14 de outubro de 2015

"O céu dos pardais é a barriga dos gatos" (Provérbio)



    Carlos do Carmo diz que apoiou, apoia e apoiará António Costa enquanto ele cumprir o que promete.

    Carlos do Carmo raciocina e fala com a displicência do povo ingénuo.

    Porque o que está em causa não é que alguém cumpra as promessas que fez, mas sim o à custa de quê o faz.

13 de outubro de 2015

Da poesia fala o poeta - 2


Floriano Martins

  Poeta, tradutor, ensaísta, operador cultural no sentido mais salubre do termo, tem presença marcada nas Américas e na Europa. Foi o curador da Bienal do Ceará (Fortaleza, 2008) e orientou seminários nos EUA. O seu poemário “Alma em chamas”, publicado em 1998, tem sido considerado pela crítica atenta como um dos melhores livros dados a lume no Brasil nos últimos 20 anos.

Do poeta diz o poema:


O TABELIÃO


Um nome para as partes de teu corpo que emitem fogo,
outro para o rosto que se guarda de tais chamas.
Um nome que seja para o guia de tuas pernas flutuantes,
e outro mais para os campos que evitam tua morada.
Todos estarão felizes com seus nomes. Uns com mais de um,
outros a ponto de perdê-lo. O nome os torna quase perfeitos.
Aponta-me um deus sem nome e disto me encarrego.
Serão belos ou tristes, enfaixados ou traídos pela corte,
violentos ou angustiados. Há os que se sentem únicos
e julgam-se renascidos a cada vez que o nome é pronunciado.
Mesmo sendo iguais, os nomes também são distintos.
Distribuo-os carregados de ilusões. Fábulas ou decretos,
rubrica de tudo o que somos ou rejeitamos. Não te protege
o inferno do nome certo, traje com que entras em cena.




ENTRADAS INVISÍVEIS


Meu pai envelhecido diante do fogo,
árvore não mais guardada em tremores.
Oh doce treva, tua idade se extingue
para sempre? Que obscuro cântico
afasta o homem do júbilo de sua morte?
Terra e homem diante do fogo, névoa
a voz das cinzas. A língua não pode
conter sua imagem derramada em cal.
Meu pai, com seu pesado corpo alheio
ao tempo, parece haver desnudado
o inferno, aprendido as palavras com que
se faz o abismo descarnar. Rodeado
por ávida quietude, o fogo, eterno súdito
de impiedades, rege o olhar do morto.

Elogio de António Costa



    Quem esteve (eu estive) atento às intervenções políticas de António Costa desde há 20 anos, percebe que o gosto de aprender é intrínseco ao seu modo de ser e estar na vida.

    Foi assim que o vimos, no discurso, calmo, quase discreto, à imagem de António Guterres; depois, secundando José Sócrates, agressivo e tonitruante.

    Mais até do que o camaleão faz com as cores para apanhar a incauta mosca, Costa parece mimetizar-se no plano das aprendizagens ao ponto de as integrar na sua própria constituição.

    O bom discípulo, como se sabe, é aquele que ultrapassa os mestres. E António Costa é disso um paradigma.

    Ontem, pudemos ouvi-lo falar na “esmagadora maioria” dos votantes de esquerda, imagem de marca nas bocas de… agora não me lembro de quem.

    Porque o que interessa, neste caso, é que Costa é, de sua raiz verdadeira, uma estrela brilhante no céu de Lenine, seu mestre primeiro e último, por muito que possam querer denegrir um e outro.

    Lenine que nos incentivava a “Aprender, aprender, aprender sempre!”, pois que "só a Verdade é revolucionária”. E que não se esqueceu de a definir como sendo “o que convém à classe operária”.

    Honra, pois, a António Costa, que muito ela falta a esta nossa democracia!

12 de outubro de 2015

"Costa no seu labirinto"



Maria de Fátima Bonifácio dizia ontem assim, no Observador:

«Parto para a análise da intrincadíssima situação em que o País mergulhou, pela mão traiçoeira de Costa, de quatro dados que ou têm sido omitidos ou pouco valorizados. São, para mim, dados essenciais e decisivos. Essenciais significa essenciais. Decisivos significa que determinaram tudo até agora e continuarão a determinar no futuro. Apenas não sei qual é o limite temporal deste futuro, nem qual será o seu desfecho. Esses dados são:
1º. Costa é um homem absolutamente desesperado.
2º. Costa já não tem nada, mas mesmo nada de nada a perder.
3º. Tudo o que não seja chegar a primeiro ministro não basta para o salvar.
4º. Costa não tem carácter, não é homem de palavra, não olha a meios.
O desespero é mau conselheiro em todas as circunstâncias. No caso de Costa, em que o desespero ainda por cima se conjuga com o vexame pessoal, a primeiríssima prioridade do ex-Messias é salvar a sua pele, custe o que custar, doa a quem doer, pague quem pagar. País, partido, eleitores e simpatizantes foram banidos do perímetro das suas preocupações, no interior do qual ele esbraveja como um náufrago para se salvar. Está disposto a tudo, a renegar tudo, a arrasar tudo, desde que ele se erga dos escombros – e escombros já há – e possa anunciar: venci todos, ganhei tudo! Da plateia do seu palco imaginário, o PCP e o Bloco soltarão uma sonora gargalhada. O triunfo anunciado por Costa repousa por inteiro nas mãos deles. No momento propício e oportuno para cada um destes dois adversários entre si, cada um deles lhe puxará o tapete para que todos possam ver que “o rei vai nu”.
Costa já não tem nada a perder. Jogou tudo, apostou tudo naquele fatídico dia em que escarneceu da vitória “poucochinha” por que Seguro ganhara as europeias à Coligação. Ficou obrigatoriamente comprometido com o imperativo irrevogável de lhe contrapor um triunfo esmagador nas legislativas de 2015. Durante um ano andou levado em ombros, empunhando a taça dos vencedores, muito antes de ter vencido e de a batalha começar. Perdeu abjectamente. A muito ténue esperança que lhe restava (ou já nem isso ?) a poucos dias do 4 de Outubro transmutou-se num ápice numa tormenta. O vexame era insuportável. De uma penada, perdia um curriculum de décadas, o sonho de uma vida, um presente triunfal, e diante de si abria-se um futuro vazio. É formado em Direito, mas não é jurista, e teria de recomeçar a advocacia por um segundo estágio. Não exerce profissão para que se possa virar. Aos cinquenta e quatro anos já não se pode começar nada. Sem um passado sobre o qual se continue a construir para a frente, o resto da vida não passará de um frustrante remedeio. Ou seja, não é vida. A solução para este desastre pessoal surgiu rápida: não vencera as eleições, mas ainda podia vencer o eleitorado.
Nos dias que se seguiram ao tétrico veredicto das urnas, Costa entrou na sua, muito dele, “espiral labiríntica”. Em abono da verdade, já antes dera sinais: anunciara que chumbaria qualquer Orçamento de Estado que a Coligação apresentasse, no caso, enunciado como mera hipótese académica, de o “seu” PS não vencer com a maioria absoluta que diariamente implorava aos portugueses. Na noite televisiva, Costa apresentou-se amarelado e com ar grave. Declarou que não faria “coligações negativas”, das que servem só para bota-abaixo. Mas não tardou a ser ele mesmo: com sorriso aberto e ar galhofeiro, garantiu à audiência que não se demitiria… Percebeu-se que se extinguira nele qualquer vestígio, ténue ou remoto, da mais elementar dignidade. E logo a partir de 5 de Outubro percebeu-se também, à medida que muitos socialistas começavam a rosnar, que em seu entender havia uma única coisa que o poderia ainda salvar: chegar, efectivamente, a primeiro-ministro de Portugal. Tudo o que fosse um milímetro menos disto não bastava, não dava para as necessidades (já direi quais eram). Tornar-se o mero líder de uma bancada comprometida com um “entendimento” com o governo Passos Coelho/Paulo Portas? Nem pensar.
Vamos então pôr mãos à obra e vencer o eleitorado. Um político honrado não faz uma coisa tão feia? Mas Costa já fizera coisas feíssimas! Como acontece com qualquer droga, o pior é começar: o vício entranha-se e naturaliza-se imediatamente. Em Fevereiro de 2013 assinara com Seguro o Documento de Coimbra, “Portugal Primeiro”, para o qual disse que tinha contribuído e no qual também disse que se revia. Deu “os parabéns” a Seguro pelo “entendimento” a que se chegara e desistiu da sua candidatura a secretário-geral. Este documento de orientação estratégica, assinado por Costa e Seguro, foi aprovado pela Comissão Política do PS e serviria de base à moção de estratégia aprovada no Congresso do PS de 26-28 de Abril. Costa discursou: “Estamos aqui juntos, juntos somos fortes, juntos somos imbatíveis, juntos venceremos tudo: autárquicas, europeias e legislativas.”

Oito meses depois, em Janeiro de 2014, Costa rasga o Documento de Coimbra assinado por si, renuncia ao mandato de Presidente da CMP que jurara cumprir até ao fim. E o resto já toda a gente sabe: ganhou por margem albanesa as primárias e defenestrou Seguro do Rato. Calçou os patins e durante algum tempo encontrou piso liso e desembaraçado. Ao primeiro teste à sua envergadura, falhou logo. António Nóvoa saiu-lhe ao caminho com muita poesia, candura e total abertura: outro homem disposto a tudo para chegar a Belém, com poucos escrúpulos (não sabia se era crente, nem se gostava mais do PS ou do PC), muitíssima ambição disfarçada de modéstia, e completa abertura: venha um governo de esquerda, acabe-se com esse aberrante “arco da governação”. Problema: Nóvoa dividia o PS. Solução: um dia sim, outro dia não. Nóvoa ficou a cozer em lume brando para o que desse e viesse. E ainda hoje não se fartou de servir de roda sobresselente; outro homem de carácter.
Costa contratou Centeno para lhe dar números que ele não percebia. Who cares? Tinha números, tratava as coisas a sério. O generoso programa assente em tão claros números era sólido. Provavam matematicamente que a austeridade era dispensável sem com isso comprometer as obrigações para com a Europa, o Euro e o Tratado Orçamental. Mas a esquerda dentro do PS logo descobriu, sob o fresco verniz socialista de Centeno, um economista neo-liberal. Disto mesmo se queixava o Bloco, e também o PC: Costa não tinha a coragem de “cortar com as políticas de direita” com que o PS desde sempre andara amancebado. Costa encheu-se de mais coragem. A poucos dias do fim da campanha eleitoral deu uma valente guinada para a extrema-esquerda. E no dia seguinte às eleições perdidas, encheu-se da coragem toda: declarou guerra contra os eleitores.
Tenho-o visto como os grandes campeões de xadrez que se deslocam de mesa em mesa jogando com vários parceiros ao mesmo tempo. Mas Costa não é campeão de nada (com a possível excepção de um sórdido tacticismo). Transformou-se num pedinte que mendiga apoio para um governo seu. Renega a Tradição do PS como fronteira da liberdade e arrasta o partido pelo chão até às moradas dos seus piores inimigos. Nada disto o envergonha. E, espantosamente, não lhe ocorre que o feitiço se possa virar contra o feiticeiro. A primeira porta a que bateu foi a do PC, catedrático da astúcia estalinista. Jerónimo, aconselhado pelo ainda mais indefectível Francisco Lopes, mostrou-se afável, tolerante, aberto, com a singela condição de que o PS “corte com as políticas de direita” que ao longo das décadas têm feito dele um servo do Capital. Costa saiu satisfeito, a reunião foi “muito positiva”. Ou seja, muito naturalmente, da noite para o dia, o PCP fizera uma transfusão de sangue e eliminara Cunhal, a Tradição e Toda a Tralha Estalinista. Costa meteu-se pela boca do lobo dentro e pediu o Diabo em casamento. Mas necessita de bigamia, porque os deputados comunistas não bastam. Amanhã, segunda, ainda terá de levar o PS a rastejar até à morada do Bloco.
Disse que já havia escombros. O PS sempre foi um partido com uma ala mais centrista e uma ala mais a puxar à esquerda. Sócrates deixou lá dentro uma facção própria que complicou esta antiga arrumação a que todos estavam habituados. Mas com António Costa, o Partido Socialista está inextricavelmente balcanizado: são os socratistas, os alegristas, os seguristas, os galambistas, os soaristas de Mário e de João Soares, alguma “tralha guterrista”, e, surpresa das surpresas, os novíssimos “nunistas”. Sim, nunistas, uma seita ruidosa cujo representante máximo, um tal Pedro Nuno Santos, Costa leva sempre consigo na augusta delegação socialista que peregrina pelas outras sedes partidárias. Galamba há muito que se celebrizou por ser sempre uma espinha cravada da garganta de qualquer moderado. De Nuno Santos só me lembro do momento em que berrou no Parlamento, com hercúlea coragem, “Quero lá saber da Troika ou da Europa!” Pelos vistos, singrou. Finalmente, há pelo menos ainda um grupo de “costistas”. Mas quem são, afinal, os costistas? Indaguei junto dos meus amigos socialistas (que são a maioria). Ninguém me soube dizer ao certo. Concluí, portanto, por minha conta e risco. “Costistas” são todos aqueles que se servem de António Costa para que ele usurpe o poder contra o eleitorado e lhes devolva a “importância”, os “lugares”, as prebendas e o acesso ao “spoils system” a que já se tinham habituado. Uma excepção honrosa cumpre desde já destacar: Sérgio Sousa Pinto não teve estômago para semelhante caldeirada. Demitiu-se ontem do secretariado do PS.

Toda esta tropa heterogéna só perdoará a Costa a hecatombe em que lançou o partido se for transitória e rapidamente invertida. Costa carece do seu apoio para conferir existência coerente ao “costismo” e dispor de novo de um partido submetido à sua autoridade, que aliás nunca chegou a ser indiscutível. Para tanto, precisa de ser primeiro-ministro. Menos um milímetro do que isto já não lhe chega para salvar a sua pele. Pague quem pagar, pague o PS e o País todo. Porque se lá chegar, a história ainda estará muito longe de terminada.»

Só podes comer presunto se me deres o teu pescoço



Esta coisa de se pedir "refúgio" no território daquele, que, diariamente e ostensivamente é acusado de infiel e inimigo, é uma história para tontos.


De facto, nos territórios-refúgio, tontos indígenas não faltam a sentenciarem pomposamente os ditos infiéis-inimigos de provocarem a ira dos adoradores de fumeiro de pescoço alheio.

11 de outubro de 2015

A peste a seu dono



A imoralidade não é uma ferramenta do marxismo. Falar-se em imoralidade no caso de marxistas é levar-se a moral para o campo do marxismo, uma espécie de contaminação da moral, por poder, eventualmente, morar na cabeça de marxistas.

Os marxistas não são imorais. São amorais.

10 de outubro de 2015

A panaceia dos tontos




"Mais europa", mais parvoíce.

"Mais europa" trouxe a insipiência à Europa, a irrelevância política, a estagnação da economia no reino komissarial.

A "europa" hoje, junta, vale menos que anteriormente a França sozinha, a Inglaterra sozinha, a Alemanha sozinha, a Itália sozinha, a Espanha sozinha.

Na "mais europa" o reino é dos tontos, e... "mais europa" continua a ser a panaceia.


"Carta à JSD sobre os centros históricos das cidades"


Escher, Balcão

Julguei interessante transcrever este texto que Margarida Bentes Penedo, publicou aqui, quatro anos atrás. 

«Os centros históricos das cidades portuguesas têm vindo a morrer.

Sucessivos governos, tanto centrais como locais, não conseguiram resistir a duas tentações perigosas. A primeira foi a da promiscuidade com os grandes promotores imobiliários. A segunda foi "deixar obra". Uma e outra conduziram ao desvio de massa construída para os subúrbios das cidades, onde havia espaço. Não só havia espaço como este era relativamente barato. Compravam-se terrenos agrícolas, faziam-se uns truques com os Planos Directores Municipais, alteravam-se as manchas de ocupação, convertia-se aquilo em zona urbana e estava encomendado mais um conjunto de fogos. O objectivo de fazer política social de habitação à custa da banca arruinou o mercado de arrendamento e elevou a aquisição de casa própria a níveis delirantes. Hoje ninguém consegue pagar as prestações e olhamos para um país repleto de trambolhos devolutos.

Enquanto isto acontecia, os centros históricos ficaram quase exclusivamente entregues à iniciativa de particulares. Aí o Estado actuou de outra maneira. Criou gabinetes técnicos (muitas vezes empresas municipais, as famosas Sociedades de Reabilitação Urbana) destinados à defesa (contra quê?) das chamadas "zonas sensíveis". Inventou toda a espécie de entraves ao licenciamento urbanístico. Acrescentou a complexidade da regulamentação, a morosidade das respostas, os valores absurdos das taxas e impostos e o último recurso dos incompetentes: meter o nariz em tudo e colocar as decisões ao nível do "gosto" (isto assim fica um bocadinho desenquadrado, ficava mais bonito se as mansardas fossem em telha, porque é que não se tira este revestimento e se põe antes um que seja mais a condizer com a "traça antiga", etc.). Este "gosto" foi debatido de um lado da mesa por arquitectos municipais que nunca exerceram a profissão, e do outro lado por artistas saídos em tabuleiros das dezenas de faculdades de arquitectura que, com a escassez de trabalho e deficiência de formação, estavam desejosos de "deixar marca". Assim nasceram uma série de híbridos negociados de forma a garantir que o resultado final era caríssimo, ia contra a vontade de todos e tinha o parecer favorável das entidades competentes. Quem se meteu nisso uma vez, raramente repetiu. Na impossibilidade de rentabilizar o seu património, muitas vezes envolvido em processos complicados de natureza cadastral, as pessoas foram desistindo. E o interesse público que o Estado devia defender transformou-se em desinteresse generalizado.

Este processo não se inverte com propostas pueris.

Importa que o Estado comece por reabilitar os seu imóveis devolutos (em Lisboa, por exemplo, é o maior proprietário). E para se dar ao respeito, tem que reabilitar estes imóveis no mais absoluto cumprimento da legislação que obriga os particulares a cumprir. Importa que o Estado cumpra também os prazos legalmente estipulados para resposta aos pedidos de licenciamento. Que torne claros, públicos e razoáveis os valores que cobra pelas operações urbanísticas. Que reforme a legislação que regula a reabilitação de edifícios, designadamente a das acessibilidades e a do comportamento térmico, de modo a garantir que a mesma seja inteligível, aplicável e sensata. E que valide as opções conjuntas dos proprietários e dos técnicos responsáveis pelos projectos e pelas obras, limitando-se a fazer a verificação da conformidade regulamentar.

As cidades mais interessantes, mais confortáveis e mais civilizadas evoluiram sempre de forma orgânica, mais apoiadas na manutenção do que na construção. Responderam às necessidades de cada geração sem impedirem que as gerações seguintes pudessem responder às suas. Chama-se a isto sustentabilidade.

"Um mau professor não pode continuar na sala de aula"




Mais do que de acordo. Mas... o que é um mau professor? E no que respeita aos maus alunos?

9 de outubro de 2015

"A lógica da batata"


Escher, Drawing Hands

Estava eu a preparar-me a preparar-me para escrever algumas linhas sobre a nova novidade inovadora (e que, no entanto, seria tão velha como o mundo), consubstanciada na palavra de ordem que percorre o país com a habitual potência canora, propriedade privada dos amanhãs que cantam, a saber: que os partidos políticos são como o Pai Natal, não existem; que as pessoas não sabem, mas votam em tendências, não em partidos; e que, ao fim de 41 anos, atingiram por fim a maturidade em que a verdade lhes pode e deve ser revelada - eis senão quando vejo que Paulo Ferreira, no Observador, me tinha poupado o trabalho. Aqui fica o que ele disse sobre a coisa.


Enquanto António Costa se transforma no protagonista pós-eleitoral e prossegue a sua coreografia, como se estivesse a formar governo, alinham-se as propostas sobre a composição partidária que deve suportar o próximo executivo. O absurdo é tanto que às vezes é preciso regressar ao mais básico. É o que tento fazer hoje.

1 – Quando um partido ou coligação não recolhe a maioria dos votos expressos então uma maioria de eleitores preferia uma de outras candidaturas. Isto não tem nada a ver com ciência política, com leituras da Constituição ou com alinhamentos ideológicos ou partidários. Isto é a mais básica aritmética, entendível até por uma criança do primeiro ciclo. Não tem nada de novo e acontece sempre, mas sempre, que um partido ganha sem maioria absoluta. A aritmética nunca nos falha.

2 – Para não ir mais longe até aos primórdios da democracia, isto aconteceu com Cavaco Silva em 1985, com António Guterres em 1995 e 1999, com Durão Barroso em 2002, com José Sócrates em 2009 e com Pedro Passos Coelho em 2011 e 2015. Todos estes políticos têm uma coisa em comum: foram primeiro-ministro após eleições que venceram mas em que uma maioria de eleitores teria preferido outros candidatos a chefe de governo. Governaram quando uma maioria de eleitores queria aquilo que se pode chamar uma “mudança de política”. E não me lembro de alguma vez, nos seis casos passados, ter sido sequer colocada a hipótese se não ser qualquer deles a formar governo.

3 – Sem maioria absoluta, estes líderes partidários lidaram com essa circunstância de forma diversa. Cavaco e Sócrates governaram sem maioria no Parlamento e acabaram por cair, um derrubado por uma moção de censura aprovada pela maioria das oposições, outro demitindo-se na sequência de um chumbo do PEC pelas oposições na AR. António Guterres terminou a primeira legislatura e demitiu-se a meio da segunda. Durão Barroso e Passos Coelho fizeram coligações pós-eleitorais com o CDS. Barroso saiu depois para Bruxelas e o seu sucessor, Pedro Santana Lopes, acabou por ser demitido pelo presidente Jorge Sampaio. E Passos Coelho terminou a legislatura passada. 

4 – Já tivemos, portanto, de tudo um pouco: coligações pré e pós-eleitorais, governos minoritários que sobrevivem e outros que caem. Até tivemos um primeiro-ministro que não foi a votos mas que foi empossado pelo Presidente da República: Santana Lopes. Mas sempre houve uma regra: quem forma governo é o líder do partido mais votado, que se apresenta nas eleições como candidato a primeiro-ministro. O apoio parlamentar que os vitoriosos minoritários depois conseguem agregar é uma questão pós-eleitoral de negociações partidárias e parlamentares.

5 – O que nunca tivemos na sequência de um acto eleitoral foi a formação de um governo liderado por um partido que não tenha sido o mais votado. Colocar esse cenário configura uma deturpação de toda a prática política passada que nunca foi questionada em sete das dez eleições legislativas que tivemos nos últimos 30 anos.

6 – O argumento chega a ser infantil: uma maioria de eleitores querem uma política diferente da defendida pela coligação PSD/CDS. Claro. Como também em 1985, 1995, 1999, 2002, 2009 e 2011 queriam uma política diferente da que o vencedor propunha. É lógico: quando mais de 50% dos eleitores vota numa candidatura que não foi a mais votada é porque não a quer no governo, senão tinha votado nela.

7 – Regressemos então à aritmética para este caso concreto. O argumento é: deve ser formado um governo liderado pelo PS porque houve uma maioria de eleitores, no caso de 61,5%, que rejeitaram o PSD/CDS. Mas se essa é a lógica temos então 67,6% de eleitores que disseram que não queriam um governo liderado pelo PS. E 89,8% dos eleitores rejeitaram a política defendida pelo Bloco de Esquerda e 91,7% votaram em opções diferentes das da CDU. Quando se opta pela lógica da batata e se prefere olhar para os votos “contra” em vez dos votos “a favor” é aqui que chegamos: não podemos ter um governo que 61,5% não escolheram. Mas devemos ter um governo liderado por um partido que 67,6% não escolheram aliado a partidos que foram rejeitados por cerca de 90% dos votos expressos. E achamos isto legitimo. Mais: há até quem ache isto democrático.

8 – Fala-se de um “governo de esquerda”. Como se a esquerda – e o mesmo se pode dizer da direita – fosse una e indivisível, como se a esquerda fosse toda idêntica e programaticamente próxima. Como se o eleitorado socialista fosse política e sociologicamente semelhante ao eleitorado comunista e bloquista. O PS está muito mais próximo do PSD do que dos partidos à sua esquerda, como é evidente. Não é por acaso que se fala do “centrão” e do “bloco central”, que as maiores transferências de voto entre eleições são geralmente entre estes dois partidos e é aí que se ganham e perdem eleições. Os acordos institucionais estruturais que temos unem PSD e PS mas não o BE e o PCP: Europa, moeda única, NATO, economia de mercado, tecido empresarial essencialmente privado, democracia plural, objectivo de equilíbrio orçamental e respeito pela propriedade privada. Não é por acaso que comunistas e bloquistas dizem frequentemente que “eles são todos iguais” e “são farinha do mesmo saco”. Eles são o PS e o PSD.

9 – Se a “esquerda” quer governar e até se pode entender para formar um governo porque é que PS, PCP e BE não fizeram uma coligação pré-eleitoral e se apresentaram assim ao eleitorado? Uma pista: porque o que os separa é muito mais do que os une e nunca conseguiriam entender-se em torno de um programa eleitoral comum que pudesse merecer a preferência de uma maioria de eleitores.

10 – Formar, na saída destas eleições, um governo que não seja liderado pelo PSD/CDS é uma perversão dos resultados eleitorais em toda a linha. Primeiro porque é deixar o partido mais votado – ou o menos rejeitado, nesta lógica – fora da solução de governação. Depois, e mais importante, é um “golpe de Estado” em relação à matriz essencial que resulta do voto de domingo: continuação da consolidação orçamental, manutenção no euro, respeito pelas regras europeias e rejeição de soluções de ruptura como as que defendem o BE e a CDU. Se o PS não percebe isto estará a trair uma parte decisiva do seu eleitorado.

11 – Mas não pode haver diferentes arranjos de governo que saiam do mesmo Parlamento? Pode. Mas nunca sem antes permitir que o partido mais votado faça o seu governo com os apoios que vier a conseguir unir da forma que entender. É impensável que seja de outra maneira. A coligação PSD/CDS deve ser chamada a governar. E se o governo cair daqui a um ou dois anos? Aí, cada um deve assumir as suas responsabilidades sobre a queda do governo. Depois, em função da leitura que o Presidente da República e a generalidade dos partidos fizerem, o país vai de novo para eleições ou pode tentar-se uma nova solução de governo no mesmo Parlamento.

12 – Pode essa solução futura passar por um acordo parlamentar entre PS, BE e CDU que sejam o suporte de um governo? Pode. E aí boa sorte para a governação e para o julgamento que os eleitores farão disso nas eleições seguintes.

A SIC também é Serviço Público...


(imagem recolhida aqui)

... tal como pudemos constatar uma vez mais, há bocado, no telejornal, quando a locutora de serviço nos revelou que "António Costa dará uma nova oportunidade à coligação na próxima terça-feira".

De louvar a isenção da peça (jornalística) por não haver cedido à pressão de dizer "aos pafúncios", expressão de refinado e irresistível sentido de humor usada por Ferro Rodrigues durante os discursos e libações do almoço comicial, na Trindade.

Afirma-se, pois, a SIC, no que respeita ao entendimento e prática de um tão inestimável serviço, como em nada inferior ao que demonstra a RTP, hora após hora de emissão patriótica. Colhido ao acaso, recordo uma peça, transmitida pelo canal público na véspera do fim da campanha eleitoral, em que o locutor, referindo-se a Passos Coelho, dizia a certa altura, antecedendo as palavras do primeiro-ministro, que este iria, de seguida, "calçar os sapatos dos indecisos" para "tentar fazer-lhes a cabeça".

Citando Carlos do Carmo citando, por sua vez, Alfredo Marceneiro: "E, se não gostaram, vão para casa e ponham discos".

A NOSSA MEMÓRIA NÃO PODE SER CURTA!



   No dia 11 próximo vai ser levada a efeito, por militantes convocados por um documento posto a circular numa hábil acção de "agit-prop", uma manifestação a suceder no Largo Camões e visando começar a pressionar o ambiente para ulteriores actividades "revolucionárias", bem no estilo do que sucedeu no PREC.


  Nos mentideros não se esconde o que se pretende: infirmar a democracia consolidada, apresentada como ilegítima, visando criar uma "frente popular" que lance no País as raízes de este poder ser, mediante outras acções que decerto não cessarão de acontecer, uma nova Venezuela.

  Ou seja, uma Grécia de pacotilha, controlada por estruturas em estilo "bolivariano" (leia-se, tendencialmente totalitário), com posterior formação de eventuais milícias partidárias que "ajudarão" as "forças da ordem" deles a reprimir quem não aceite os seus ditames e orientações uma vez chegados ao Poder.


   Paralelamente a este projectado estado de coisas e aproveitando a colocação a que têm procedido paulatinamente, com os seus apaniguados nos diversos órgãos de informação,  buscarão controlar rigidamente a liberdade de expressão como sucedia nos estados pré-totalitários.


  Usando as mais diversas técnicas de intoxicação, irão surgindo e cimentar-se campanhas caluniosas, censura indiscriminada e a velha manobra tão cara aos estalinistas e derivados de caracterizarem qualquer que se lhes oponha como "inimigo do povo" ou "agente criminal".

  Não esqueçamos o que se passou em França durante a denominada Frente Popular, não esqueçamos o que se viveu durante o PREC, não esqueçamos sobretudo a prática proverbial que os chamados "comunistas", herdeiros dum Leste que ruiu devido não aos erros (como dizem os que tentam branquear e mascarar a realidade) mas aos crimes cometidos contra os povos que por mera propaganda diziam apoiar, utilizam quando no poder.


  Essas formações partidárias, enchendo a boca com slogans aparentemente pró-populares, na sua prática histórica e real só criaram confusão, miséria e desespero nas nações por onde passaram e pelos lugares onde ainda se encontram.

  Os  cidadãos, norteados por uma feição democrática e libertária, não devem embalar-se no vozear destas más sereias que, simulando estar interessadas na beneficiação dos povos, apenas visam estabelecer a sua ideologia autoritária nas sociedades que afinal visam dominar inteiramente.

8 de outubro de 2015

“A fraude pós-eleitoral”




Leia-se com atenção este texto de Rui Ramos, no Observador:


Ao princípio, pareceu um devaneio de noite eleitoral, inspirado pelo desespero da derrota. Entretanto, converteu-se numa política fria e cínica: António Costa, depois de sujeitar o PS a um desaire nas urnas, parece agora inclinado a comprometer os socialistas na aventura de um governo com comunistas e neo-comunistas. Dir-me-ão: é só uma estratégia negocial. Ao admitir formar governo com apoio do BE e do PCP, Costa pretende apenas aumentar a sua margem de manobra perante a coligação, ou então obrigar o PCP e o BE a mostrarem que não estão verdadeiramente disponíveis. Mesmo que seja isso, António Costa está a pôr em causa a democracia portuguesa tal como saiu dos confrontos de 1974-1976 e se desenvolveu durante quarenta anos.

Em primeiro lugar, Costa já negou a tradição, sempre respeitada desde 1976, de que em Portugal quem fica à frente vence as eleições e tem um mandato para governar. No dia 4 de Outubro, os portugueses escolheram entre quatro principais soluções de governo: a da coligação PSD-CDS, a do PS, a do BE e a do PCP. A maior parte escolheu a coligação PSD-CDS. É bom lembrar: a coligação ganhou as eleições com mais de seis pontos percentuais à frente do PS, e com quatro vezes a percentagem de votos do BE e cinco vezes a do PCP. António Costa era candidato a primeiro-ministro: foi assim que participou nos debates e apareceu nos cartazes. Caso os portugueses quisessem um governo liderado por António Costa teriam certamente posto o PS à frente. Não puseram, e, portanto, não queriam. Ao negociar com PCP e BE, Costa está a admitir impor aos portugueses, através de uma chapelada parlamentar, um governo que os portugueses rejeitaram nas urnas. Talvez a Constituição não o impedisse, mas à luz da tradição política nacional e das expectativas dos eleitores seria um autêntico golpe de Estado. Outros regimes portugueses praticaram fraudes eleitorais: vai este inaugurar as fraudes pós-eleitorais?

Costa argumenta que uma “maioria de esquerda” é equivalente à “maioria da direita”. Não é. A aliança entre o PSD e o CDS é junta dois partidos democráticos; a aliança entre o PS, o PCP e o BE juntaria um partido democrático e dois partidos que rejeitam tudo aquilo que define a democracia portuguesa. O PCP e as forças políticas que constituem o BE têm como ideal as antigas ditaduras comunistas, e entre si admitem a saída de Portugal do Euro e da Nato, o repúdio da dívida pública, a reversão das privatizações e a nacionalização da banca.O PS foi o partido que em 1974-1977 liderou a luta por uma democracia pluralista de tipo ocidental, ao lado do PSD e do CDS e contra o PCP e a extrema-esquerda agora escondida no BE. O PS não é apenas um partido de “esquerda”, mas um partido da “esquerda democrática”, da mesma maneira que o PSD e o CDS não são apenas partidos de “direita”, mas da “direita democrática”. A direita democrática não se define apenas contra a esquerda, mas  contra o salazarismo, da mesma maneira que a esquerda democrática não se define apenas contra a direita, mas contra o comunismo. O facto de o PS, o PSD e o CDS serem partidos democráticos, incompatíveis com as correntes anti-democráticas de direita e de esquerda, tem este efeito: conforme o governo é dirigido pelo PS ou pelo PSD, as políticas públicas podem mudar, mas o regime não. A alternância entre esquerda e direita democráticas faz-se assim sem dramas. A partir do momento em que o PS deixasse de fazer fronteira com a esquerda que recusa a democracia pluralista e a integração europeia, tudo seria diferente. Votar no PS significaria o quê? Votar pela permanência no euro, ou pela saída do euro? Ninguém teria a certeza.

Não haja dúvidas: um governo dos derrotados de 4 de Outubro, que incluísse partidos que negam os fundamentos da actual democracia, provocaria uma imensa revolta no país. E tudo isto, para quê? Para que António Costa, depois de uma derrota inesperada, possa manter o lugar de secretário-geral do PS, do qual depende a sua sobrevivência como político profissional. É essa a única razão. Para defender o lugar, Costa precisa de chegar ao congresso do PS como primeiro ministro. Com esse fim, está disposto a sacrificar tudo e todos. Assim acabam os partidos, e assim acabam também os regimes.

E se pensas que eles não irão buscar-te...




7 de outubro de 2015

Crocodilos voando baixinho ... Pois!



    Coimbra? Faz todo o sentido. Depois de terem atribuído o título de doutor honoris causa a Lula, o cérebro da maior burla da história da humanidade, qual o espanto com Varoufakis?


    Despache-se o estado islâmico, de imediato,  para Coimbra, como agente preservador dos valores culturais locais, que ele os projectará ao firmamento.


    E... quanto a estudantes? Que tal incluir nos respectivos canudos que "realizou os seus estudos" na instituição capaz de tão doutos e pertinentes feitos?

Dos intelectuais e dos que os acompanham



Ou "Da Revolução e dos 'idiotas úteis' (o termo é de Lenine)".

O que afecta a Europa e o Ocidente "progressistas"...



...será cegueira, cobardia ou, muito simplesmente, uma (incurável?) super-estupidez?

5 de outubro de 2015

O CAIR DA FOLHA



  Neste Outono menos nostálgico que acalentador política e socialmente falando – pelo menos para alguns, fracção razoável do povinho incluído – faz sentido debruçarmo-nos um pouco sobre o que ontem (pré 5 de Outubro…) sucedeu eleitoral e mediaticamente falando.

  Num vôo de pássaro (pardal, gavião, albatroz…) sobre o que nos foi dado ver pelas diversas estações televisivas, algumas coisas nos chamaram a atenção.

(imagem recolhida aqui)

   Aqui as deixamos, ponto a ponto:


  1. A “performance” do antigo primeiro-ministro, hoje submetido a vilegiatura obrigatória num entreposto duma rua da capital, aos repórteres que quase ansiosamente o aguardavam. Apesar da sua evidente atitude, supostamente dinâmica política e interventora, não conseguimos ver o afamado “animal feroz” mas um indivíduo de rosto marcado pelas rugas da actual magreza (e apoquentações?), encanecido, uma espécie de fantasma político que, ao que cremos, ainda não percebeu que já nada tem a fazer no imaginário público nacional, excepto ser acolhido por gente dos médias visando faits divers supranumerários ou vitoriado por ineficazes.


  2. A intervenção, digna de um “vaudeville” de segunda ordem, dum declarante oficial do PC, antigo candidato à presidência de República, que mostrou que as ilusões circulantes naquela formação se traduzem em algo que seria trágico se não fosse tristemente cómico: ganharem tendo perdido, utilizando uma retórica que nos mergulha numa comiseração indisfarçável. Foi a isto que chegou a sombra errante do “Pai dos Povos”, com toda a sua carga simbólica, e que corrobora a velha e astuta frase de que a História se repete, primeiro como tragédia e depois como farsa?


  3. A presença, bem entrosada, de membros da chamada “tralha socrática”, depois passados para a figuração costista, apostados ferreamente em demonstrar que o seu novel chefe (foi o que se pôde arranjar…), foi um valente guerreiro, mau grado os desconchavos, os paupérrimos conceitos e a sua capacidade indiscutível para não interessar nada a quem mais interessaria – que é como quem diz: os cidadãos portugueses.


 4.  Os gritos vibrantes, denunciadores de uma certa habilidade proto-circense, digamos, do acervo de partidários com, bem na frente, amoráveis “múmias” do staff socialista, vitoriando galhardamente o chefe que acabava de ser derrotado quando este, ainda mais galhardamente e numa frase que diz tudo sobre o mesmo, anunciou que não se demitiria…


  5. Os esforços quase hercúleos de certas estações televisivas que, servindo-se de comentadores/convidados competentíssimos nos seus malabarismos, se esmeraram à boa maneira das fábulas para demonstrar que o preto é branco e o branco é preto politicamente falando, pelo menos na praça lusa.


  6. A deliciosa arrogância, alfacinhista na essência mas muito grega no perfil clássico, da dirigente bloquista, que ilustrou na perfeição a velha máxima de que, no que respeita a formações governamentais em hipótese, a impossibilidade disso antes de o ser já o era


  7. A garantia, dos triunfadores da contenda, de que vão proceder a ajustes na máquina de governar – o que, sendo uma vontade não é, pelo que se presume e pelo que já se ouviu, algo para acreditarmos estupendamente. Não esqueçamos que ainda por cima nas hostes rosas se conservam ferros, galambas e lacões (e outros pelo estilo) o que não nos permite sonhar excessivamente.


  8. Por último, a retórica do chefe comunista (a que alguns, tecnicamente, atribuem resiliências que viriam do estalinismo – discordo, acho que aquilo é mesmo estrutural), na sua vontade - claro que a favor, sempre, do bom povo totalmente proletário – de ir para o cadeirão curial sem ter para isso expressão maioritária dos votantes…