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15 de outubro de 2015

"Isto pode não acabar bem"




Avisa, com toda a razão, Rui Ramos, no Observador:


Em Junho de 2004, o primeiro-ministro Durão Barroso aceitou o convite para presidente da comissão europeia. O PSD escolheu Santana Lopes para lhe suceder. O governo era então apoiado por uma maioria absoluta do PSD e do CDS. No entanto, o PS, o PCP e o BE reagiram violentamente. Foi explicado que as eleições legislativas eram essencialmente um plebiscito aos candidatos a primeiro-ministro, e que Santana, sem eleições,  seria um chefe de governo “ilegítimo”. Houve manifestações em frente ao palácio de Belém a exigir eleições antecipadas. A 9 de Julho, quando o presidente optou por dar posse a Santana, o secretário-geral do PS demitiu-se. A dramatização resultou: em Novembro, o presidente acabou por dissolver a assembleia, apesar de o governo nunca ter perdido a maioria absoluta no parlamento.


Estas eram as regras, segundo o PS: o primeiro-ministro só podia ser o líder do partido que ganhasse as eleições com mais votos do que os outros partidos. Como explicou António Costa, em Setembro de 2009: “os portugueses conquistaram um direito a que não podem nem devem renunciar: o direito a que os governos não sejam formados pelos jogos partidários, mas que resultem da vontade expressa, maioritária, clara e inequívoca de todos os portugueses.” Eram ainda as regras a 4 de Outubro deste ano. Já não eram no dia seguinte.


O avanço estratégico do BE e do PCP

Vamos falar então de “jogos partidários”, que é donde agora saem os governos. Para António Costa, o jogo é óbvio: só como primeiro ministro pode voltar ao Largo do Rato sem correr o risco de ser pendurado numa árvore. Para o BE e o PCP, também: é o jogo de sempre. Ao contrário do que se diz, não foram eles que mudaram, foi Costa. O PCP e o BE estiveram sempre dispostos a apoiar um governo do PS: bastaria que o PS rompesse com a “direita”. A expressão “maioria de esquerda” foi aliás inventada pelo PCP em 1976. Em 1987, o PCP esteve pronto, com o PRD, a juntar-se no governo ao PS. Em todas as ocasiões, foi o PS – ou, mais precisamente, Mário Soares — , que recusou misturar-se com o PCP.


O PCP e o BE não querem por enquanto tirar Portugal da NATO ou do Euro. O PCP e o BE são partidos leninistas, e os leninistas aprenderam a actuar por “etapas”. Nesta “etapa” inicial, têm dois objectivos: comprometer e condicionar o PS, e aceder aos recursos do Estado (o “queijo Limiano” também é vermelho). A declaração de Catarina Martins ontem, ao abolir o governo PSD-CDS após uma conversa com Costa, revela o jogo: o BE e o PCP estão resolvidos a um “recuo programático”, se isso corresponder a um “avanço estratégico”, que deixe o PS à sua mercê.


A redução do PS

Vigora ainda a tese de que esta é a ocasião de o PS comprometer no governo o PCP e o BE, de modo a absorver os seus eleitores. Talvez sim, mas talvez não. O PS, no caso de Costa realizar o seu “governo de esquerda”, corre dois riscos. O primeiro é ajudar a fixar, a partir do Estado, o eleitorado até agora volátil do BE. Nunca mais o PS se livraria da concorrência bloquista, como ao fim de 40 anos ainda não se livrou do PCP, devido ao poder que os comunistas adquiriram nas autarquias e nos sindicatos.


O segundo risco é o PS perder os seus eleitores “moderados”. A partir do momento em que o PS fizesse parte de um bloco com dois partidos que, mesmo sem conspirarem nos quartéis, não acreditam na democracia pluralista nem na economia de mercado, muitos cidadãos que acreditam nessas coisas hesitarão em votar PS. Ou seja, o resultado do jogo de António Costa poderia ser uma redução do voto do PS, e a consolidação eleitoral do BE, ao lado do PCP. Nesse cenário, a esquerda passaria a consistir em três partidos, a valer 10%-15% de votos cada um, e a valerem todos em conjunto menos do que valem agora. Seria o fim do PS como grande partido de governo e também, por isso, o fim da “maioria de esquerda” em Portugal. E logo que isso fique claro, a aliança PS-PCP-BE tornar-se-á mais instável do que um saco de gatos.


A oportunidade da direita

E é aqui que convém entrar em linha de conta com a direita. Quase toda a gente parece pressupor que a direita ficaria sentadinha e caladinha enquanto Costa invade São Bento com o PCP e o BE. Não esperem tanta abnegação. A direita não pode ficar quieta, a não ser que queira desaparecer numa nuvem de irrisão. Imaginem-se no lugar do PSD e do CDS. Primeiro, tiveram de executar um ajustamento negociado pelo PS, apenas para verem Costa renegar todas as responsabilidades e deixar-lhes o odioso. Depois, ganharam as eleições segundo as regras antigas, apenas para verem Costa mudar as regras e roubar-lhes o governo.


A conformarem-se sem luta com mais esta golpada de Costa, os líderes do PSD e do CDS acabariam desacreditados. Também eles, por uma questão de sobrevivência, serão obrigados a subir a parada. Em 2004, a enorme pressão criada pelas esquerdas levou Sampaio à dissolução, apesar da maioria de direita no parlamento. Desta vez, caberia à direita ajudar o próximo  presidente a concluir que o país precisa de uma clarificação eleitoral, apesar da maioria de esquerda. A direita terá de vir para as redes sociais e para a rua. Terá de mostrar-se “indignada” com a “ilegitimidade” de um governo de derrotados nas eleições.  Terá de exigir que seja dado ao povo, em Maio ou Junho, logo que seja possível, o direito de votar numas eleições em que se defrontem claramente duas coligações, a do PSD-CDS e a do PS-PCP-BE. Será essa, aliás, a única maneira de evitar maior crise.


Depois de quatro anos de austeridade, a resistência à “Frente Popular” será para o PSD e o CDS a grande oportunidade de se reconciliarem com o seu eleitorado e, sobretudo, de recuperarem de vez para uma maioria de direita os eleitores do PS que acreditam na democracia pluralista e na economia de mercado. Nunca, por isso, o PSD e o CDS aceitarão o governo Costa-PCP-BE como “normal” antes de novas eleições.

Uma nova polarização política

É também natural que a “Frente Popular” tente aproveitar a resistência do centro-direita. Acusará o PSD e o CDS de “radicalização”, como aliás já está a fazer. Há-de inventar conspirações “fascistas” e conjuras do “imperialismo alemão”. Fará comícios com Varoufakis e Pablo Iglesias, com toda a gente a gritar “não passarão”. Radicalizar-se-á mais do que Costa e até o PCP e o BE têm previsto.


Ficaremos outra vez entre “fachos” e “comunas” como em 1975, para grande confusão das gerações que nasceram depois e que não gostam de se “enervar” com a política. É verdade que desde vez não há COPCON. Nem por isso deveremos deixar de recear algum tipo de ruptura política que, num país meio falido e numa democracia agora sem regras, terá  custos e demorará anos a sarar. E tudo isto para quê? Para António Costa não se demitir de secretário-geral do PS. A grande história é, por vezes, feita de pequenas coisas.

12 de outubro de 2015

"Costa no seu labirinto"



Maria de Fátima Bonifácio dizia ontem assim, no Observador:

«Parto para a análise da intrincadíssima situação em que o País mergulhou, pela mão traiçoeira de Costa, de quatro dados que ou têm sido omitidos ou pouco valorizados. São, para mim, dados essenciais e decisivos. Essenciais significa essenciais. Decisivos significa que determinaram tudo até agora e continuarão a determinar no futuro. Apenas não sei qual é o limite temporal deste futuro, nem qual será o seu desfecho. Esses dados são:
1º. Costa é um homem absolutamente desesperado.
2º. Costa já não tem nada, mas mesmo nada de nada a perder.
3º. Tudo o que não seja chegar a primeiro ministro não basta para o salvar.
4º. Costa não tem carácter, não é homem de palavra, não olha a meios.
O desespero é mau conselheiro em todas as circunstâncias. No caso de Costa, em que o desespero ainda por cima se conjuga com o vexame pessoal, a primeiríssima prioridade do ex-Messias é salvar a sua pele, custe o que custar, doa a quem doer, pague quem pagar. País, partido, eleitores e simpatizantes foram banidos do perímetro das suas preocupações, no interior do qual ele esbraveja como um náufrago para se salvar. Está disposto a tudo, a renegar tudo, a arrasar tudo, desde que ele se erga dos escombros – e escombros já há – e possa anunciar: venci todos, ganhei tudo! Da plateia do seu palco imaginário, o PCP e o Bloco soltarão uma sonora gargalhada. O triunfo anunciado por Costa repousa por inteiro nas mãos deles. No momento propício e oportuno para cada um destes dois adversários entre si, cada um deles lhe puxará o tapete para que todos possam ver que “o rei vai nu”.
Costa já não tem nada a perder. Jogou tudo, apostou tudo naquele fatídico dia em que escarneceu da vitória “poucochinha” por que Seguro ganhara as europeias à Coligação. Ficou obrigatoriamente comprometido com o imperativo irrevogável de lhe contrapor um triunfo esmagador nas legislativas de 2015. Durante um ano andou levado em ombros, empunhando a taça dos vencedores, muito antes de ter vencido e de a batalha começar. Perdeu abjectamente. A muito ténue esperança que lhe restava (ou já nem isso ?) a poucos dias do 4 de Outubro transmutou-se num ápice numa tormenta. O vexame era insuportável. De uma penada, perdia um curriculum de décadas, o sonho de uma vida, um presente triunfal, e diante de si abria-se um futuro vazio. É formado em Direito, mas não é jurista, e teria de recomeçar a advocacia por um segundo estágio. Não exerce profissão para que se possa virar. Aos cinquenta e quatro anos já não se pode começar nada. Sem um passado sobre o qual se continue a construir para a frente, o resto da vida não passará de um frustrante remedeio. Ou seja, não é vida. A solução para este desastre pessoal surgiu rápida: não vencera as eleições, mas ainda podia vencer o eleitorado.
Nos dias que se seguiram ao tétrico veredicto das urnas, Costa entrou na sua, muito dele, “espiral labiríntica”. Em abono da verdade, já antes dera sinais: anunciara que chumbaria qualquer Orçamento de Estado que a Coligação apresentasse, no caso, enunciado como mera hipótese académica, de o “seu” PS não vencer com a maioria absoluta que diariamente implorava aos portugueses. Na noite televisiva, Costa apresentou-se amarelado e com ar grave. Declarou que não faria “coligações negativas”, das que servem só para bota-abaixo. Mas não tardou a ser ele mesmo: com sorriso aberto e ar galhofeiro, garantiu à audiência que não se demitiria… Percebeu-se que se extinguira nele qualquer vestígio, ténue ou remoto, da mais elementar dignidade. E logo a partir de 5 de Outubro percebeu-se também, à medida que muitos socialistas começavam a rosnar, que em seu entender havia uma única coisa que o poderia ainda salvar: chegar, efectivamente, a primeiro-ministro de Portugal. Tudo o que fosse um milímetro menos disto não bastava, não dava para as necessidades (já direi quais eram). Tornar-se o mero líder de uma bancada comprometida com um “entendimento” com o governo Passos Coelho/Paulo Portas? Nem pensar.
Vamos então pôr mãos à obra e vencer o eleitorado. Um político honrado não faz uma coisa tão feia? Mas Costa já fizera coisas feíssimas! Como acontece com qualquer droga, o pior é começar: o vício entranha-se e naturaliza-se imediatamente. Em Fevereiro de 2013 assinara com Seguro o Documento de Coimbra, “Portugal Primeiro”, para o qual disse que tinha contribuído e no qual também disse que se revia. Deu “os parabéns” a Seguro pelo “entendimento” a que se chegara e desistiu da sua candidatura a secretário-geral. Este documento de orientação estratégica, assinado por Costa e Seguro, foi aprovado pela Comissão Política do PS e serviria de base à moção de estratégia aprovada no Congresso do PS de 26-28 de Abril. Costa discursou: “Estamos aqui juntos, juntos somos fortes, juntos somos imbatíveis, juntos venceremos tudo: autárquicas, europeias e legislativas.”

Oito meses depois, em Janeiro de 2014, Costa rasga o Documento de Coimbra assinado por si, renuncia ao mandato de Presidente da CMP que jurara cumprir até ao fim. E o resto já toda a gente sabe: ganhou por margem albanesa as primárias e defenestrou Seguro do Rato. Calçou os patins e durante algum tempo encontrou piso liso e desembaraçado. Ao primeiro teste à sua envergadura, falhou logo. António Nóvoa saiu-lhe ao caminho com muita poesia, candura e total abertura: outro homem disposto a tudo para chegar a Belém, com poucos escrúpulos (não sabia se era crente, nem se gostava mais do PS ou do PC), muitíssima ambição disfarçada de modéstia, e completa abertura: venha um governo de esquerda, acabe-se com esse aberrante “arco da governação”. Problema: Nóvoa dividia o PS. Solução: um dia sim, outro dia não. Nóvoa ficou a cozer em lume brando para o que desse e viesse. E ainda hoje não se fartou de servir de roda sobresselente; outro homem de carácter.
Costa contratou Centeno para lhe dar números que ele não percebia. Who cares? Tinha números, tratava as coisas a sério. O generoso programa assente em tão claros números era sólido. Provavam matematicamente que a austeridade era dispensável sem com isso comprometer as obrigações para com a Europa, o Euro e o Tratado Orçamental. Mas a esquerda dentro do PS logo descobriu, sob o fresco verniz socialista de Centeno, um economista neo-liberal. Disto mesmo se queixava o Bloco, e também o PC: Costa não tinha a coragem de “cortar com as políticas de direita” com que o PS desde sempre andara amancebado. Costa encheu-se de mais coragem. A poucos dias do fim da campanha eleitoral deu uma valente guinada para a extrema-esquerda. E no dia seguinte às eleições perdidas, encheu-se da coragem toda: declarou guerra contra os eleitores.
Tenho-o visto como os grandes campeões de xadrez que se deslocam de mesa em mesa jogando com vários parceiros ao mesmo tempo. Mas Costa não é campeão de nada (com a possível excepção de um sórdido tacticismo). Transformou-se num pedinte que mendiga apoio para um governo seu. Renega a Tradição do PS como fronteira da liberdade e arrasta o partido pelo chão até às moradas dos seus piores inimigos. Nada disto o envergonha. E, espantosamente, não lhe ocorre que o feitiço se possa virar contra o feiticeiro. A primeira porta a que bateu foi a do PC, catedrático da astúcia estalinista. Jerónimo, aconselhado pelo ainda mais indefectível Francisco Lopes, mostrou-se afável, tolerante, aberto, com a singela condição de que o PS “corte com as políticas de direita” que ao longo das décadas têm feito dele um servo do Capital. Costa saiu satisfeito, a reunião foi “muito positiva”. Ou seja, muito naturalmente, da noite para o dia, o PCP fizera uma transfusão de sangue e eliminara Cunhal, a Tradição e Toda a Tralha Estalinista. Costa meteu-se pela boca do lobo dentro e pediu o Diabo em casamento. Mas necessita de bigamia, porque os deputados comunistas não bastam. Amanhã, segunda, ainda terá de levar o PS a rastejar até à morada do Bloco.
Disse que já havia escombros. O PS sempre foi um partido com uma ala mais centrista e uma ala mais a puxar à esquerda. Sócrates deixou lá dentro uma facção própria que complicou esta antiga arrumação a que todos estavam habituados. Mas com António Costa, o Partido Socialista está inextricavelmente balcanizado: são os socratistas, os alegristas, os seguristas, os galambistas, os soaristas de Mário e de João Soares, alguma “tralha guterrista”, e, surpresa das surpresas, os novíssimos “nunistas”. Sim, nunistas, uma seita ruidosa cujo representante máximo, um tal Pedro Nuno Santos, Costa leva sempre consigo na augusta delegação socialista que peregrina pelas outras sedes partidárias. Galamba há muito que se celebrizou por ser sempre uma espinha cravada da garganta de qualquer moderado. De Nuno Santos só me lembro do momento em que berrou no Parlamento, com hercúlea coragem, “Quero lá saber da Troika ou da Europa!” Pelos vistos, singrou. Finalmente, há pelo menos ainda um grupo de “costistas”. Mas quem são, afinal, os costistas? Indaguei junto dos meus amigos socialistas (que são a maioria). Ninguém me soube dizer ao certo. Concluí, portanto, por minha conta e risco. “Costistas” são todos aqueles que se servem de António Costa para que ele usurpe o poder contra o eleitorado e lhes devolva a “importância”, os “lugares”, as prebendas e o acesso ao “spoils system” a que já se tinham habituado. Uma excepção honrosa cumpre desde já destacar: Sérgio Sousa Pinto não teve estômago para semelhante caldeirada. Demitiu-se ontem do secretariado do PS.

Toda esta tropa heterogéna só perdoará a Costa a hecatombe em que lançou o partido se for transitória e rapidamente invertida. Costa carece do seu apoio para conferir existência coerente ao “costismo” e dispor de novo de um partido submetido à sua autoridade, que aliás nunca chegou a ser indiscutível. Para tanto, precisa de ser primeiro-ministro. Menos um milímetro do que isto já não lhe chega para salvar a sua pele. Pague quem pagar, pague o PS e o País todo. Porque se lá chegar, a história ainda estará muito longe de terminada.»

11 de outubro de 2015

A peste a seu dono



A imoralidade não é uma ferramenta do marxismo. Falar-se em imoralidade no caso de marxistas é levar-se a moral para o campo do marxismo, uma espécie de contaminação da moral, por poder, eventualmente, morar na cabeça de marxistas.

Os marxistas não são imorais. São amorais.

9 de outubro de 2015

"A lógica da batata"


Escher, Drawing Hands

Estava eu a preparar-me a preparar-me para escrever algumas linhas sobre a nova novidade inovadora (e que, no entanto, seria tão velha como o mundo), consubstanciada na palavra de ordem que percorre o país com a habitual potência canora, propriedade privada dos amanhãs que cantam, a saber: que os partidos políticos são como o Pai Natal, não existem; que as pessoas não sabem, mas votam em tendências, não em partidos; e que, ao fim de 41 anos, atingiram por fim a maturidade em que a verdade lhes pode e deve ser revelada - eis senão quando vejo que Paulo Ferreira, no Observador, me tinha poupado o trabalho. Aqui fica o que ele disse sobre a coisa.


Enquanto António Costa se transforma no protagonista pós-eleitoral e prossegue a sua coreografia, como se estivesse a formar governo, alinham-se as propostas sobre a composição partidária que deve suportar o próximo executivo. O absurdo é tanto que às vezes é preciso regressar ao mais básico. É o que tento fazer hoje.

1 – Quando um partido ou coligação não recolhe a maioria dos votos expressos então uma maioria de eleitores preferia uma de outras candidaturas. Isto não tem nada a ver com ciência política, com leituras da Constituição ou com alinhamentos ideológicos ou partidários. Isto é a mais básica aritmética, entendível até por uma criança do primeiro ciclo. Não tem nada de novo e acontece sempre, mas sempre, que um partido ganha sem maioria absoluta. A aritmética nunca nos falha.

2 – Para não ir mais longe até aos primórdios da democracia, isto aconteceu com Cavaco Silva em 1985, com António Guterres em 1995 e 1999, com Durão Barroso em 2002, com José Sócrates em 2009 e com Pedro Passos Coelho em 2011 e 2015. Todos estes políticos têm uma coisa em comum: foram primeiro-ministro após eleições que venceram mas em que uma maioria de eleitores teria preferido outros candidatos a chefe de governo. Governaram quando uma maioria de eleitores queria aquilo que se pode chamar uma “mudança de política”. E não me lembro de alguma vez, nos seis casos passados, ter sido sequer colocada a hipótese se não ser qualquer deles a formar governo.

3 – Sem maioria absoluta, estes líderes partidários lidaram com essa circunstância de forma diversa. Cavaco e Sócrates governaram sem maioria no Parlamento e acabaram por cair, um derrubado por uma moção de censura aprovada pela maioria das oposições, outro demitindo-se na sequência de um chumbo do PEC pelas oposições na AR. António Guterres terminou a primeira legislatura e demitiu-se a meio da segunda. Durão Barroso e Passos Coelho fizeram coligações pós-eleitorais com o CDS. Barroso saiu depois para Bruxelas e o seu sucessor, Pedro Santana Lopes, acabou por ser demitido pelo presidente Jorge Sampaio. E Passos Coelho terminou a legislatura passada. 

4 – Já tivemos, portanto, de tudo um pouco: coligações pré e pós-eleitorais, governos minoritários que sobrevivem e outros que caem. Até tivemos um primeiro-ministro que não foi a votos mas que foi empossado pelo Presidente da República: Santana Lopes. Mas sempre houve uma regra: quem forma governo é o líder do partido mais votado, que se apresenta nas eleições como candidato a primeiro-ministro. O apoio parlamentar que os vitoriosos minoritários depois conseguem agregar é uma questão pós-eleitoral de negociações partidárias e parlamentares.

5 – O que nunca tivemos na sequência de um acto eleitoral foi a formação de um governo liderado por um partido que não tenha sido o mais votado. Colocar esse cenário configura uma deturpação de toda a prática política passada que nunca foi questionada em sete das dez eleições legislativas que tivemos nos últimos 30 anos.

6 – O argumento chega a ser infantil: uma maioria de eleitores querem uma política diferente da defendida pela coligação PSD/CDS. Claro. Como também em 1985, 1995, 1999, 2002, 2009 e 2011 queriam uma política diferente da que o vencedor propunha. É lógico: quando mais de 50% dos eleitores vota numa candidatura que não foi a mais votada é porque não a quer no governo, senão tinha votado nela.

7 – Regressemos então à aritmética para este caso concreto. O argumento é: deve ser formado um governo liderado pelo PS porque houve uma maioria de eleitores, no caso de 61,5%, que rejeitaram o PSD/CDS. Mas se essa é a lógica temos então 67,6% de eleitores que disseram que não queriam um governo liderado pelo PS. E 89,8% dos eleitores rejeitaram a política defendida pelo Bloco de Esquerda e 91,7% votaram em opções diferentes das da CDU. Quando se opta pela lógica da batata e se prefere olhar para os votos “contra” em vez dos votos “a favor” é aqui que chegamos: não podemos ter um governo que 61,5% não escolheram. Mas devemos ter um governo liderado por um partido que 67,6% não escolheram aliado a partidos que foram rejeitados por cerca de 90% dos votos expressos. E achamos isto legitimo. Mais: há até quem ache isto democrático.

8 – Fala-se de um “governo de esquerda”. Como se a esquerda – e o mesmo se pode dizer da direita – fosse una e indivisível, como se a esquerda fosse toda idêntica e programaticamente próxima. Como se o eleitorado socialista fosse política e sociologicamente semelhante ao eleitorado comunista e bloquista. O PS está muito mais próximo do PSD do que dos partidos à sua esquerda, como é evidente. Não é por acaso que se fala do “centrão” e do “bloco central”, que as maiores transferências de voto entre eleições são geralmente entre estes dois partidos e é aí que se ganham e perdem eleições. Os acordos institucionais estruturais que temos unem PSD e PS mas não o BE e o PCP: Europa, moeda única, NATO, economia de mercado, tecido empresarial essencialmente privado, democracia plural, objectivo de equilíbrio orçamental e respeito pela propriedade privada. Não é por acaso que comunistas e bloquistas dizem frequentemente que “eles são todos iguais” e “são farinha do mesmo saco”. Eles são o PS e o PSD.

9 – Se a “esquerda” quer governar e até se pode entender para formar um governo porque é que PS, PCP e BE não fizeram uma coligação pré-eleitoral e se apresentaram assim ao eleitorado? Uma pista: porque o que os separa é muito mais do que os une e nunca conseguiriam entender-se em torno de um programa eleitoral comum que pudesse merecer a preferência de uma maioria de eleitores.

10 – Formar, na saída destas eleições, um governo que não seja liderado pelo PSD/CDS é uma perversão dos resultados eleitorais em toda a linha. Primeiro porque é deixar o partido mais votado – ou o menos rejeitado, nesta lógica – fora da solução de governação. Depois, e mais importante, é um “golpe de Estado” em relação à matriz essencial que resulta do voto de domingo: continuação da consolidação orçamental, manutenção no euro, respeito pelas regras europeias e rejeição de soluções de ruptura como as que defendem o BE e a CDU. Se o PS não percebe isto estará a trair uma parte decisiva do seu eleitorado.

11 – Mas não pode haver diferentes arranjos de governo que saiam do mesmo Parlamento? Pode. Mas nunca sem antes permitir que o partido mais votado faça o seu governo com os apoios que vier a conseguir unir da forma que entender. É impensável que seja de outra maneira. A coligação PSD/CDS deve ser chamada a governar. E se o governo cair daqui a um ou dois anos? Aí, cada um deve assumir as suas responsabilidades sobre a queda do governo. Depois, em função da leitura que o Presidente da República e a generalidade dos partidos fizerem, o país vai de novo para eleições ou pode tentar-se uma nova solução de governo no mesmo Parlamento.

12 – Pode essa solução futura passar por um acordo parlamentar entre PS, BE e CDU que sejam o suporte de um governo? Pode. E aí boa sorte para a governação e para o julgamento que os eleitores farão disso nas eleições seguintes.

A SIC também é Serviço Público...


(imagem recolhida aqui)

... tal como pudemos constatar uma vez mais, há bocado, no telejornal, quando a locutora de serviço nos revelou que "António Costa dará uma nova oportunidade à coligação na próxima terça-feira".

De louvar a isenção da peça (jornalística) por não haver cedido à pressão de dizer "aos pafúncios", expressão de refinado e irresistível sentido de humor usada por Ferro Rodrigues durante os discursos e libações do almoço comicial, na Trindade.

Afirma-se, pois, a SIC, no que respeita ao entendimento e prática de um tão inestimável serviço, como em nada inferior ao que demonstra a RTP, hora após hora de emissão patriótica. Colhido ao acaso, recordo uma peça, transmitida pelo canal público na véspera do fim da campanha eleitoral, em que o locutor, referindo-se a Passos Coelho, dizia a certa altura, antecedendo as palavras do primeiro-ministro, que este iria, de seguida, "calçar os sapatos dos indecisos" para "tentar fazer-lhes a cabeça".

Citando Carlos do Carmo citando, por sua vez, Alfredo Marceneiro: "E, se não gostaram, vão para casa e ponham discos".

A NOSSA MEMÓRIA NÃO PODE SER CURTA!



   No dia 11 próximo vai ser levada a efeito, por militantes convocados por um documento posto a circular numa hábil acção de "agit-prop", uma manifestação a suceder no Largo Camões e visando começar a pressionar o ambiente para ulteriores actividades "revolucionárias", bem no estilo do que sucedeu no PREC.


  Nos mentideros não se esconde o que se pretende: infirmar a democracia consolidada, apresentada como ilegítima, visando criar uma "frente popular" que lance no País as raízes de este poder ser, mediante outras acções que decerto não cessarão de acontecer, uma nova Venezuela.

  Ou seja, uma Grécia de pacotilha, controlada por estruturas em estilo "bolivariano" (leia-se, tendencialmente totalitário), com posterior formação de eventuais milícias partidárias que "ajudarão" as "forças da ordem" deles a reprimir quem não aceite os seus ditames e orientações uma vez chegados ao Poder.


   Paralelamente a este projectado estado de coisas e aproveitando a colocação a que têm procedido paulatinamente, com os seus apaniguados nos diversos órgãos de informação,  buscarão controlar rigidamente a liberdade de expressão como sucedia nos estados pré-totalitários.


  Usando as mais diversas técnicas de intoxicação, irão surgindo e cimentar-se campanhas caluniosas, censura indiscriminada e a velha manobra tão cara aos estalinistas e derivados de caracterizarem qualquer que se lhes oponha como "inimigo do povo" ou "agente criminal".

  Não esqueçamos o que se passou em França durante a denominada Frente Popular, não esqueçamos o que se viveu durante o PREC, não esqueçamos sobretudo a prática proverbial que os chamados "comunistas", herdeiros dum Leste que ruiu devido não aos erros (como dizem os que tentam branquear e mascarar a realidade) mas aos crimes cometidos contra os povos que por mera propaganda diziam apoiar, utilizam quando no poder.


  Essas formações partidárias, enchendo a boca com slogans aparentemente pró-populares, na sua prática histórica e real só criaram confusão, miséria e desespero nas nações por onde passaram e pelos lugares onde ainda se encontram.

  Os  cidadãos, norteados por uma feição democrática e libertária, não devem embalar-se no vozear destas más sereias que, simulando estar interessadas na beneficiação dos povos, apenas visam estabelecer a sua ideologia autoritária nas sociedades que afinal visam dominar inteiramente.

8 de outubro de 2015

“A fraude pós-eleitoral”




Leia-se com atenção este texto de Rui Ramos, no Observador:


Ao princípio, pareceu um devaneio de noite eleitoral, inspirado pelo desespero da derrota. Entretanto, converteu-se numa política fria e cínica: António Costa, depois de sujeitar o PS a um desaire nas urnas, parece agora inclinado a comprometer os socialistas na aventura de um governo com comunistas e neo-comunistas. Dir-me-ão: é só uma estratégia negocial. Ao admitir formar governo com apoio do BE e do PCP, Costa pretende apenas aumentar a sua margem de manobra perante a coligação, ou então obrigar o PCP e o BE a mostrarem que não estão verdadeiramente disponíveis. Mesmo que seja isso, António Costa está a pôr em causa a democracia portuguesa tal como saiu dos confrontos de 1974-1976 e se desenvolveu durante quarenta anos.

Em primeiro lugar, Costa já negou a tradição, sempre respeitada desde 1976, de que em Portugal quem fica à frente vence as eleições e tem um mandato para governar. No dia 4 de Outubro, os portugueses escolheram entre quatro principais soluções de governo: a da coligação PSD-CDS, a do PS, a do BE e a do PCP. A maior parte escolheu a coligação PSD-CDS. É bom lembrar: a coligação ganhou as eleições com mais de seis pontos percentuais à frente do PS, e com quatro vezes a percentagem de votos do BE e cinco vezes a do PCP. António Costa era candidato a primeiro-ministro: foi assim que participou nos debates e apareceu nos cartazes. Caso os portugueses quisessem um governo liderado por António Costa teriam certamente posto o PS à frente. Não puseram, e, portanto, não queriam. Ao negociar com PCP e BE, Costa está a admitir impor aos portugueses, através de uma chapelada parlamentar, um governo que os portugueses rejeitaram nas urnas. Talvez a Constituição não o impedisse, mas à luz da tradição política nacional e das expectativas dos eleitores seria um autêntico golpe de Estado. Outros regimes portugueses praticaram fraudes eleitorais: vai este inaugurar as fraudes pós-eleitorais?

Costa argumenta que uma “maioria de esquerda” é equivalente à “maioria da direita”. Não é. A aliança entre o PSD e o CDS é junta dois partidos democráticos; a aliança entre o PS, o PCP e o BE juntaria um partido democrático e dois partidos que rejeitam tudo aquilo que define a democracia portuguesa. O PCP e as forças políticas que constituem o BE têm como ideal as antigas ditaduras comunistas, e entre si admitem a saída de Portugal do Euro e da Nato, o repúdio da dívida pública, a reversão das privatizações e a nacionalização da banca.O PS foi o partido que em 1974-1977 liderou a luta por uma democracia pluralista de tipo ocidental, ao lado do PSD e do CDS e contra o PCP e a extrema-esquerda agora escondida no BE. O PS não é apenas um partido de “esquerda”, mas um partido da “esquerda democrática”, da mesma maneira que o PSD e o CDS não são apenas partidos de “direita”, mas da “direita democrática”. A direita democrática não se define apenas contra a esquerda, mas  contra o salazarismo, da mesma maneira que a esquerda democrática não se define apenas contra a direita, mas contra o comunismo. O facto de o PS, o PSD e o CDS serem partidos democráticos, incompatíveis com as correntes anti-democráticas de direita e de esquerda, tem este efeito: conforme o governo é dirigido pelo PS ou pelo PSD, as políticas públicas podem mudar, mas o regime não. A alternância entre esquerda e direita democráticas faz-se assim sem dramas. A partir do momento em que o PS deixasse de fazer fronteira com a esquerda que recusa a democracia pluralista e a integração europeia, tudo seria diferente. Votar no PS significaria o quê? Votar pela permanência no euro, ou pela saída do euro? Ninguém teria a certeza.

Não haja dúvidas: um governo dos derrotados de 4 de Outubro, que incluísse partidos que negam os fundamentos da actual democracia, provocaria uma imensa revolta no país. E tudo isto, para quê? Para que António Costa, depois de uma derrota inesperada, possa manter o lugar de secretário-geral do PS, do qual depende a sua sobrevivência como político profissional. É essa a única razão. Para defender o lugar, Costa precisa de chegar ao congresso do PS como primeiro ministro. Com esse fim, está disposto a sacrificar tudo e todos. Assim acabam os partidos, e assim acabam também os regimes.

7 de outubro de 2015

Crocodilos voando baixinho ... Pois!



    Coimbra? Faz todo o sentido. Depois de terem atribuído o título de doutor honoris causa a Lula, o cérebro da maior burla da história da humanidade, qual o espanto com Varoufakis?


    Despache-se o estado islâmico, de imediato,  para Coimbra, como agente preservador dos valores culturais locais, que ele os projectará ao firmamento.


    E... quanto a estudantes? Que tal incluir nos respectivos canudos que "realizou os seus estudos" na instituição capaz de tão doutos e pertinentes feitos?

O que afecta a Europa e o Ocidente "progressistas"...



...será cegueira, cobardia ou, muito simplesmente, uma (incurável?) super-estupidez?

5 de outubro de 2015

O CAIR DA FOLHA



  Neste Outono menos nostálgico que acalentador política e socialmente falando – pelo menos para alguns, fracção razoável do povinho incluído – faz sentido debruçarmo-nos um pouco sobre o que ontem (pré 5 de Outubro…) sucedeu eleitoral e mediaticamente falando.

  Num vôo de pássaro (pardal, gavião, albatroz…) sobre o que nos foi dado ver pelas diversas estações televisivas, algumas coisas nos chamaram a atenção.

(imagem recolhida aqui)

   Aqui as deixamos, ponto a ponto:


  1. A “performance” do antigo primeiro-ministro, hoje submetido a vilegiatura obrigatória num entreposto duma rua da capital, aos repórteres que quase ansiosamente o aguardavam. Apesar da sua evidente atitude, supostamente dinâmica política e interventora, não conseguimos ver o afamado “animal feroz” mas um indivíduo de rosto marcado pelas rugas da actual magreza (e apoquentações?), encanecido, uma espécie de fantasma político que, ao que cremos, ainda não percebeu que já nada tem a fazer no imaginário público nacional, excepto ser acolhido por gente dos médias visando faits divers supranumerários ou vitoriado por ineficazes.


  2. A intervenção, digna de um “vaudeville” de segunda ordem, dum declarante oficial do PC, antigo candidato à presidência de República, que mostrou que as ilusões circulantes naquela formação se traduzem em algo que seria trágico se não fosse tristemente cómico: ganharem tendo perdido, utilizando uma retórica que nos mergulha numa comiseração indisfarçável. Foi a isto que chegou a sombra errante do “Pai dos Povos”, com toda a sua carga simbólica, e que corrobora a velha e astuta frase de que a História se repete, primeiro como tragédia e depois como farsa?


  3. A presença, bem entrosada, de membros da chamada “tralha socrática”, depois passados para a figuração costista, apostados ferreamente em demonstrar que o seu novel chefe (foi o que se pôde arranjar…), foi um valente guerreiro, mau grado os desconchavos, os paupérrimos conceitos e a sua capacidade indiscutível para não interessar nada a quem mais interessaria – que é como quem diz: os cidadãos portugueses.


 4.  Os gritos vibrantes, denunciadores de uma certa habilidade proto-circense, digamos, do acervo de partidários com, bem na frente, amoráveis “múmias” do staff socialista, vitoriando galhardamente o chefe que acabava de ser derrotado quando este, ainda mais galhardamente e numa frase que diz tudo sobre o mesmo, anunciou que não se demitiria…


  5. Os esforços quase hercúleos de certas estações televisivas que, servindo-se de comentadores/convidados competentíssimos nos seus malabarismos, se esmeraram à boa maneira das fábulas para demonstrar que o preto é branco e o branco é preto politicamente falando, pelo menos na praça lusa.


  6. A deliciosa arrogância, alfacinhista na essência mas muito grega no perfil clássico, da dirigente bloquista, que ilustrou na perfeição a velha máxima de que, no que respeita a formações governamentais em hipótese, a impossibilidade disso antes de o ser já o era


  7. A garantia, dos triunfadores da contenda, de que vão proceder a ajustes na máquina de governar – o que, sendo uma vontade não é, pelo que se presume e pelo que já se ouviu, algo para acreditarmos estupendamente. Não esqueçamos que ainda por cima nas hostes rosas se conservam ferros, galambas e lacões (e outros pelo estilo) o que não nos permite sonhar excessivamente.


  8. Por último, a retórica do chefe comunista (a que alguns, tecnicamente, atribuem resiliências que viriam do estalinismo – discordo, acho que aquilo é mesmo estrutural), na sua vontade - claro que a favor, sempre, do bom povo totalmente proletário – de ir para o cadeirão curial sem ter para isso expressão maioritária dos votantes…

3 de outubro de 2015

Notícias sobre a integração de refugiados islâmicos - 2



Recebido por e-mail:

CONTENDAS EM CASAS DE ACOLHIMENTO DE REFUGIADOS NA ALEMANHA

Polícia toca Alarme - Quem é Agressivo tem Vantagens

Só no mês de Setembro entraram na Alemanha mais de 270.000 refugiados. Mais de metade dos refugiados tem idade inferior a 25 anos. Devido à “política de bem-vindos” de Merkel, aumenta o burburinho na sociedade alemã; o grau de popularidade da chanceler Merkel já desceu 9 pontos passando para o 4° lugar quando antes mantinha sempre o 1° lugar (Conta agora, apenas com 54% de cidadãos que aprovam a sua política, Wolfgang Schäuble passou para 1° lugar). Reformados e grupos carentes vêem cada vez menos dinheiro no orçamento alemão e contam já no próximo ano com pioramento da sua situação. O interesse e o medo tendem a desequilibrar-se. Em vários centros de acolhimento de refugiados há pancadarias entre grupos de refugiados; há médicos que já só querem entrar em centros de refugiados se acompanhados pela polícia. O sofrimento cria sofrimento.

Custa à imprensa alemã informar sobre tais casos para não fomentar sentimentos de agressão contra os refugiados mas atendendo à frequência das acções violentas entre estes, vê-se obrigada a deixar passar alguma informação em primeiro plano.

Em muitos casos, refugiados já traumatizados trazem os conflitos consigo, acrescentados por situações que não correspondem ao que tinham sonhado quando se puseram a caminho da Europa. A potencialidade dos conflitos é grande, se atendermos aos traumas da guerra, à longa caminhada até cá e que nos mesmos alojamentos se encontram muçulmanos sunitas e xiitas em guerra entre si, etnias e nações com interesses e costumes diferentes, cristãos que tiveram de fugir dos países devido à perseguição muçulmana, sofrendo agora a continuação da violência nos alojamentos, além do mais também os refugiados do Leste Europeu sem direito a asilo que esperam da sua estadia uma mesada superior à que recebem no emprego nas suas terras. Por estas e por outras o governo já determinou medidas tendentes a apressar o processo de asilo e em determinados casos optou por distribuir géneros em vez de dinheiro.

Para ajudar os estados federados e os municípios, o governo federal reembolsa-os em 670 euros por mês e por cada refugiado, comparticipando assim nos elevados custos dos estados federados e dos municípios. O apoio é concedido até que termine o processo de asilo de cada um. Uma vez reconhecido o direito a asilo, os asilados entram no sistema geral alemão de apoio social Hartz IV, tal como qualquer alemão necessitado.

Nalgumas casas de acolhimento de refugiados as contendas têm escalado. No alojamento de Calden-Kassel que foi concebido para 1.000 refugiados, agora com 1.750 refugiados de 20 nações, deu-se agora, depois de outras querelas, uma pancadaria com paus e gás de pimenta em que participaram 370 refugiados (albaneses e paquistaneses) e a que acorreram 50 polícias; 14 refugiados e três polícias foram feridos (http://zu.hna.de/calden2909). Polícias queixam-se que para acorrerem aos alojamentos já lhes falta o tempo para observarem os meios da droga e outros sectores de observação.

Nas palavras de Rainer Wendt chefe do sindicato da polícia, no “Passauer Neue Presse”, revela-se muita experiência recalcada e frustração acumulada, partilhada pelos colegas polícias nas suas intervenções em casas de alojamento de refugiados: "Temos experimentado essa violência durante semanas e meses. Juntam-se em grupos de acordo com etnias, religião ou com estruturas de clã e vão uns contra os outros com facas e armas caseiras”. "Islamitas querem impor lá os seus valores e a sua ordem". A minoria dos cristãos deveria, ser colocada, nas casas de alojamento de refugiados "sob protecção especial" porque é, muitas vezes, perseguida de forma maciça.

Muitos não se comportam como hóspedes e muitos refugiados alemães que depois da segunda guerra mundial vieram para a Alemanha (11 milhões) e viveram durante anos em alojamentos muito precários para refugiados, custa-lhes a compreender o comportamento e exigências de muitos refugiados de hoje.

Com a miséria e despovoamento da Síria, a longo prazo ganham os que querem lá a guerra. A Alemanha com tanta imigração rejuvenesce-se e cria maior concorrência no mercado de trabalho e deste modo disciplina o próprio operariado na concorrência europeia e globalista que quer uma precaridade comum aos diversos Estados. Assim evita uma flutuação de carentes entre os vários sistemas de apoio social da União Europeia.

Porque não se dá o mesmo direito aos que solicitam asilo nas embaixadas como aos que são transportados por quadrilhas que rebocam fugitivos que tiveram de pagar entre 4.000 e 8.000 euros aos que organizaram o seu transporte?

Que se faz contra os bandos de candongueiros ou traficantes? A proposta de lei do governo contempla um mínimo de três meses de cadeia para tais delitos. Porque é que alguns partidos de esquerda se opõem a medidas concretas contra os traficantes?

A crise dos refugiados continuará enquanto as potências continuarem a lucrar e ganhar créditos com a desestabilização dos países através da guerrilha e da morte.

O problema dos refugiados sírios resolve-se quando os governos dos USA, Rússia, Arábia Saudita e Irão se juntarem a uma mesma mesa; para isso a elite europeia terá de deixar de jogar com eles o jogo sujo e disser à população o que verdadeiramente se passa e os motivos que a levam a actuar assim.Os responsáveis conduzem lá fora a guerra sangrenta de que os países e os refugiados são vítima e cá dentro na Europa conduz-se a guerra mediática de que somos nós as vítimas. Na realidade, a política internacional conflituosa e de rivalidade entre os USA e a Rússia, entre os xiitas e sunitas, são os responsáveis por uma situação de destruição de nações e por uma nova situação na sociedade europeia de consequências futuras imprevisíveis. O vice-presidente do Parlamento Federal, Singhammer solicita a limitação do direito dos refugiados ao reagrupamento familiar. Refere que os 200.000 refugiados da síria na Alemanha trariam consigo um "potencial de reagrupamento ” para a Alemanha de 600.000 familiares.

A Liga dos Direitos Humanos IGFM em Frankfurt expressou que a proteção do direito de asilo exige um não ao abuso. A maioria dos migrantes vem de países seguros onde não há perseguição política. Há dias em que entram na Alemanha 10 000 refugiados.

O político dos Verdes Jürgen Trittin acaba de afirmar: "A Alemanha está a desaparecer a cada dia que passa". Claudia Roth, do mesmo partido, comentou: "Alemães são Não Migrantes. Nada mais." A sociedade europeia, devido à irresponsabilidade política cada vez se radicalizará mais.

António da Cunha Duarte Justo
“Pegadas do Tempo” www.antonio-justo.eu