23 de outubro de 2015
"Ética republicana"
Ao longo dos anos Mário Soares declarou repetitivamente que a "europa" interessava a Portugal enquanto ferramenta para que o nosso regime não recaísse num dos fascismos: o de cariz nazi ou o de cariz estalinista.
Não sei se ponderou a hipótese de tal vir a acontecer por via do seu próprio partido.
22 de outubro de 2015
A alternativa disciplinadora
Respondendo, ontem, a um elemento do PSD que lhe lembrava a hipótese de o Orçamento de Estado da Coligação poder vir a ser aprovado mediante votos favoráveis de parte da bancada parlamentar do PS, a pessoa alternativa, jurista e deputada socialista Isabel Moreira lembrou, por sua vez: "Então e a disciplina partidária?".
De onde se conclui o que já se sabia que ela sabe, aliás: que se todo o mundo fosse alternativo seria muito mais disciplinado; e que ser alternativo é ser um disciplinador de consciências - a bem da Nação, é claro.
A deputada Isabel Moreira promete. E cumpre.
21 de outubro de 2015
Futurologia para principiantes
Estou convencido de que, no futuro da língua portuguesa, surgirá a expressão "O tipo é um Costa!" quando nos referirmos a alguém que não é, de todo, pessoa em quem se possa confiar.
20 de outubro de 2015
Aos 80 anos...
Yoná Magalhães na gala da novela Sangue Bom, em 2013
... morreu esta manhã Yoná Magalhães. E, com ela, a manhã ela própria.
19 de outubro de 2015
"A esquerda também aprende"
É só rir, é só rir! Não há como este homem para... ihihih! Ora leiam... ihihih... Ainda o veremos a receber o Prémio Nobel... ihihih...
«Tudo leva a
crer que a esquerda portuguesa começou a entender que o ciclo político iniciado
com o 25 de Abril está a terminar e que todos juntos talvez sejam suficientes
para inverter o processo de decadência estrutural que a coligação de direita
iniciou com a ajuda da troika. No sentido que lhe atribuo, decadência significa
divergência progressiva, em vez de convergência progressiva com o rendimento
médio europeu e os indicadores sociais que lhe estão associados. A prazo, se
houvesse convergência, os jovens portugueses teriam tanta necessidade de
emigrar como os jovens alemães ou finlandeses. Está em curso o processo oposto.
Não é ainda
claro o que cada partido aprendeu. O PS começou a aprender que quanto mais se
parecer com a direita menos a direita precisa dele e menos precisam dele os
cidadãos e cidadãs que, inconformados com as suas políticas, começam a
identificar alternativas à esquerda. Se aprender esta lição, terá igualmente
que aprender que vai ser necessário organizar alguma rebeldia a nível europeu,
com sabedoria e aliados europeus. Sem renegociação/restruturação da dívida e
com o atual Tratado Orçamental, a decadência é fatal com ou sem fantasias
macroeconómicas. Aprenderá? Não esqueçamos que a ignorância estrutural no PS é
muito alta. Só isso explica que Francisco Assis esteja à espera que o partido
lhe caia nas mãos. Se isso acontecer, terá o triste privilégio de ser o seu
coveiro.
O BE e o PCP
aprenderam que os portugueses lhes deram demasiados votos para poderem ser
apenas votos de protesto. Durante a campanha ouviram muitas vezes o apelo
dramático: "Tirem esta direita do poder". Deveriam entender-se entre
si e não apenas cada um deles com o PS.
Com o Livre, a
esquerda também aprendeu. O Livre foi uma presença talvez passageira mas
salutar porque introduziu duas inovações, uma programática e outra
organizativa. Foi a primeira força política, depois do 25 de Abril, a pôr a
unidade de esquerda no centro da sua agenda política, uma unidade assente em
bases programáticas credíveis. Foi a única força política que abraçou
convictamente a democracia direta e participativa na eleição dos seus
candidatos e se articulou de modo não proprietário com movimentos sociais
autónomos, como foi o caso do Movimento de Cidadãos por Coimbra (CPC).
Em geral, e
salvo situações de total descrédito das forças políticas dominantes (como
recentemente em Espanha), as grandes inovações políticas não são bem acolhidas
em processos eleitorais, dominados por rotinas, lealdades e aparelhos. Mas o
facto de não beneficiarem quem as introduz não quer dizer que se percam. A
inovação programática introduzida pelo Livre foi decisiva para a mudança
estratégica (e não apenas tática, ao que parece) do BE no sentido de, já na
campanha eleitoral, se abrir a uma aliança com o PS, que no passado parecia ser
o seu inimigo principal.
O Livre
conseguiu impor parte da sua agenda, mas poderá aprender com a sua vitória?
Para isso, deveria equacionar dissolver-se em nome da unidade de esquerda por
que lutou desde que se realizassem as seguintes condições: o BE mostra que a
unidade de esquerda é, para os tempos que se aproximam, a melhor decisão
estratégica; adota a inovação organizacional do Livre, a democracia direta no
interior do partido, acabando de vez com vanguardismos, leninistas ou não;
mostra-se disponível para acolher os ativistas do Livre, a grande maioria deles
ex-militantes ou ex-simpatizantes do BE, se estes assim o entenderem; a direção
do Livre põe à discussão nas suas bases, votantes e simpatizantes, a hipótese
da dissolução nas condições referidas, e o voto é pela dissolução.
Qualquer que
seja o resultado, será um momento alto de pedagogia política de esquerda. Se a
decisão for a não dissolução, o Livre terá um mandato mais forte para
continuar. Se o Livre se dissolver, os movimentos sociais que se articularam
com ele nada têm a perder. O CPC, por exemplo, continuará a sua luta por
resgatar Coimbra das oligarquias políticas medíocres e corruptas que a têm
destruído. Em próximas eleições serão os partidos a necessitar do CPC, e não o
contrário.»
17 de outubro de 2015
O sapateiro grego e a chinela
Varoufakis
disse, em Coimbra, que “a lógica estava do nosso (do Syriza) lado”. Mas, direi
eu, na medida em que o discurso do Syriza não alterou a realidade e tendo em
atenção que, segundo a afirmação hegeliana herdada pelo materialismo dialéctico
perfilhado pelo Syriza, “o que é racional é real e o que real é racional”, o
Syriza deveria reconhecer que o que diz não é lógico e Varoufakis compreender
que, afinal, não percebe nem o mundo real nem, por consequência, de economia
racional.
Acrescentou
ainda o ex-ministro grego que o cargo desempenhado lhe permitiu contactar com
“o desprezo Platónico pela democracia” de Bruxelas. Sobre o pouco apreço pela
democracia detectado in loco por
Varoufakis poder-se-á e convirá mesmo discutir; sobre o termo “Platónico” é que
nem vale a pena, porque comparar as altas instâncias europeias com o Conselho
dos Sábios de uma cidade organizada segundo Platão é o mesmo que, utilizando a
expressão popular, “comparar uma vaca com um molho de salsa”. Mais uma vez, portanto,
Varoufakis não sabe do que fala. Nem sabe que não sabe. Nem, porventura, lhe
interessará saber.
Porém,
fala. Fala. Fala com o que aprendeu numa qualquer vulgata mal-amanhada,
floreando o discurso com o desprezo pelo conhecimento que ela lhe proporcionou.
Fala como um daqueles demagogos que ajudaram a estilhaçar a antiga Atenas,
doente de corrupção. Porque, se se calar, toda a gente se aperceberá de que,
afinal, está mais morto do que parece. E ele, mesmo morto, ainda tem que comer, caramba!
Agora a
sério: Varoufakis lembra-me um feirante que se apresenta como fabricante
de calçado de luxo ou especializado, sem que saiba sequer fazer uma sandália
decente. Mas para “Coimbra, onde se diz tanta asneira” (citando Agostinho da
Silva, numa das suas “Conversas Vadias”), sabe-se que isso basta para que esta sua presença tenha ficado para sempre registada num Livro de Ouro
das Profissões do Saber.
15 de outubro de 2015
Epopeias siderais Tutankhamon-Nefertite ...
... reloaded.
"cerca de 800 000 (oitocentos mil) euros em dinheiro, provenientes da lei de financiamento dos partidos"
... e ...
"Se
nestas condições objectivamente favoráveis o Partido não alcançou
nenhum dos objectivos políticos imediatos ao seu alcance - aumento
substancial da votação nas listas do Partido e eleição de uma
representação parlamentar - tal fica unicamente a dever-se à
incompetência, oportunismo e anticomunismo primário do secretário-geral
do Partido e dos quatro membros do comité permanente do comité central,
que tudo fizeram para sabotar a aplicação do comunismo, do
marxismo-leninismo, dos métodos de trabalho, do programa político e da
linha de massas que sempre caracterizaram a vida e luta do Partido."
"sem prejuízo de entregar imediatamente à respectiva Comissão Financeira as contas bancárias e os dinheiros do Partido"
"Cada
um dos cinco membros agora suspensos deve preparar e apresentar, dentro
de oito dias, ao comité central em exercício de funções, o relatório
sobre as respectivas actividades políticas e a autocrítica quanto aos
erros que cometeu na direcção do Partido."
===============================================
"Nefertite não tinha papeira
Tuthankamon apetite
Já minha avó me dizia
Olha que a sopa arrefece."
José Afonso
"Isto pode não acabar bem"
Avisa, com toda a razão, Rui Ramos, no Observador:
Em Junho de 2004, o primeiro-ministro Durão Barroso
aceitou o convite para presidente da comissão europeia. O PSD escolheu Santana
Lopes para lhe suceder. O governo era então apoiado por uma maioria absoluta do
PSD e do CDS. No entanto, o PS, o PCP e o BE reagiram violentamente. Foi
explicado que as eleições legislativas eram essencialmente um plebiscito aos
candidatos a primeiro-ministro, e que Santana, sem eleições, seria um
chefe de governo “ilegítimo”. Houve manifestações em frente ao palácio de Belém
a exigir eleições antecipadas. A 9 de Julho, quando o presidente optou por dar
posse a Santana, o secretário-geral do PS demitiu-se. A dramatização resultou:
em Novembro, o presidente acabou por dissolver a assembleia, apesar de o
governo nunca ter perdido a maioria absoluta no parlamento.
Estas eram as regras, segundo o PS: o
primeiro-ministro só podia ser o líder do partido que ganhasse as eleições com
mais votos do que os outros partidos. Como explicou António Costa,
em Setembro de 2009: “os portugueses conquistaram um direito a que não podem
nem devem renunciar: o direito a que os governos não sejam formados pelos jogos
partidários, mas que resultem da vontade expressa, maioritária, clara e
inequívoca de todos os portugueses.” Eram ainda as regras a 4 de Outubro deste
ano. Já não eram no dia seguinte.
O avanço estratégico do BE e do PCP
Vamos falar então de “jogos partidários”, que é donde
agora saem os governos. Para António Costa, o jogo é óbvio: só como primeiro
ministro pode voltar ao Largo do Rato sem correr o risco de ser pendurado numa
árvore. Para o BE e o PCP, também: é o jogo de sempre. Ao contrário do que se
diz, não foram eles que mudaram, foi Costa. O PCP e o BE estiveram sempre
dispostos a apoiar um governo do PS: bastaria que o PS rompesse com a
“direita”. A expressão “maioria de esquerda” foi aliás inventada pelo PCP em
1976. Em 1987, o PCP esteve pronto, com o PRD, a juntar-se no governo ao PS. Em
todas as ocasiões, foi o PS – ou, mais precisamente, Mário Soares — , que
recusou misturar-se com o PCP.
O PCP e o BE não querem por enquanto tirar Portugal da
NATO ou do Euro. O PCP e o BE são partidos leninistas, e os leninistas
aprenderam a actuar por “etapas”. Nesta “etapa” inicial, têm dois objectivos:
comprometer e condicionar o PS, e aceder aos recursos do Estado (o “queijo
Limiano” também é vermelho). A declaração de Catarina Martins ontem, ao abolir
o governo PSD-CDS após uma conversa com Costa, revela o jogo: o BE e o PCP
estão resolvidos a um “recuo programático”, se isso corresponder a um “avanço
estratégico”, que deixe o PS à sua mercê.
A redução do PS
Vigora ainda a tese de que esta é a ocasião de o PS
comprometer no governo o PCP e o BE, de modo a absorver os seus eleitores.
Talvez sim, mas talvez não. O PS, no caso de Costa realizar o seu “governo de
esquerda”, corre dois riscos. O primeiro é ajudar a fixar, a partir do Estado,
o eleitorado até agora volátil do BE. Nunca mais o PS se livraria da concorrência
bloquista, como ao fim de 40 anos ainda não se livrou do PCP, devido ao poder
que os comunistas adquiriram nas autarquias e nos sindicatos.
O segundo risco é o PS perder os seus eleitores
“moderados”. A partir do momento em que o PS fizesse parte de um bloco com dois
partidos que, mesmo sem conspirarem nos quartéis, não acreditam na democracia
pluralista nem na economia de mercado, muitos cidadãos que acreditam nessas
coisas hesitarão em votar PS. Ou seja, o resultado do jogo de António Costa
poderia ser uma redução do voto do PS, e a consolidação eleitoral do BE, ao
lado do PCP. Nesse cenário, a esquerda passaria a consistir em três partidos, a
valer 10%-15% de votos cada um, e a valerem todos em conjunto menos do que
valem agora. Seria o fim do PS como grande partido de governo e também, por
isso, o fim da “maioria de esquerda” em Portugal. E logo que isso fique claro,
a aliança PS-PCP-BE tornar-se-á mais instável do que um saco de gatos.
A oportunidade da direita
E é aqui que convém entrar em linha de conta com a
direita. Quase toda a gente parece pressupor que a direita ficaria sentadinha e
caladinha enquanto Costa invade São Bento com o PCP e o BE. Não esperem tanta
abnegação. A direita não pode ficar quieta, a não ser que queira desaparecer
numa nuvem de irrisão. Imaginem-se no lugar do PSD e do CDS. Primeiro, tiveram
de executar um ajustamento negociado pelo PS, apenas para verem Costa renegar
todas as responsabilidades e deixar-lhes o odioso. Depois, ganharam as eleições
segundo as regras antigas, apenas para verem Costa mudar as regras e
roubar-lhes o governo.
A conformarem-se sem luta com mais esta golpada de
Costa, os líderes do PSD e do CDS acabariam desacreditados. Também eles, por
uma questão de sobrevivência, serão obrigados a subir a parada. Em 2004, a
enorme pressão criada pelas esquerdas levou Sampaio à dissolução, apesar da
maioria de direita no parlamento. Desta vez, caberia à direita ajudar o próximo
presidente a concluir que o país precisa de uma clarificação
eleitoral, apesar da maioria de esquerda. A direita terá de vir para as redes
sociais e para a rua. Terá de mostrar-se “indignada” com a “ilegitimidade” de
um governo de derrotados nas eleições. Terá de exigir que seja dado ao
povo, em Maio ou Junho, logo que seja possível, o direito de votar numas
eleições em que se defrontem claramente duas coligações, a do PSD-CDS e a do
PS-PCP-BE. Será essa, aliás, a única maneira de evitar maior crise.
Depois de quatro anos de austeridade, a resistência à
“Frente Popular” será para o PSD e o CDS a grande oportunidade de se
reconciliarem com o seu eleitorado e, sobretudo, de recuperarem de vez para uma
maioria de direita os eleitores do PS que acreditam na democracia pluralista e
na economia de mercado. Nunca, por isso, o PSD e o CDS aceitarão o governo
Costa-PCP-BE como “normal” antes de novas eleições.
Uma nova polarização política
É também natural que a “Frente Popular” tente
aproveitar a resistência do centro-direita. Acusará o PSD e o CDS de
“radicalização”, como aliás já está a fazer. Há-de inventar conspirações
“fascistas” e conjuras do “imperialismo alemão”. Fará comícios com Varoufakis e
Pablo Iglesias, com toda a gente a gritar “não passarão”. Radicalizar-se-á mais
do que Costa e até o PCP e o BE têm previsto.
Ficaremos outra vez entre “fachos” e “comunas” como em
1975, para grande confusão das gerações que nasceram depois e que não gostam de
se “enervar” com a política. É verdade que desde vez não há COPCON. Nem por
isso deveremos deixar de recear algum tipo de ruptura política que, num país
meio falido e numa democracia agora sem regras, terá custos e
demorará anos a sarar. E tudo isto para quê? Para António Costa não se demitir
de secretário-geral do PS. A grande história é, por vezes, feita de pequenas
coisas.
14 de outubro de 2015
"O céu dos pardais é a barriga dos gatos" (Provérbio)
Carlos do Carmo diz que apoiou, apoia e apoiará António Costa enquanto ele cumprir o que promete.
Carlos do Carmo raciocina e fala com a displicência do povo ingénuo.
Porque o que está em causa não é que alguém cumpra as promessas que fez, mas sim o à custa de quê o faz.
13 de outubro de 2015
Da poesia fala o poeta - 2
Floriano Martins
Poeta, tradutor, ensaísta, operador cultural
no sentido mais salubre do termo, tem presença marcada nas Américas e na
Europa. Foi o curador da Bienal do Ceará (Fortaleza, 2008) e orientou
seminários nos EUA. O seu poemário “Alma em chamas”, publicado em 1998, tem
sido considerado pela crítica atenta como um dos melhores livros dados a lume
no Brasil nos últimos 20 anos.
Do poeta diz o poema:
Do poeta diz o poema:
O TABELIÃO
Um nome para as partes de teu corpo que
emitem fogo,
outro para o rosto que se guarda de tais
chamas.
Um nome que seja para o guia de tuas
pernas flutuantes,
e outro mais para os campos que evitam tua
morada.
Todos estarão felizes com seus nomes. Uns
com mais de um,
outros a ponto de perdê-lo. O nome os
torna quase perfeitos.
Aponta-me um deus sem nome e disto me
encarrego.
Serão belos ou tristes, enfaixados ou
traídos pela corte,
violentos ou angustiados. Há os que se
sentem únicos
e julgam-se renascidos a cada vez que o
nome é pronunciado.
Mesmo sendo iguais, os nomes também são
distintos.
Distribuo-os carregados de ilusões.
Fábulas ou decretos,
rubrica de tudo o que somos ou rejeitamos.
Não te protege
o inferno do nome certo, traje com que
entras em cena.
ENTRADAS
INVISÍVEIS
Meu
pai envelhecido diante do fogo,
árvore
não mais guardada em tremores.
Oh
doce treva, tua idade se extingue
para
sempre? Que obscuro cântico
afasta
o homem do júbilo de sua morte?
Terra
e homem diante do fogo, névoa
a
voz das cinzas. A língua não pode
conter
sua imagem derramada em cal.
Meu
pai, com seu pesado corpo alheio
ao
tempo, parece haver desnudado
o
inferno, aprendido as palavras com que
se
faz o abismo descarnar. Rodeado
por
ávida quietude, o fogo, eterno súdito
de
impiedades, rege o olhar do morto.
Elogio de António Costa
Quem esteve
(eu estive) atento às intervenções políticas de António Costa desde há 20 anos,
percebe que o gosto de aprender é intrínseco ao seu modo de ser e estar na
vida.
Foi assim
que o vimos, no discurso, calmo, quase discreto, à imagem de António Guterres; depois,
secundando José Sócrates, agressivo e tonitruante.
Mais até
do que o camaleão faz com as cores para apanhar a incauta mosca, Costa parece mimetizar-se
no plano das aprendizagens ao ponto de as integrar na sua própria constituição.
O bom
discípulo, como se sabe, é aquele que ultrapassa os mestres. E António Costa é disso um paradigma.
Ontem,
pudemos ouvi-lo falar na “esmagadora maioria” dos votantes de esquerda, imagem de marca nas bocas de… agora não me
lembro de quem.
Porque o
que interessa, neste caso, é que Costa é, de sua raiz verdadeira, uma estrela
brilhante no céu de Lenine, seu mestre primeiro e último, por muito que possam querer
denegrir um e outro.
Lenine que nos incentivava a “Aprender, aprender, aprender sempre!”, pois que "só a Verdade é revolucionária”. E que não se esqueceu de a definir como sendo “o que convém à classe
operária”.
Honra,
pois, a António Costa, que muito ela falta a esta nossa democracia!
12 de outubro de 2015
"Costa no seu labirinto"
Maria de Fátima Bonifácio dizia ontem assim, no Observador:
«Parto para a análise da
intrincadíssima situação em que o País mergulhou, pela mão traiçoeira de Costa,
de quatro dados que ou têm sido omitidos ou pouco valorizados. São, para mim,
dados essenciais e decisivos. Essenciais significa essenciais. Decisivos significa
que determinaram tudo até agora e continuarão a determinar no futuro. Apenas
não sei qual é o limite temporal deste futuro, nem qual será o seu desfecho.
Esses dados são:
1º. Costa é um homem
absolutamente desesperado.
2º. Costa já não tem nada, mas
mesmo nada de nada a perder.
3º. Tudo o que não seja
chegar a primeiro ministro não basta para o salvar.
4º. Costa não tem carácter,
não é homem de palavra, não olha a meios.
O desespero é mau conselheiro
em todas as circunstâncias. No caso de Costa, em que o desespero ainda por cima
se conjuga com o vexame pessoal, a primeiríssima prioridade do ex-Messias é
salvar a sua pele, custe o que custar, doa a quem doer, pague quem pagar. País,
partido, eleitores e simpatizantes foram banidos do perímetro das suas
preocupações, no interior do qual ele esbraveja como um náufrago para se
salvar. Está disposto a tudo, a renegar tudo, a arrasar tudo, desde que ele se
erga dos escombros – e escombros já há – e possa anunciar: venci todos, ganhei
tudo! Da plateia do seu palco imaginário, o PCP e o Bloco soltarão uma sonora
gargalhada. O triunfo anunciado por Costa repousa por inteiro nas mãos deles.
No momento propício e oportuno para cada um destes dois adversários entre si,
cada um deles lhe puxará o tapete para que todos possam ver que “o rei vai nu”.
Costa já não tem nada a
perder. Jogou tudo, apostou tudo naquele fatídico dia em que escarneceu da
vitória “poucochinha” por que Seguro ganhara as europeias à Coligação. Ficou
obrigatoriamente comprometido com o imperativo irrevogável de lhe contrapor um
triunfo esmagador nas legislativas de 2015. Durante um ano andou levado em
ombros, empunhando a taça dos vencedores, muito antes de ter vencido e de a
batalha começar. Perdeu abjectamente. A muito ténue esperança que lhe restava
(ou já nem isso ?) a poucos dias do 4 de Outubro transmutou-se num ápice numa
tormenta. O vexame era insuportável. De uma penada, perdia um curriculum de
décadas, o sonho de uma vida, um presente triunfal, e diante de si abria-se um
futuro vazio. É formado em Direito, mas não é jurista, e teria de recomeçar a
advocacia por um segundo estágio. Não exerce profissão para que se possa virar.
Aos cinquenta e quatro anos já não se pode começar nada. Sem um passado sobre o
qual se continue a construir para a frente, o resto da vida não passará de um
frustrante remedeio. Ou seja, não é vida. A solução para este desastre pessoal
surgiu rápida: não vencera as eleições, mas ainda podia vencer o eleitorado.
Nos dias que se seguiram ao
tétrico veredicto das urnas, Costa entrou na sua, muito dele, “espiral
labiríntica”. Em abono da verdade, já antes dera sinais: anunciara que
chumbaria qualquer Orçamento de Estado que a Coligação apresentasse, no caso,
enunciado como mera hipótese académica, de o “seu” PS não vencer com a maioria
absoluta que diariamente implorava aos portugueses. Na noite televisiva, Costa
apresentou-se amarelado e com ar grave. Declarou que não faria “coligações
negativas”, das que servem só para bota-abaixo. Mas não tardou a ser ele mesmo:
com sorriso aberto e ar galhofeiro, garantiu à audiência que não se demitiria…
Percebeu-se que se extinguira nele qualquer vestígio, ténue ou remoto, da mais
elementar dignidade. E logo a partir de 5 de Outubro percebeu-se também, à
medida que muitos socialistas começavam a rosnar, que em seu entender havia uma
única coisa que o poderia ainda salvar: chegar, efectivamente, a primeiro-ministro de Portugal.
Tudo o que fosse um milímetro menos disto não bastava, não dava para as
necessidades (já direi quais eram). Tornar-se o mero líder de uma bancada
comprometida com um “entendimento” com o governo Passos Coelho/Paulo Portas?
Nem pensar.
Vamos então pôr mãos à obra e
vencer o eleitorado. Um político honrado não faz uma coisa tão feia? Mas Costa
já fizera coisas feíssimas! Como acontece com qualquer droga, o pior é começar:
o vício entranha-se e naturaliza-se imediatamente. Em Fevereiro de 2013
assinara com Seguro o Documento de Coimbra, “Portugal Primeiro”, para o qual
disse que tinha contribuído e no qual também disse que se revia. Deu “os
parabéns” a Seguro pelo “entendimento” a que se chegara e desistiu da sua
candidatura a secretário-geral. Este documento de orientação estratégica,
assinado por Costa e Seguro, foi aprovado pela Comissão Política do PS e
serviria de base à moção de estratégia aprovada no Congresso do PS de 26-28 de
Abril. Costa discursou: “Estamos aqui juntos, juntos somos fortes, juntos somos
imbatíveis, juntos venceremos tudo: autárquicas, europeias e legislativas.”
Oito meses depois, em Janeiro
de 2014, Costa rasga o Documento de Coimbra assinado por si, renuncia ao
mandato de Presidente da CMP que jurara cumprir até ao fim. E o resto já toda a
gente sabe: ganhou por margem albanesa as primárias e defenestrou Seguro do
Rato. Calçou os patins e durante algum tempo encontrou piso liso e
desembaraçado. Ao primeiro teste à sua envergadura, falhou logo. António Nóvoa
saiu-lhe ao caminho com muita poesia, candura e total abertura: outro homem
disposto a tudo para chegar a Belém, com poucos escrúpulos (não sabia se era
crente, nem se gostava mais do PS ou do PC), muitíssima ambição disfarçada de
modéstia, e completa abertura: venha um governo de esquerda, acabe-se com esse
aberrante “arco da governação”. Problema: Nóvoa dividia o PS. Solução: um dia
sim, outro dia não. Nóvoa ficou a cozer em lume brando para o que desse e
viesse. E ainda hoje não se fartou de servir de roda sobresselente; outro homem
de carácter.
Costa contratou Centeno para
lhe dar números que ele não percebia. Who cares? Tinha números, tratava as
coisas a sério. O generoso programa assente em tão claros números era sólido.
Provavam matematicamente que a austeridade era dispensável sem com isso
comprometer as obrigações para com a Europa, o Euro e o Tratado Orçamental. Mas
a esquerda dentro do PS logo descobriu, sob o fresco verniz socialista de
Centeno, um economista neo-liberal. Disto mesmo se queixava o Bloco, e também o
PC: Costa não tinha a coragem de “cortar com as políticas de direita” com que o
PS desde sempre andara amancebado. Costa encheu-se de mais coragem. A poucos
dias do fim da campanha eleitoral deu uma valente guinada para a
extrema-esquerda. E no dia seguinte às eleições perdidas, encheu-se da coragem
toda: declarou guerra contra os eleitores.
Tenho-o visto como os grandes
campeões de xadrez que se deslocam de mesa em mesa jogando com vários parceiros
ao mesmo tempo. Mas Costa não é campeão de nada (com a possível excepção de um
sórdido tacticismo). Transformou-se num pedinte que mendiga apoio para um
governo seu. Renega a Tradição do PS como fronteira da liberdade e arrasta o
partido pelo chão até às moradas dos seus piores inimigos. Nada disto o
envergonha. E, espantosamente, não lhe ocorre que o feitiço se possa virar
contra o feiticeiro. A primeira porta a que bateu foi a do PC, catedrático da
astúcia estalinista. Jerónimo, aconselhado pelo ainda mais indefectível
Francisco Lopes, mostrou-se afável, tolerante, aberto, com a singela condição
de que o PS “corte com as políticas de direita” que ao longo das décadas têm
feito dele um servo do Capital. Costa saiu satisfeito, a reunião foi “muito
positiva”. Ou seja, muito naturalmente, da noite para o dia, o PCP fizera uma
transfusão de sangue e eliminara Cunhal, a Tradição e Toda a Tralha
Estalinista. Costa meteu-se pela boca do lobo dentro e pediu o Diabo em
casamento. Mas necessita de bigamia, porque os deputados comunistas não bastam.
Amanhã, segunda, ainda terá de levar o PS a rastejar até à morada do Bloco.
Disse que já havia escombros.
O PS sempre foi um partido com uma ala mais centrista e uma ala mais a puxar à
esquerda. Sócrates deixou lá dentro uma facção própria que complicou esta
antiga arrumação a que todos estavam habituados. Mas com António Costa, o
Partido Socialista está inextricavelmente balcanizado: são os socratistas, os
alegristas, os seguristas, os galambistas, os soaristas de Mário e de João
Soares, alguma “tralha guterrista”, e, surpresa das surpresas, os novíssimos
“nunistas”. Sim, nunistas, uma seita ruidosa cujo representante máximo, um tal
Pedro Nuno Santos, Costa leva sempre consigo na augusta delegação socialista
que peregrina pelas outras sedes partidárias. Galamba há muito que se
celebrizou por ser sempre uma espinha cravada da garganta de qualquer moderado.
De Nuno Santos só me lembro do momento em que berrou no Parlamento, com
hercúlea coragem, “Quero lá saber da Troika ou da Europa!” Pelos vistos,
singrou. Finalmente, há pelo menos ainda um grupo de “costistas”. Mas quem são,
afinal, os costistas? Indaguei junto dos meus amigos socialistas (que são a
maioria). Ninguém me soube dizer ao certo. Concluí, portanto, por minha conta e
risco. “Costistas” são todos aqueles que se servem de António Costa para que
ele usurpe o poder contra o eleitorado e lhes devolva a “importância”, os
“lugares”, as prebendas e o acesso ao “spoils system” a que já se tinham
habituado. Uma excepção honrosa cumpre desde já destacar: Sérgio Sousa Pinto
não teve estômago para semelhante caldeirada. Demitiu-se ontem do secretariado
do PS.
Toda esta tropa heterogéna só
perdoará a Costa a hecatombe em que lançou o partido se for transitória e
rapidamente invertida. Costa carece do seu apoio para conferir existência
coerente ao “costismo” e dispor de novo de um partido submetido à sua
autoridade, que aliás nunca chegou a ser indiscutível. Para tanto, precisa de
ser primeiro-ministro. Menos um milímetro do que isto já não lhe chega para
salvar a sua pele. Pague quem pagar, pague o PS e o País todo. Porque se lá
chegar, a história ainda estará muito longe de terminada.»
Só podes comer presunto se me deres o teu pescoço
Esta coisa de se pedir
"refúgio" no território daquele, que, diariamente e ostensivamente é
acusado de infiel e inimigo, é uma história para tontos.
De facto, nos territórios-refúgio, tontos
indígenas não faltam a sentenciarem pomposamente os ditos infiéis-inimigos de
provocarem a ira dos adoradores de fumeiro de pescoço alheio.
11 de outubro de 2015
A peste a seu dono
A imoralidade não é uma ferramenta do marxismo. Falar-se em imoralidade no caso de marxistas é levar-se a moral para o campo do marxismo, uma espécie de contaminação da moral, por poder, eventualmente, morar na cabeça de marxistas.
Os marxistas não são imorais. São amorais.
10 de outubro de 2015
A panaceia dos tontos
"Mais europa", mais
parvoíce.
"Mais
europa" trouxe a insipiência à Europa, a irrelevância política, a
estagnação da economia no reino komissarial.
A
"europa" hoje, junta, vale menos que anteriormente a França sozinha,
a Inglaterra sozinha, a Alemanha sozinha, a Itália sozinha, a Espanha sozinha.
Na
"mais europa" o reino é dos tontos, e... "mais europa"
continua a ser a panaceia.
"Carta à JSD sobre os centros históricos das cidades"
Escher, Balcão
Julguei interessante transcrever este texto que Margarida Bentes Penedo, publicou aqui, quatro anos atrás.
«Os centros
históricos das cidades portuguesas têm vindo a morrer.
Sucessivos
governos, tanto centrais como locais, não conseguiram resistir a duas tentações
perigosas. A primeira foi a da promiscuidade com os grandes
promotores imobiliários. A segunda foi "deixar obra". Uma e
outra conduziram ao desvio de massa construída para os subúrbios das cidades,
onde havia espaço. Não só havia espaço como este era relativamente barato.
Compravam-se terrenos agrícolas, faziam-se uns truques com os Planos Directores
Municipais, alteravam-se as manchas de ocupação, convertia-se aquilo em zona
urbana e estava encomendado mais um conjunto de fogos. O objectivo de fazer política
social de habitação à custa da banca arruinou o mercado de arrendamento e
elevou a aquisição de casa própria a níveis delirantes. Hoje ninguém consegue
pagar as prestações e olhamos para um país repleto de trambolhos devolutos.
Enquanto isto
acontecia, os centros históricos ficaram quase exclusivamente entregues à
iniciativa de particulares. Aí o Estado actuou de outra maneira. Criou
gabinetes técnicos (muitas vezes empresas municipais, as famosas Sociedades de
Reabilitação Urbana) destinados à defesa (contra quê?) das chamadas "zonas
sensíveis". Inventou toda a espécie de entraves ao licenciamento
urbanístico. Acrescentou a complexidade da regulamentação, a morosidade
das respostas, os valores absurdos das taxas e impostos e o último recurso
dos incompetentes: meter o nariz em tudo e colocar as decisões ao nível do
"gosto" (isto assim fica um bocadinho desenquadrado, ficava mais
bonito se as mansardas fossem em telha, porque é que não se tira este
revestimento e se põe antes um que seja mais a condizer com a "traça
antiga", etc.). Este "gosto" foi debatido de um lado da mesa por
arquitectos municipais que nunca exerceram a profissão, e do outro lado por
artistas saídos em tabuleiros das dezenas de faculdades de arquitectura que, com
a escassez de trabalho e deficiência de formação, estavam desejosos de
"deixar marca". Assim nasceram uma série de híbridos negociados de
forma a garantir que o resultado final era caríssimo, ia contra a vontade de
todos e tinha o parecer favorável das entidades competentes. Quem se meteu
nisso uma vez, raramente repetiu. Na impossibilidade de rentabilizar o seu
património, muitas vezes envolvido em processos complicados de natureza
cadastral, as pessoas foram desistindo. E o interesse público que o Estado
devia defender transformou-se em desinteresse generalizado.
Este processo
não se inverte com propostas pueris.
Importa que o
Estado comece por reabilitar os seu imóveis devolutos (em Lisboa, por exemplo,
é o maior proprietário). E para se dar ao respeito, tem que reabilitar estes
imóveis no mais absoluto cumprimento da legislação que obriga os particulares a
cumprir. Importa que o Estado cumpra também os prazos legalmente estipulados
para resposta aos pedidos de licenciamento. Que torne claros, públicos e
razoáveis os valores que cobra pelas operações urbanísticas. Que reforme a
legislação que regula a reabilitação de edifícios, designadamente a das
acessibilidades e a do comportamento térmico, de modo a garantir que a mesma
seja inteligível, aplicável e sensata. E que valide as opções conjuntas dos
proprietários e dos técnicos responsáveis pelos projectos e pelas obras,
limitando-se a fazer a verificação da conformidade regulamentar.
As cidades mais
interessantes, mais confortáveis e mais civilizadas evoluiram sempre de forma
orgânica, mais apoiadas na manutenção do que na construção. Responderam às
necessidades de cada geração sem impedirem que as gerações seguintes pudessem
responder às suas. Chama-se a isto sustentabilidade.
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