... e o engenheiro amante do silêncio (também aqui e aqui).
28 de outubro de 2015
27 de outubro de 2015
Do género no xixi da política
Conforme o que diz Francisco José Viegas, hoje, no Correio da Manhã:
As
eleições polacas, ao contrário das portuguesas, resultaram numa maioria
absoluta – o vencedor é um partido que leva o bárbaro nome de Lei e Justiça,
chefiado por Beata Szydlo; em segundo lugar, ficou o Plataforma Cívica, da
ex-primeira-ministra Ewa Kopacz; finalmente, já fora do parlamento, ficou a
coligação de esquerda, liderada por Barbara Nowacka.
Três mulheres. É isto bom?
Para os grupos feministas, não: elas são, à exceção da terceira, apenas
"instrumentos no jogo político". Vem nos jornais. Expliquemos então
esta encruzilhada: há mulheres e mulheres; Jóhanna Sigurðardóttir, ex-PM
islandesa, é mulher; Margaret Thatcher, nunca. Dilma Rousseff é mulher; Angela
Merkel, não. Hillary Clinton é mulher (não muito), mas Carly Fiorina, a rival
republicana, não. Helle Thorning-Schmidt, que foi PM dinamarquesa, é mulher;
Marine Le Pen, não. Catarina Martins é mulher; a polaca Beata Szydlo, como toda
a gente sabe, até faz xixi de pé.
"Outra República?"
Maria João Avillez, no Observador, deu voz ao que é o meu ponto de vista sobre aquilo de que trata. E chamo a atenção, em especial, para o último parágrafo do texto, a respeito do qual, talvez mais do que nenhum outro, convém reflectir.
« 1. O Presidente da República
não é um cabide. Compete-lhe voz, opinião, critério e fundamentação. Foi o que
fez no pleno entendimento da natureza das suas funções. Com considerações a
mais? Porventura, mas seja como for o país, daqui uns meses – quando for tarde
de mais – lembrar-se-á de cada uma das suas palavras. Fez um discurso forte, o
que é porém muito distinto de ter feito um discurso violento e divisionista
como – por exemplo – o que fez Sampaio quando despediu Santana Lopes, que
estava escorado numa maioria absoluta, política, coerente e não meramente
numérica e descaradamente artificial como a suposta existir hoje. (Sugiro a
propósito a leitura das reações de aplauso e jubilo dos líderes do PS, do PCP e
do BE face a esse extraordinário gesto do então Presidente – vistas à luz do
que a esquerda diz hoje, acusa hoje e insulta hoje, essas reações são quase
indecorosas).
a) Ao contrário do que se
disse – muitas vezes insultuosamente e num tom raramente praticado entre nós –,
Cavaco Silva não alertou os “mercados”, alertou-nos a nós e ao país para o que
irá ser o previsível comportamento dos fatídicos mercados – e do BCE e de
Bruxelas e das suas regras de jogo. Não é de todo o mesmo que ter decidido
malevolamente “alertar” esse universo, que para o bem e para o mal, é o nosso.
b) Não “uniu” o PS – nem um
mágico hoje o uniria! –, nem dividiu deputados. Enfatizou a responsabilidade de
cada um deles neste momento, o que não é pouco, mas não é o mesmo. Estando o
jogo político circunscrito à arena parlamentar, porque não há-de o Chefe do
Estado pedir aos jogadores que atentem no jogo?
c) Não disse que nunca daria
posse a um governo de extrema-esquerda. Nem podia, como é óbvio e ele bem sabe.
Disse que não dava “agora” e explicou porquê. Mas ao mesmo tempo e justamente
com o que disse “agora”, avisou as navegações do mau tempo que as espera. Se no
uso das suas prerrogativas o Presidente da Republica acha que os programas
partidários e as vontades políticas da extrema-esquerda, uma vez aplicadas,
lesam o interesse nacional, porque não há-de dizê-lo? Soares fez o mesmo,
Sampaio fez o mesmo. A escolha, cabe agora e bem, aos deputados. A serem
derrubados, Passos Coelho e a coligação devem sê-lo no Parlamento e não por
António Costa na rua ou num cabeçalho de jornal.
2. A eleição de Ferro Rodrigues não surpreende nem ao de leve. Mas
ao contrário do que se disse – com esta mania de acharem que meio país é
estúpido – não foi nem o verbo, nem o tom do Presidente que “elegeu” Ferro.
Quem se julga a dez minutos e a dez metros do poder e das suas benesses como
qualquer deputado socialista se julga – nem que ao nível de um sublugar num
qualquer falido organismo estatal – não corria o risco de ir dentista nesse
dia, falhando a votação. Do mesmo modo que nenhum parlamentar do PS irá ao
médico ou ao Porto ver a mãe na votação do programa do Governo. Sendo óbvio que
uma parte do PS não comprou esta louca aliança política, não se revê nela e
está à espera de ajustar contas com António Costa, o tempo é de medir
conveniências próprias. Não é o momento para ser livre, nem para estar à altura
da herança do PS nestes 40 anos. Ninguém ousará hoje um passo em falso. A
coragem dá trabalho. Sabe-se lá o que é o dia de amanhã.
3. Depois do líder do PS ter solenemente avisado o país de que
nunca votaria uma moção de rejeição ao Governo sem dispor de uma alternativa,
não dispondo de uma alternativa vai votar a moção de rejeição ao governo. A boa
companhia da extrema-esquerda vai saltar-lhe ao caminho e – mais cedo que tarde
– arreganhar-lhe o dente, já todos os disseram, em todos os tons. Até lá
espera-se o parto do acordo que – de momento – persiste em não ver a luz da
glória. Ou terá sido por acaso ou por “razões pessoais” que Cavaco Silva
referiu como “inconsistente” algo que ainda não existia? De “consistente” o que
há verdadeiramente é a obsessão de António Costa com o lugar de Passos Coelho.
Basta (saber) ouvir Jerónimo
de Sousa, o adorado “avô” da media durante a campanha eleitoral, para observar
o pouco que ali se costuma brincar em serviço: o PCP precisa de oxigénio para a
CGTP, precisa de não ser subalternizado, precisa de moedas de troca para os
seus e como tal agirá. E assim sendo, ambas as facturas a pagar, a do BE que já
conhecemos e a do PCP se este vier a apresentá-la, serão caríssimas. Cá
estaremos para ver, e infelizmente para as pagar.
Mas… e Mário Centeno? Há dias
mandaram-me um mail com o vídeo de uma conferência de imprensa sua, realizada
há meses, no Largo do Rato. Perguntei a quem me enviou se era uma montagem ou
uma dobragem (que foi o que me pareceu). Não era. Era a sério. Espantei-me com
o comportamento desnorteado de Mário Centeno, balbuciando, sorriso cativante
mas olhar de náufrago, a sua impossibilidade de responder a uma questão com o
argumento de “serem muitos números”. Mas o que não julguei possível foi que o
coordenador de um programa económico “de governo” tenha vindo a assistir, impávido
e mudo, à descaracterização, step by step, daquilo que seriamente procurou
inspirar e coordenar. Que dirá a si mesmo ao fim do dia deste vexame?
A vida continua e Mário
Centeno continua a frequentar a extrema-esquerda ao lado de Costa: como se nada
fosse e caucionando tudo.
4. Andam para aí apostas sobre se Cavaco Silva indigitará António
Costa para liderar um governo integrado ou apoiado por radicais se a coligação
for chumbada como sofregamente a esquerda anuncia. Também circulavam apostas
sobre se o Presidente indigitaria Passos Coelho para formar novo Executivo
quando era bem de ver que não podia fazer outra coisa. Não valiam a pena nem as
apostas, nem as ânsias. Agora também não. E só os que não medem nem alcançam o
que significaria para o país um governo de gestão podem prosseguir com as
apostas.
5. Há gente dividida, um
clima crispado, tensão no ar, radicalismo, linguagem insultiva. Uma revolução,
em acabando – mal ou bem –, esgota-se. Por natureza e definição nada disso pode
ser comparável ao tempo politico que vivemos hoje, numa democracia estabelecida
e num Estado de direito, mesmo se uma e outro em acentuada perda de sentido e
de valores.
Aflige-me e perturba-me este
estado de coisas. Está a ir-se tão longe na irracionalidade nos modos e nos procedimentos
políticos que o retrocesso vai ser difícil e o reequilíbrio porventura
impossível. Talvez já só noutra República. De um dia para o outro –
literalmente –, metade do país passou, aos olhos da esquerda, a ser constituída
por inimigos em vez de adversários, olhados com acinte, tratados com
inclassificável desprezo, (quase) acusados de traição e sem direitos políticos.
Os grandes mestres do ressentimento, os grandes encenadores do ódio, os
praticantes da crispação, podem dormir descansados. Eu é que talvez não
consiga.»
26 de outubro de 2015
A VERDADE A QUE TEMOS DIREITO
Sócrates foi a uma secção do PS de Vila Velha de Ródão conferenciar (ou
seja, numa fuga para a frente agitar as pequenas massas que o foram
vistoriar). E de acordo com diversos comentadores não se eximiu a, no mais puro
estilo leninista de escada-abaixo, exalar a "verdade a que temos
direito"...
O sr. José Sócrates Pinto de Sousa é um aventureiro político, um verdadeiro
"condottieri" à guisa de Mussolini ou do velho Rosas sul-americano.
Em vista disso é um indivíduo cuja concepção de verdade é elástica, tão
elástica que o certifica como um tipo que diz a “verdade” que lhe convém.
Muitos o têm classificado como megalómano. Não sei se o é, prefiro colocá-lo
apenas no patamar da política, ou baixa política, que o enforma. E, aí, tem-se
mostrado uma figura na qual se corporiza tudo o que de mau, de mais rasca,
existe neste país e até na Europa em que se move: a pedantice camuflada de
colações de grau, a mediocridade trajada de dinamismo balofo, a liderança à
guisa dum antigo Piero Del Ponte ou dum Giovanni Da Negri, esses
quatrocentistas que ficaram na História de Itália como sicários e “homens de
destino”.
Independentemente de ser eventualmente um vigarista – o Sistema
Judicial o julgará, que a nós não nos caberá tal acto – é como político um tipo
para quem a História será dura. Um mau elemento como político, talvez mesmo um
mau elemento como pessoa. O Futuro aí estará para o avaliar, pois “à História
eles não escapam”.
25 de outubro de 2015
"Até quando Catilina?"
A interrogação é de Helena Matos, no Observador. E a minha, já agora.
«Ferro Rodrigues, contra os
usos e os costumes da democracia, torna-se presidente da Assembleia da
República.
José Sócrates apresenta-se
numa conferência como se fosse primeiro-ministro e compara-se a Luaty Beirão.
António Costa prepara-se para
fazer um acordo com o PCP e o BE, defende que tal corresponde “a deitar abaixo
o resto do muro de Berlim” e declara que “os socialistas nenhuma lição têm a
receber do professor Aníbal Cavaco Silva”.
O PS considera que a indigitação
de Passos “faz o país perder tempo” e promete construir uma “muralha de aço”
nos próximos dias.
…
Não, não é um manicómio em
autogestão. É apenas um país a entrar no modo de funcionamento do populismo
revolucionário. Vivermos esta degradação do regime tornou-se inevitável desde
que António Costa percebeu que assegurava a sua sobrevivência política caso
tirasse o PS do arco da governação e o colocasse numa frente popular.
Desde esse momento o país
mudou e ficou condenado a mudar muito mais. Não falo da dívida, dos impostos,
do crescimento económico ou do desemprego. Falo de algo muito mais profundo e
determinante. Falo de valores, de moral, de bom senso e de civilidade. O
espírito de frente popular é incompatível com tudo isso. Ou mais concretamente
tem uma visão instrumental de tudo isso.
Tornar aceitáveis os
procedimentos mais abstrusos, os comportamentos mais questionáveis e as opções
mais contraditórias é a mecânica quotidiana dos chamados processos
revolucionários: o que hoje é mau amanhã é bom. Tudo é urgente e tudo pode logo
ser esquecido. O sentido de ridículo desaparece. O de decência também.
Os países partem-se em dois,
o que era habitual torna-se de repente uma excentricidade ou um vício: o
presidente da Assembleia da República era do partido vencedor das eleições?
Pois era. Agora deixou de ser. Até agora convidava-se a formar governo o líder
do partido mais votado. De agora em diante ou quando a frente popular achar
conveniente, esse procedimento torna-se desnecessário, inútil, uma perda de tempo,
um formalismo… Se amanhã lhes convier voltar ao que estava instituído
arrancarão as vestes de indignação com a simples hipótese de alteração das
regras. Se algum ingénuo lhes lembrar que foram precisamente eles que as
alteraram imediatamente será acusado de estar sempre a falar do passado, de ser
um ressentido, de não querer discutir o presente…
Que as pessoas que agora
defendem este modo de proceder tenham dito precisamente o contrário até há duas
semanas não interessa nada porque a primeira regra a fixar quando se passa a
viver sob o regime das frentes é que os procedimentos não são baseados na
legitimidade mas sim na capacidade de os apresentar como justificáveis naquele
preciso momento e para aquele preciso momento. No frentismo a justificação instantânea
cumpre o papel dos valores.
E é no frentismo que nós já
estamos a viver. E porque o estamos a viver não reagimos à megalomania de
Catarina Martins que anda há duas semanas a comportar-se como se fosse
presidente da República, chefe de Governo e líder do PS (só o PCP escapou aos
anúncios urbi et orbi da líder do BE) e ao papel de “faz de
conta que sou negociador” representado por António Costa: à direita não
negociou porque não quis, à esquerda não negociou nem negoceia porque já não
pode (Costa precisa muito mais do PCP e do BE do que estes dele.) E ficamos em
estado de anomia perante a patética performance representada por Sócrates que
ontem se via Mandela, hoje Luaty e amanhã, quem sabe, de volta à política (até
quando se podem apresentar candidaturas à Presidência da República?).
Como é claro tudo isto vem
acompanhado de múltiplas explicações reconfortantes que cumprem o papel de
apaziguar as almas cúmplices.
Na verdade estas derivas
populistas só acontecem porque para lá daqueles que as apoiam convictamente
temos aquela simpática mole de gente que gosta de dizer (baixinho e com muitas
histórias dos bastidores) que está contra mas que tem de se ter cuidado para
não fazer o jogo de A ou B.
A última destas narrativas
diz-nos que no PS teria havido um sobressalto cívico caso a intervenção de
Cavaco Silva não tivesse sido tão dura. Reza a ainda a historieta que ao
ouvirem Cavaco Silva os críticos da actual liderança do PS resolveram de
imediato apoiar a eleição de Ferro Rodrigues e a estratégia de Costa.
Ah Catilinas do nosso tempo,
até quando abusarão não da da nossa paciência, que estamos condenados a tê-la,
mas sim dessa mania de fazer dos outros parvos?
Comecemos pelo óbvio: que
convicções são essas, refiro-me às dos críticos de Costa, que se desvanecem mal
ouvem o PR dizer o que todo o país sabe – existe a possibilidade de chegarem ao
governo partidos que votaram sempre contra os acordos básicos da democracia
portuguesa? E não votaram secretamente: orgulham-se disso e consta dos seus
programas.
O discurso de Cavaco só
chocou quem precisa de se mostrar chocado para manter a farsa das dúvidas e dos
críticos dentro do PS. Infelizmente o PS tornou-se um partido sem dúvidas e de
críticos calados muito antes de Costa ter chegado. Os socialistas calaram-se
perante a forma inqualificável como os seus dirigentes reagiram ao processo
Casa Pia. Depois calaram-se perante os desmandos de Sócrates. E agora vão
calar-se perante a estratégia de Costa.
Em todos estes momentos foram
arranjando histórias, justificações e teorias mais ou menos cabalísticas não
tanto para explicar o sucedido mas sobretudo o seu silêncio perante os factos.
Muitos deles sem explicação e alguns sem perdão.
Mas em todos esses momentos
os socialistas calaram e pactuaram. Porque não havia direito de o juiz A fazer
o que fez, de o jornal B escrever o que escreveu, de o Presidente dizer o que
disse… E vão continuar a pactuar e a calar. No fim, como aconteceu com a
descolonização sobre a qual os socialistas nunca fizeram uma reflexão sobre as
suas responsabilidades, transferindo as culpas para Cunhal, Salazar e Caetano,
tudo falhou e vai falhar por culpa dos outros. Quando esta frente se desfizer a
culpa vai ser de Cavaco que não estendeu a mão ao PS, de Passos que não quis
negociar, do PCP que não cedeu, do BE que não ajudou…
Quando vai acabar? Não sei.
Mas tenho uma certeza a esse respeito: todos estes truques que PS+PCP+BE estão
a usar para chegar ao poder serão exponenciados na hora de o deixar.
Para lá desta certeza tenho
também a esperança de que em França alguém seja capaz de fazer um discurso como
o de Cavaco caso os líderes do centro se sintam tentados a aliar-se a Marine Le
Pen.
E por fim tenho uma sugestão:
leiam os clássicos. Cícero, por exemplo na sua invectiva a Catilina.
Até quando, ó Catilina, abusarás da nossa
paciência? Por quanto tempo ainda há-de zombar de nós essa tua loucura? A que
extremos se há-de precipitar a tua audácia sem freio?
Nem a guarda do Palatino, nem a ronda nocturna
da cidade, nem os temores do povo, nem a afluência de todos os homens de bem,
nem este local tão bem protegido para a reunião do Senado, nem o olhar e o
aspecto destes senadores, nada disto conseguiu perturbar-te? Não sentes que os
teus planos estão à vista de todos? Não vês que a tua conspiração a têm já dominada
todos estes que a conhecem?
Quem, de entre nós, pensas tu que ignora o que
fizeste na noite passada e na precedente, em que local estiveste, a quem
convocaste, que deliberações foram as tuas?»
24 de outubro de 2015
Um caso de Alzheimer fulminante...
... ou de perigo mortal de saúde pública devido a uma ratazana do esgoto político? Ora ouçam-na chiar entre o 3.º e o 7.º minutos.
23 de outubro de 2015
"Ética republicana"
Ao longo dos anos Mário Soares declarou repetitivamente que a "europa" interessava a Portugal enquanto ferramenta para que o nosso regime não recaísse num dos fascismos: o de cariz nazi ou o de cariz estalinista.
Não sei se ponderou a hipótese de tal vir a acontecer por via do seu próprio partido.
22 de outubro de 2015
A alternativa disciplinadora
Respondendo, ontem, a um elemento do PSD que lhe lembrava a hipótese de o Orçamento de Estado da Coligação poder vir a ser aprovado mediante votos favoráveis de parte da bancada parlamentar do PS, a pessoa alternativa, jurista e deputada socialista Isabel Moreira lembrou, por sua vez: "Então e a disciplina partidária?".
De onde se conclui o que já se sabia que ela sabe, aliás: que se todo o mundo fosse alternativo seria muito mais disciplinado; e que ser alternativo é ser um disciplinador de consciências - a bem da Nação, é claro.
A deputada Isabel Moreira promete. E cumpre.
21 de outubro de 2015
Futurologia para principiantes
Estou convencido de que, no futuro da língua portuguesa, surgirá a expressão "O tipo é um Costa!" quando nos referirmos a alguém que não é, de todo, pessoa em quem se possa confiar.
20 de outubro de 2015
Aos 80 anos...
Yoná Magalhães na gala da novela Sangue Bom, em 2013
... morreu esta manhã Yoná Magalhães. E, com ela, a manhã ela própria.
19 de outubro de 2015
"A esquerda também aprende"
É só rir, é só rir! Não há como este homem para... ihihih! Ora leiam... ihihih... Ainda o veremos a receber o Prémio Nobel... ihihih...
«Tudo leva a
crer que a esquerda portuguesa começou a entender que o ciclo político iniciado
com o 25 de Abril está a terminar e que todos juntos talvez sejam suficientes
para inverter o processo de decadência estrutural que a coligação de direita
iniciou com a ajuda da troika. No sentido que lhe atribuo, decadência significa
divergência progressiva, em vez de convergência progressiva com o rendimento
médio europeu e os indicadores sociais que lhe estão associados. A prazo, se
houvesse convergência, os jovens portugueses teriam tanta necessidade de
emigrar como os jovens alemães ou finlandeses. Está em curso o processo oposto.
Não é ainda
claro o que cada partido aprendeu. O PS começou a aprender que quanto mais se
parecer com a direita menos a direita precisa dele e menos precisam dele os
cidadãos e cidadãs que, inconformados com as suas políticas, começam a
identificar alternativas à esquerda. Se aprender esta lição, terá igualmente
que aprender que vai ser necessário organizar alguma rebeldia a nível europeu,
com sabedoria e aliados europeus. Sem renegociação/restruturação da dívida e
com o atual Tratado Orçamental, a decadência é fatal com ou sem fantasias
macroeconómicas. Aprenderá? Não esqueçamos que a ignorância estrutural no PS é
muito alta. Só isso explica que Francisco Assis esteja à espera que o partido
lhe caia nas mãos. Se isso acontecer, terá o triste privilégio de ser o seu
coveiro.
O BE e o PCP
aprenderam que os portugueses lhes deram demasiados votos para poderem ser
apenas votos de protesto. Durante a campanha ouviram muitas vezes o apelo
dramático: "Tirem esta direita do poder". Deveriam entender-se entre
si e não apenas cada um deles com o PS.
Com o Livre, a
esquerda também aprendeu. O Livre foi uma presença talvez passageira mas
salutar porque introduziu duas inovações, uma programática e outra
organizativa. Foi a primeira força política, depois do 25 de Abril, a pôr a
unidade de esquerda no centro da sua agenda política, uma unidade assente em
bases programáticas credíveis. Foi a única força política que abraçou
convictamente a democracia direta e participativa na eleição dos seus
candidatos e se articulou de modo não proprietário com movimentos sociais
autónomos, como foi o caso do Movimento de Cidadãos por Coimbra (CPC).
Em geral, e
salvo situações de total descrédito das forças políticas dominantes (como
recentemente em Espanha), as grandes inovações políticas não são bem acolhidas
em processos eleitorais, dominados por rotinas, lealdades e aparelhos. Mas o
facto de não beneficiarem quem as introduz não quer dizer que se percam. A
inovação programática introduzida pelo Livre foi decisiva para a mudança
estratégica (e não apenas tática, ao que parece) do BE no sentido de, já na
campanha eleitoral, se abrir a uma aliança com o PS, que no passado parecia ser
o seu inimigo principal.
O Livre
conseguiu impor parte da sua agenda, mas poderá aprender com a sua vitória?
Para isso, deveria equacionar dissolver-se em nome da unidade de esquerda por
que lutou desde que se realizassem as seguintes condições: o BE mostra que a
unidade de esquerda é, para os tempos que se aproximam, a melhor decisão
estratégica; adota a inovação organizacional do Livre, a democracia direta no
interior do partido, acabando de vez com vanguardismos, leninistas ou não;
mostra-se disponível para acolher os ativistas do Livre, a grande maioria deles
ex-militantes ou ex-simpatizantes do BE, se estes assim o entenderem; a direção
do Livre põe à discussão nas suas bases, votantes e simpatizantes, a hipótese
da dissolução nas condições referidas, e o voto é pela dissolução.
Qualquer que
seja o resultado, será um momento alto de pedagogia política de esquerda. Se a
decisão for a não dissolução, o Livre terá um mandato mais forte para
continuar. Se o Livre se dissolver, os movimentos sociais que se articularam
com ele nada têm a perder. O CPC, por exemplo, continuará a sua luta por
resgatar Coimbra das oligarquias políticas medíocres e corruptas que a têm
destruído. Em próximas eleições serão os partidos a necessitar do CPC, e não o
contrário.»
17 de outubro de 2015
O sapateiro grego e a chinela
Varoufakis
disse, em Coimbra, que “a lógica estava do nosso (do Syriza) lado”. Mas, direi
eu, na medida em que o discurso do Syriza não alterou a realidade e tendo em
atenção que, segundo a afirmação hegeliana herdada pelo materialismo dialéctico
perfilhado pelo Syriza, “o que é racional é real e o que real é racional”, o
Syriza deveria reconhecer que o que diz não é lógico e Varoufakis compreender
que, afinal, não percebe nem o mundo real nem, por consequência, de economia
racional.
Acrescentou
ainda o ex-ministro grego que o cargo desempenhado lhe permitiu contactar com
“o desprezo Platónico pela democracia” de Bruxelas. Sobre o pouco apreço pela
democracia detectado in loco por
Varoufakis poder-se-á e convirá mesmo discutir; sobre o termo “Platónico” é que
nem vale a pena, porque comparar as altas instâncias europeias com o Conselho
dos Sábios de uma cidade organizada segundo Platão é o mesmo que, utilizando a
expressão popular, “comparar uma vaca com um molho de salsa”. Mais uma vez, portanto,
Varoufakis não sabe do que fala. Nem sabe que não sabe. Nem, porventura, lhe
interessará saber.
Porém,
fala. Fala. Fala com o que aprendeu numa qualquer vulgata mal-amanhada,
floreando o discurso com o desprezo pelo conhecimento que ela lhe proporcionou.
Fala como um daqueles demagogos que ajudaram a estilhaçar a antiga Atenas,
doente de corrupção. Porque, se se calar, toda a gente se aperceberá de que,
afinal, está mais morto do que parece. E ele, mesmo morto, ainda tem que comer, caramba!
Agora a
sério: Varoufakis lembra-me um feirante que se apresenta como fabricante
de calçado de luxo ou especializado, sem que saiba sequer fazer uma sandália
decente. Mas para “Coimbra, onde se diz tanta asneira” (citando Agostinho da
Silva, numa das suas “Conversas Vadias”), sabe-se que isso basta para que esta sua presença tenha ficado para sempre registada num Livro de Ouro
das Profissões do Saber.
15 de outubro de 2015
Epopeias siderais Tutankhamon-Nefertite ...
... reloaded.
"cerca de 800 000 (oitocentos mil) euros em dinheiro, provenientes da lei de financiamento dos partidos"
... e ...
"Se
nestas condições objectivamente favoráveis o Partido não alcançou
nenhum dos objectivos políticos imediatos ao seu alcance - aumento
substancial da votação nas listas do Partido e eleição de uma
representação parlamentar - tal fica unicamente a dever-se à
incompetência, oportunismo e anticomunismo primário do secretário-geral
do Partido e dos quatro membros do comité permanente do comité central,
que tudo fizeram para sabotar a aplicação do comunismo, do
marxismo-leninismo, dos métodos de trabalho, do programa político e da
linha de massas que sempre caracterizaram a vida e luta do Partido."
"sem prejuízo de entregar imediatamente à respectiva Comissão Financeira as contas bancárias e os dinheiros do Partido"
"Cada
um dos cinco membros agora suspensos deve preparar e apresentar, dentro
de oito dias, ao comité central em exercício de funções, o relatório
sobre as respectivas actividades políticas e a autocrítica quanto aos
erros que cometeu na direcção do Partido."
===============================================
"Nefertite não tinha papeira
Tuthankamon apetite
Já minha avó me dizia
Olha que a sopa arrefece."
José Afonso
"Isto pode não acabar bem"
Avisa, com toda a razão, Rui Ramos, no Observador:
Em Junho de 2004, o primeiro-ministro Durão Barroso
aceitou o convite para presidente da comissão europeia. O PSD escolheu Santana
Lopes para lhe suceder. O governo era então apoiado por uma maioria absoluta do
PSD e do CDS. No entanto, o PS, o PCP e o BE reagiram violentamente. Foi
explicado que as eleições legislativas eram essencialmente um plebiscito aos
candidatos a primeiro-ministro, e que Santana, sem eleições, seria um
chefe de governo “ilegítimo”. Houve manifestações em frente ao palácio de Belém
a exigir eleições antecipadas. A 9 de Julho, quando o presidente optou por dar
posse a Santana, o secretário-geral do PS demitiu-se. A dramatização resultou:
em Novembro, o presidente acabou por dissolver a assembleia, apesar de o
governo nunca ter perdido a maioria absoluta no parlamento.
Estas eram as regras, segundo o PS: o
primeiro-ministro só podia ser o líder do partido que ganhasse as eleições com
mais votos do que os outros partidos. Como explicou António Costa,
em Setembro de 2009: “os portugueses conquistaram um direito a que não podem
nem devem renunciar: o direito a que os governos não sejam formados pelos jogos
partidários, mas que resultem da vontade expressa, maioritária, clara e
inequívoca de todos os portugueses.” Eram ainda as regras a 4 de Outubro deste
ano. Já não eram no dia seguinte.
O avanço estratégico do BE e do PCP
Vamos falar então de “jogos partidários”, que é donde
agora saem os governos. Para António Costa, o jogo é óbvio: só como primeiro
ministro pode voltar ao Largo do Rato sem correr o risco de ser pendurado numa
árvore. Para o BE e o PCP, também: é o jogo de sempre. Ao contrário do que se
diz, não foram eles que mudaram, foi Costa. O PCP e o BE estiveram sempre
dispostos a apoiar um governo do PS: bastaria que o PS rompesse com a
“direita”. A expressão “maioria de esquerda” foi aliás inventada pelo PCP em
1976. Em 1987, o PCP esteve pronto, com o PRD, a juntar-se no governo ao PS. Em
todas as ocasiões, foi o PS – ou, mais precisamente, Mário Soares — , que
recusou misturar-se com o PCP.
O PCP e o BE não querem por enquanto tirar Portugal da
NATO ou do Euro. O PCP e o BE são partidos leninistas, e os leninistas
aprenderam a actuar por “etapas”. Nesta “etapa” inicial, têm dois objectivos:
comprometer e condicionar o PS, e aceder aos recursos do Estado (o “queijo
Limiano” também é vermelho). A declaração de Catarina Martins ontem, ao abolir
o governo PSD-CDS após uma conversa com Costa, revela o jogo: o BE e o PCP
estão resolvidos a um “recuo programático”, se isso corresponder a um “avanço
estratégico”, que deixe o PS à sua mercê.
A redução do PS
Vigora ainda a tese de que esta é a ocasião de o PS
comprometer no governo o PCP e o BE, de modo a absorver os seus eleitores.
Talvez sim, mas talvez não. O PS, no caso de Costa realizar o seu “governo de
esquerda”, corre dois riscos. O primeiro é ajudar a fixar, a partir do Estado,
o eleitorado até agora volátil do BE. Nunca mais o PS se livraria da concorrência
bloquista, como ao fim de 40 anos ainda não se livrou do PCP, devido ao poder
que os comunistas adquiriram nas autarquias e nos sindicatos.
O segundo risco é o PS perder os seus eleitores
“moderados”. A partir do momento em que o PS fizesse parte de um bloco com dois
partidos que, mesmo sem conspirarem nos quartéis, não acreditam na democracia
pluralista nem na economia de mercado, muitos cidadãos que acreditam nessas
coisas hesitarão em votar PS. Ou seja, o resultado do jogo de António Costa
poderia ser uma redução do voto do PS, e a consolidação eleitoral do BE, ao
lado do PCP. Nesse cenário, a esquerda passaria a consistir em três partidos, a
valer 10%-15% de votos cada um, e a valerem todos em conjunto menos do que
valem agora. Seria o fim do PS como grande partido de governo e também, por
isso, o fim da “maioria de esquerda” em Portugal. E logo que isso fique claro,
a aliança PS-PCP-BE tornar-se-á mais instável do que um saco de gatos.
A oportunidade da direita
E é aqui que convém entrar em linha de conta com a
direita. Quase toda a gente parece pressupor que a direita ficaria sentadinha e
caladinha enquanto Costa invade São Bento com o PCP e o BE. Não esperem tanta
abnegação. A direita não pode ficar quieta, a não ser que queira desaparecer
numa nuvem de irrisão. Imaginem-se no lugar do PSD e do CDS. Primeiro, tiveram
de executar um ajustamento negociado pelo PS, apenas para verem Costa renegar
todas as responsabilidades e deixar-lhes o odioso. Depois, ganharam as eleições
segundo as regras antigas, apenas para verem Costa mudar as regras e
roubar-lhes o governo.
A conformarem-se sem luta com mais esta golpada de
Costa, os líderes do PSD e do CDS acabariam desacreditados. Também eles, por
uma questão de sobrevivência, serão obrigados a subir a parada. Em 2004, a
enorme pressão criada pelas esquerdas levou Sampaio à dissolução, apesar da
maioria de direita no parlamento. Desta vez, caberia à direita ajudar o próximo
presidente a concluir que o país precisa de uma clarificação
eleitoral, apesar da maioria de esquerda. A direita terá de vir para as redes
sociais e para a rua. Terá de mostrar-se “indignada” com a “ilegitimidade” de
um governo de derrotados nas eleições. Terá de exigir que seja dado ao
povo, em Maio ou Junho, logo que seja possível, o direito de votar numas
eleições em que se defrontem claramente duas coligações, a do PSD-CDS e a do
PS-PCP-BE. Será essa, aliás, a única maneira de evitar maior crise.
Depois de quatro anos de austeridade, a resistência à
“Frente Popular” será para o PSD e o CDS a grande oportunidade de se
reconciliarem com o seu eleitorado e, sobretudo, de recuperarem de vez para uma
maioria de direita os eleitores do PS que acreditam na democracia pluralista e
na economia de mercado. Nunca, por isso, o PSD e o CDS aceitarão o governo
Costa-PCP-BE como “normal” antes de novas eleições.
Uma nova polarização política
É também natural que a “Frente Popular” tente
aproveitar a resistência do centro-direita. Acusará o PSD e o CDS de
“radicalização”, como aliás já está a fazer. Há-de inventar conspirações
“fascistas” e conjuras do “imperialismo alemão”. Fará comícios com Varoufakis e
Pablo Iglesias, com toda a gente a gritar “não passarão”. Radicalizar-se-á mais
do que Costa e até o PCP e o BE têm previsto.
Ficaremos outra vez entre “fachos” e “comunas” como em
1975, para grande confusão das gerações que nasceram depois e que não gostam de
se “enervar” com a política. É verdade que desde vez não há COPCON. Nem por
isso deveremos deixar de recear algum tipo de ruptura política que, num país
meio falido e numa democracia agora sem regras, terá custos e
demorará anos a sarar. E tudo isto para quê? Para António Costa não se demitir
de secretário-geral do PS. A grande história é, por vezes, feita de pequenas
coisas.
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