhos" se multipliquem e se estabeleçam, por fim, como parte integrante dessa orientação.

«José Sócrates sempre conviveu mal com a liberdade de expressão e de informação. Enquanto foi governante, recorreu inúmeras vezes aos tribunais com processos-crime e cíveis para silenciar a informação que não lhe agradava. Apresentava pedidos de indemnização de elevado valor para intimidar os jornalistas e as empresas de comunicação social, uma vez que estas são obrigadas a contabilisticamente provisionar esses pedidos. Tanto quanto sei, sem grande sucesso final, mas com o desejado desgaste dos seus críticos.


Pessoalmente, tenho a maior desconfiança dos políticos que recorrem aos tribunais para calar os seus críticos e detractores. Mesmo que as notícias em causa não sejam justas nem correctas. Aqueles a quem confiamos a gestão da “coisa pública” têm de aguentar um maior escrutínio da sua vida do que os cidadãos comuns. É um preço que pagam por serem poder e que nos protege dos abusos desse mesmo poder. Não tenho dúvidas de que, ao recorrerem sistematicamente aos tribunais, este tipo de políticos quer criar um deserto à sua volta para poderem fazer à vontade o que não querem que se saiba que fazem. Seja criminal ou não.


José Sócrates, regressado à liberdade, regressou de imediato à sua prática intimidatória e de combate à comunicação social. Desta vez, parece ter conseguido o que queria, embora ainda não seja completamente claro o que conseguiu. O tribunal, numa providência cautelar sem ter ouvido a parte contrária, decretou um silenciamento noticioso que pode ser extremamente grave.


É certo que o que o tribunal determinou foi que não possa ser divulgado “o teor de quaisquer elementos de prova constantes do processo de inquérito” e pode considerar-se que com essa proibição mais não está do que a reafirmar o segredo de justiça que ainda vigora para o exterior no processo da Operação Marquês. E, nesse sentido, a decisão judicial, para além de lamentável nas suas diversas componentes, nomeadamente ao fixar pesadas multas pelo incumprimento, não estaria a restringir a liberdade de informação muito para além do que decorre do regime do segredo de justiça.


Mas essa mesma expressão pode ser entendida como abarcando tudo o que consta no processo. Na verdade, os "elementos de prova" são todos os objectos, documentos ou dados susceptíveis de servir como meio de prova em processo penal relativo a uma infracção penal. Será que se pretende proibir que os jornais do grupo Cofina possam falar da casa de Paris? Da casa da ex-mulher? Do monte alentejano da ex-mulher? Das casas da mãe? Mas sobre essa matéria existe muita informação fora do processo. Pelo facto de constar do processo, não pode ser divulgada? Seria um verdadeiro escândalo que a decisão judicial pretendesse abarcar toda esta informação.


Cabe ao grupo Cofina, que só agora vai ser ouvido no tribunal, convencer o tribunal da aberração jurídica e factual que resultaria de tal entendimento em termos de violação da liberdade de expressão e informação.


Saliente-se que a decisão judicial contém, ainda, outros absurdos como, por exemplo, o de não definir um prazo para a proibição. Quando cessar o segredo de justiça externo, ainda assim estariam os jornalistas do grupo Cofina proibidos de publicar os elementos de prova?


Convém, contudo, lembrar que os tribunais cíveis são, em geral, menos sensíveis à importância primordial da liberdade de expressão do que os tribunais criminais e há, neste campo, um precedente perigoso: Rui Pedro Soares, homem de confiança do ex-primeiro-ministro nas suas estratégias de controlo da comunicação social, conseguiu há uns anos uma decisão judicial do mesmo tipo, confirmada pelo Tribunal da Relação de Lisboa, que levou o jornal Sol, devido ao elevado montante das multas, a enfrentar a impossibilidade de sobrevivência que só foi evitada com a mudança dos titulares do capital social. Está pendente uma queixa no Tribunal Europeu dos Direitos Humanos contra Portugal, por violação da liberdade de expressão neste caso.
Certo é que na sua estratégia de defesa criminal, o ex-primeiro-ministro não hesitará em lançar mão de todos os meios que lhe foram úteis para os seus fins. Depois de durante meses reiterar que nenhuns factos existem contra si no processo-crime denominado Operações Marquês, veio agora pedir aos tribunais a proibição da divulgação dos factos nele constantes. Por não serem criminais?»